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Reportagem Renascença

Loulou, a porteira de “coração grande” candidata às municipais de Paris. “Um prédio sem porteira é um prédio sem alma”

15 mar, 2020 - 15:30 • Sofia Freitas Moreira

Porteira há 27 anos, Lourdes Fernandes não imaginava que um dia poderia vir a dar cartas na política. As amigas descrevem-na como uma pessoa de "coração grande, sempre pronta para ajudar os outros".

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Lourdes Fernandes é porteira no 17.º bairro de Paris. Há 27 anos que trabalha no mesmo prédio, onde, carinhosamente, todos a tratam por Loulou. Quando era apenas uma jovem de 15 anos, que decidiu fazer as malas e emigrar sozinha para França, não imaginava que um dia entraria na disputa pelas eleições municipais da capital que adotou para a vida.

Foi Geoffroy Boulard, atual presidente da Câmara do 17.º bairro parisiense, que rapidamente percebeu o potencial de Loulou. Conhecem-se desde 2007, altura em que Lourdes decidiu começar a trabalhar como voluntária na Câmara. Apesar da agenda preenchida da porteira, conseguiu marcar um encontro com Lourdes e convidá-la a integrar a sua lista de recandidatura às eleições, que decorrem a 15 e 22 de março.

“Ele viu que eu era uma pessoa muito ativa no bairro e já há muito tempo que tinha vontade que eu integrasse a equipa municipal. Quando me fez o convite, disse-lhe que não tinha muita disponibilidade, mas depois de me ter explicado que o tempo que dou à Câmara já seria o suficiente, decidi aceitar”, explica Loulou à Renascença.

"As novas gerações preferem pagar a uma empresa pelos serviços de limpeza, mas não entendem que um prédio sem porteira é um prédio sem alma."

Caso vençam as eleições, Loulou passa a ser a conselheira da delegação de solidariedade. “É o que já faço há muitos anos, só que estarei ao serviço dos habitantes do 17º bairro de Paris com outro estatuto, mais oficial”. Projetos e ideias não lhe faltam, mas, graças ao amor que tem pela profissão de porteira, Lourdes diz que, primeiro, quer desenvolver a já existente “rede nacional das porteiras solidárias”, da qual é porta-voz há dois anos.

“A rede solidária é uma rede que criamos para poder integrar todas as porteiras de França, para tentar salvar esta profissão que está em risco de desaparecer. As novas gerações preferem pagar a uma empresa pelos serviços de limpeza, mas não entendem que um prédio sem porteira é um prédio sem alma. Precisamos destas alminhas pequeninas que andam por ali a fazer viver os prédios”.

Acompanhada por mais três amigas, veio passar uns dias férias a Lisboa, cidade que ainda não tinha tido oportunidade de conhecer. “A Loulou é uma grande amiga minha, conheci-a em França, em 2015. Decidi trazê-la a Lisboa, porque, como ela foi tão cedo para Paris, nunca chegou a conhecer a capital portuguesa”, explica Ferreira Delfina, também ela emigrante portuguesa em França.

Divertidas e cúmplices, descrevem Loulou como uma pessoa com um “coração gigante, sempre pronta para ajudar”. “Ela acaba por se preocupar mais com os outros do que com ela própria, mas é por isso que toda a gente gosta dela. É uma inspiração, mesmo”, diz Mehr Annaelle, amiga francesa de Loulou.

Loulou emigrou sozinha quando tinha apenas 15 anos, uma realidade comum no Portugal dos anos 80. Cresceu em Vouzela, no distrito de Viseu e foi a primeira da família a deixar o país. Quando chegou à capital francesa, começou por tomar conta de crianças. A profissão que hoje tanto acarinha surgiu em 1993, quando já tinha filhos, mas, para Loulou, não há emprego melhor que ser porteira. “Foi uma oportunidade que surgiu de repente e não olhei para trás. Sinto que fui feita para isto”.

