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Vitória na Carolina do Sul deixa Biden como o único capaz de travar Sanders

01 mar, 2020 - 09:36 • José Alberto Lemos, correspondente nos EUA

Uma campanha a levantar voo. É o que parece ter saído da primária na Carolina do Sul, onde um eleitorado maioritariamente negro deu uma clara vitória a um representante tradicional do Partido Democrático. Biden ficou a apenas 12 delegados de Sanders e lidera no voto popular. Mas a grande clarificação chega na próxima terça-feira.

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Não foi propriamente uma surpresa, todas as sondagens o previam, mas a vitória de Joe Biden nas primárias da Carolina do Sul, neste sábado, foi o clique de que o “establishment” do Partido Democrático precisava para começar a unificar-se em torno de um candidato consensual.

Pelo menos para os democratas “mainstream” a candidatura de Biden saiu finalmente de uma primária com uma clara vitória que lhes dá a esperança de terem alguém que os represente e que tenha hipótese de obter a nomeação do partido.

Depois de falhar no Iowa e no New Hampshire, e de ter ficado em segundo no Nevada, o antigo vice-presidente tinha na Carolina do Sul o seu teste decisivo. Era uma eleição “do-or-die”, vencer ou morrer, e passou no teste. Biden teve quase 50% dos votos, deixando o segundo classificado, Bernie Sanders, a larga distância com cerca de 20%.

O terreno era-lhe favorável. Com cerca de 60% de eleitorado negro, a Carolina do Sul é um estado onde Biden, sobretudo pelo facto de ter sido vice-presidente de Obama, tinha boas condições para ganhar. Três em cada cinco negros votaram nele, assim como esmagou entre os moderados. Na hora decisiva, os apoios não lhe faltaram. Em particular o apoio de James Clyburn, um congressista negro muito prestigiado no seu estado, foi fundamental — 61% dos eleitores disseram que esse apoio tinha sido importante para a sua decisão de votar em Biden.

Só ele e Sanders elegeram delegados à convenção do partido nesta primária, todos os restantes candidatos ficaram aquém do limiar dos 15% necessários para a eleição. E com a ampla vitória obtida, Biden soma agora 41 delegados contra os 53 de Sanders e lidera o voto popular no conjunto das quatro primárias já realizadas.

Dada a dimensão da Carolina do Sul, por comparação com os estados anteriores onde houve votações, Biden tem agora mais 30 mil votos do que Bernie Sanders. Isso não faz dele o líder da corrida, mas são indicadores que a sua campanha vai certamente explorar para convencer o eleitorado que ele é o único candidato viável para travar a nomeação do progressista Sanders.

“Estamos bem vivos. Esta campanha está a levantar voo”, disse ele no discurso de vitória, perante aqueles que considerou o “coração” do Partido Democrático. E retomou um argumento utilizado por Pete Buttigieg na semana passada: “nós, os democratas, queremos um candidato que seja um democrata, que tenha orgulho em ser democrata”.

O recado é para aqueles que apoiam Bernie Sanders ou Mike Bloomberg, dois homens que este ano disputam a nomeação democrática, mas que não fazem parte da história do partido. Por isso, Biden socorreu-se do legado de Clinton e especialmente de Obama que considerou “o mais bem-sucedido presidente do nosso tempo”.

Apoios do establishment

São argumentos que não surgem por acaso. Com esta vitória na Carolina do Sul, Biden espera unir todos aqueles que se identificam com o Partido Democrático, que têm orgulho na sua história, nas suas lutas e nas suas conquistas ao longo dos anos, para vencer os recém-chegados e bater Trump em novembro. É, no fundo, um apelo ao legado e aos valores tradicionais dos democratas, que ele considera que nem Sanders, nem Bloomberg representam.

E os sinais disso mesmo começaram a chegar neste sábado. Além dos dirigentes da Carolina do Sul, surgiram apoios à sua candidatura que prenunciam a adesão do “establishment” democrata. O senador Tim Kaine, candidato a vice-presidente com Hillary Clinton em 2016, o ex-governador da Virgínia e antigo “chairman” do partido, Terry McAuliffe, e o congressista da Virgínia Bobby Scott, são apenas três exemplos que deverão multiplicar-se nos próximos dias.

É provável que alguns pesos pesados do partido venham a público proclamar o seu apoio a Biden, agora que a sua candidatura se posicionou como a única capaz de disputar com Bernie Sanders. A dúvida é se o farão antes ou depois da Super Terça-feira, daqui a dois dias. É que a tomada de posição de alguns desses dirigentes históricos do partido funcionará como um sinal importante para alguns dos candidatos ainda na corrida.

Pete Buttigieg e Amy Klobuchar, nomeadamente, são dois candidatos que se identificam como moderados, cujas candidaturas surgem agora como praticamente inviáveis, e que só contribuem para dividir os votos que, em princípio, iriam para Biden.

Após esta primária na Carolina do Sul, assessores de Buttigieg revelaram à CNN que o seu candidato está a ponderar se ainda faz sentido manter-se na corrida. Isto porque insistir numa candidatura inviável pode prejudicar o seu futuro político. Com apenas 38 anos e uma capacidade política que surpreendeu toda a gente nestas primárias, Buttigieg quererá certamente acautelar o futuro no seio do partido, reservando-se para próximas batalhas.

Quanto à senadora Amy Klobuchar, que nunca conseguiu traduzir em votos as boas prestações nos debates, parece empenhada em ir à luta no seu estado do Minnesota, na próxima terça-feira, naquele que deverá ser o seu último teste. De ambos, Buttigieg e Klobuchar, se espera que unam esforços em torno de Joe Biden, reforçando o campo moderado. Já quanto a Elizabeth Warren, o mais provável é desistir em favor de Sanders, com cujas ideias mais se identifica.

Em qualquer caso, a próxima terça-feira é, sem dúvida, o Dia D destas primárias. Com 14 estados a votos, entre os quais alguns dos maiores como a Califórnia e o Texas, onde serão eleitos cerca de dois terços dos delegados necessários para garantir a nomeação (1991), esta Super Terça-Feira vai ser o momento clarificador da campanha. Não só porque deverá reduzir o leque de candidatos na corrida, mas também porque trará resposta para essa grande incógnita que corre por fora chamada Mike Bloomberg.

Apresentando-se pela primeira vez às urnas, o multimilionário está bem posicionado em alguns estados, segundo as sondagens, mas bem menos noutros. Em certa medida, a sua candidatura só será viável se a de Biden falhar e os sinais deste sábado que vieram da Carolina do Sul apontam mais para o antigo vice-presidente.

A Carolina do Sul trouxe ainda uma outra clarificação. O milionário Tom Steyer, que financiou a sua campanha com fundos próprios e apostou tudo neste estado, desistiu. Filantropo pouco conhecido a nível nacional, Steyer assumiu muitas causas caras aos democratas, especialmente o aquecimento global, mas não dispunha de qualquer aparelho partidário nem conseguiu criar nenhum movimento de bases eficaz. Apesar dos 22 milhões de dólares que gastou em anúncios só na Carolina do Sul, ficou em terceiro lugar com cerca de 12% dos votos. Um exemplo de que o dinheiro nem sempre pode comprar uma eleição. Um mau prenúncio para Bloomberg?

Ao desistir, Steyer não indicou se apoia algum dos candidatos em presença.

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