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A ECONOMIA DE FRANCISCO

“As novas gerações são mais exigentes com a transparência e a sustentabilidade”

10 mar, 2020 - 16:16 • Ângela Roque

Madalena Rocha e Melo, advogada, e Tomás Virtuoso, economista, perspetivam encontro com o Papa – que foi adiado para novembro, em Assis – e contam como os valores da verdade e da ética marcam o quotidiano do seu mundo profissional.

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São dois dos 50 jovens portugueses inscritos para o encontro “A Economia de Francisco”, que o Papa convocou para Assis. Ela advogada, ele economista, frequentaram ambos o curso de preparação para o encontro, e não estavam a contar que não se realizasse.

“O adiamento apanhou-me de surpresa, mas continuo com vontade de participar, e em novembro lá estarei”, assegura Madalena Rocha e Melo. Já Tomás Virtuoso admite que suspeitou que o evento fosse cancelado, mas mantém uma perspetiva positiva. “Podemos ver isto como uma boa oportunidade de estender a reflexão até novembro. Teremos mais tempo para pensar nisto a fundo e para ir com boas ideias para Assis”, refere. Madalena acrescenta que “o curso já proporcionou várias reflexões, e estes próximos tempos vão ser muito clarificantes, para perceber e ajudar os jovens a levar a sério este tipo de compromissos”.

Um dos desafios que o Papa lança aos jovens é que se encontre um novo modelo económico baseado na ‘Verdade’ e na ‘Santidade’, o que para Madalena faz todo o sentido. “Eu sou advogada, mas antes de ser advogada sou católica, e para os católicos a Verdade é Jesus Cristo. Portanto, o que podia ser subjetivo nesta palavra 'Verdade', acaba por se concretizar numa pessoa em concreto. E basta olharmos para os Evangelhos e conseguir daí tirar critérios muito concretos para aquilo que podemos assumir como a 'Verdade' no nosso dia-a-dia”.

Madalena, que já passou pelos maiores escritórios de advocacia em Portugal – Abreu Advogados, Morais Leitão, está agora na Vieira de Almeida - garante que as questões da verdade e da ética já se colocam no dia a dia da profissão. “Colocam-se e são desafios. Tenho o privilégio de atualmente de trabalhar num escritório que tem uma área dedicada exclusivamente à economia social, apoiando as organizações sociais e o setor social, capacitando-o, e também no lado do setor privado, ajudando as empresas a integrar no seu negócio preocupações sociais e ambientais. Atualmente este tipo de preocupação ainda não é muito comum na sociedade, mas acredito que nos próximos anos se vai mostrar imprescindível as empresas posicionarem-se desta forma”.

E na área económica e financeira? Tomás Virtuoso (que já passou pelo Deutsche Bank, pelo Banco de Portugal, pelo Ministério da Economia e atualmente trabalha na EY - Parthenon) garante que “essas preocupações existem cada vez mais”, porque “as novas gerações são cada vez mais exigentes com as instituições em que trabalham”.

“Sinto que há cada vez mais uma exigência por um certo cultivo da transparência, por uma preocupação com o longo prazo, mais do que com o curto prazo, e também com a sustentabilidade”. E com a “qualidade de vida” que as pessoas podem e devem ter “fora das suas vidas profissionais”.

Madalena também vê na nova geração muita vontade em mudar o rumo das coisas. “É uma geração muito empenhada e inconformada, principalmente, e que está expectante. E acho que este encontro (com o Papa) vai ser importante também para isso”.

Mas, será possível vir a ter uma economia de futuro baseada na verdade e na Santidade, como pede o Papa? Tomás acredita que sim. “Como pessoas somos capazes da verdade e de ser todos os dias melhores, e isso, em última análise, é sermos capazes de ser Santos. E a economia não é mais do que um conjunto de atividades que são feitas por pessoas concretas, que são capazes de verdade e de Santidade, portanto a economia pode ser um lugar de verdade e de Santidade”.

Tomás Virtuoso sublinha, ainda, que a nova geração “entrou na idade adulta num tempo de dificuldades e de crise económica”, o que ajudou muitos a compreenderem que “há coisas que dão mais sentido à vida do que propriamente ter muito dinheiro na conta bancária. Encontrar Deus na nossa vida para mim, como jovem católico, e para a Madalena também, é claramente aquilo que dá mais sentido à nossa vida”.

“Penso que a nossa geração, mesmo quem não tem fé, anda à procura de outras coisas, que não só o dinheiro, para dar sentido à sua vida, e isso talvez se deva ao facto de termos crescido no meio de dificuldades que tivemos que saber ultrapassar”.

O espaço de colaboração da Renascença com a Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE) sobre o encontro “A Economia de Francisco” é emitido todas as terças-feiras, depois das 13h00. Apesar do adiamento do encontro para novembro, até 26 de março vamos continuar a analisar as propostas da Igreja e do Papa com a ajuda de diversos protagonistas.

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