Num dia normal de trabalho, Lourdes trata dos caixotes do lixo, faz a limpeza do prédio e distribui as cartas pelas caixas de correio. Os laços de amizade e de solidariedade entre os habitantes são as partes favoritas do que faz. “Sou como um fio que liga as pessoas e sinto-me feliz por isso. Somos mesmo uma grande família que se entende muito bem, estamos sempre lá uns para os outros, nos bons e nos maus momentos”.

Graças ao proprietário do edifício, que não a obriga a ficar no prédio o dia inteiro, Lourdes tem oportunidade para desenvolver outras atividades fora da sua rotina normal de trabalho. Faz voluntariado num centro ecológico e social de ajuda aos sem-abrigo e apoia as pessoas mais idosas do prédio, acompanhando-os às compras ou a consultas hospitalares. “Estas ações fazem-nos pensar nas nossas próprias vidas, que são muito fáceis em comparação com certas situações. É bom relembrar que somos todos humanos e que precisamos de estar ao serviço uns dos outros”.

Uma das atividades mais marcantes que Loulou desenvolve é a festa dos vizinhos, um evento anual que começou por juntar os habitantes do prédio onde trabalha. A festa existe há 20 anos e, quando começou, consistia num convívio no hall de entrada do edifício, com aperitivos preparados por Loulou. O número de participantes começou a aumentar e, rapidamente, o evento passou para o pátio. Hoje, é um evento que, todas as últimas sextas-feiras do mês de maio, junta mais de mil pessoas nas ruas do 17º bairro de Paris.

“Há televisões que vêm de todo o lado. Diria que se criou uma autêntica aldeia, ali, naquele pedacinho de Paris. Existem mais de 40 nacionalidades no bairro, tudo com culturas diferentes. Quando a gente se junta, é muito rico para nós e, especialmente, para os nossos filhos”.

"Estou ao serviço dos habitantes, mas não sou um tapete. Se eu respeito toda a gente, eles também têm de me respeitar"

A realidade das porteiras portuguesas emigrantes em França existe há muitas décadas e, segundo Loulou, mudou muito desde o ano em que se mudou para Paris. “Antigamente, as porteiras eram umas senhoras vestidas com aventais e com lenços na cabeça, que achavam que tinham que simplesmente estar ao serviço dos outros sem poderem dizer uma palavra”. Hoje, diz que as coisas mudaram e que todas as pessoas do prédio estão ao mesmo nível. “Estou ao serviço dos habitantes, mas não sou um tapete. Se eu respeito toda a gente, eles também têm de me respeitar, estamos todos em pé de igualdade”.

Curiosamente, é amiga de Rúben Alves, realizador do filme “A Gaiola Dourada”, inspirado na vida da sua mãe, uma porteira portuguesa em França. Loulou diz que a longa-metragem é fiel à realidade e são várias as semelhanças com a sua própria vida. O marido também trabalhava na área da construção civil e os filhos, apesar do orgulho pelas origens, sentem-se completamente franceses.

Ao contrário do que acontece na história adaptada ao grande ecrã, não pensa em regressar para Portugal. Diz-se feliz em França, no país onde criou a sua família e onde encontrou o mesmo sentimento de aldeia que tinha em Portugal. “Os meus filhos dizem que tenho uma vida mais ativa que a deles e que estão muito felizes por me verem feliz. Sempre estive ao serviço das pessoas e eles dizem que nunca me viram de outra forma”.

Otimista e sempre focada no futuro, Loulou disse que até há muito pouco tempo não imaginava que um dia poderia vir a dar cartas na política. Diz que a única forma de conseguir dar conta de tudo o que lhe foi acontecendo ao longo dos anos seria ao escrever um livro sobre a sua vida. Uma possibilidade que não descarta totalmente.

“Quem sabe? Tudo o que me aconteceu, seja bom ou mau, tornou-me na pessoa que sou hoje. Sempre me senti uma sortuda porque, cada vez que desejo alguma coisa, ela acaba por acontecer. O truque está em não pensar demasiado no passado e andar sempre para a frente”.

As eleições municipais francesas de 2020 começam este domingo, dia 15 de março, e terminam no dia 22.

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