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Quem quer ser professor? Cursos de mestrado em ensino estão sem candidatos

24 fev, 2020 - 13:00 • Manuela Pires

Na Universidade de Lisboa, há 13 cursos de mestrado em ensino, mas há cada vez menos candidatos. No conjunto de todas as áreas disciplinares, não chegam a 100 os alunos que saem da Universidade e estão habilitados a ser professores do terceiro ciclo e do ensino secundário.

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A falta de professores já se faz sentir em muitas escolas do país. Na sua maioria, a classe docente tem mais de 50 anos de idade. Apenas 1,1% dos professores têm menos de 35.

Segundo os dados do relatório do Conselho Nacional de Educação, até 2030 mais de metade dos professores (57%) vai aposentar-se. Ao mesmo tempo, os cursos de mestrado em ensino de onde saem os professores para o terceiro ciclo e para o ensino secundário estão sem candidatos e muitos já fecharam por falta de alunos.

No Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, Mónica Baptista, que integra a comissão coordenadora dos mestrados em ensino, revela à Renascença que “em todas as áreas disciplinares, desde a Física e Química, Informática, Matemática, Biologia, Geologia, Geografia, História, nos vários cursos de línguas, temos cerca de 90/100 alunos por ano”.

É um cenário assustador, reconhece a investigadora, se tivermos em conta a idade dos atuais professores, por exemplo, na disciplina de Física e Química: "A percentagem de docentes com menos de 30 anos é apenas de 0,2%."

“Na Universidade de Lisboa, em 2001, havia 66 alunos a entrar nas licenciaturas em ensino da Física e Química, e em 2002/2003 eram 103 alunos. Atualmente, temos, no máximo, cinco alunos a entrar no mestrado por ano”, conta Mónica Baptista, que coordena o mestrado nesta área.

“A nível nacional, apenas as Universidades de Lisboa, Porto e Coimbra têm estes cursos de onde saem 10 alunos aptos a ensinar a disciplina de físico química . Os restantes fecharam por falta de alunos”, sublinha.

Mónica Baptista sublinha que se tratam de "estudantes altamente motivados, que, quando saem daqui, têm emprego", com uma "taxa de empregabilidade de 100%”.

12 mil abandonaram a profissão

Este cenário mostra que em Portugal ser professor é cada vez menos uma profissão atrativa. Para além dos salários, do modelo de seleção e recrutamento de professores, da desvalorização das carreiras, os docentes estão exaustos, desmotivados, cansados. Segundo a Fenprof, entre 12 e 15 mil professores abandonaram a profissão na última década.

Michelle Domingos deixou o ensino há sete anos. Licenciada em Belas Artes, especificamente em pintura, foi no mestrado em arte e design para o espaço público que Michelle decidiu que queria ser professora.

Deu aulas de Educação Visual durante três anos, como professora contratada. Mas, em 2012, uma decisão do Ministério da Educação afastou milhares de professores das escolas, com a extinção do par pedagógico de EVT. “Afastaram-se os contratados que eram vistos como despesa desnecessária, houve um sangramento”, diz à Renascença.

Michelle ainda deu aulas durante mais um ano no Instituto de Formação Profissional, mas decidiu abandonar a profissão. Hoje, é assistente administrativa no Sindicato dos Professores do Norte. “Tal como a escola está, não creio que haja neste momento um professor que se sinta realizado.”

Novos que já são velhos

No ano passado, um relatório da Comissão Europeia apontava o envelhecimento dos professores como um problema no nosso país. Estela Costa, professora do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, diz que Bruxelas está atenta e quer perceber como é que se pode captar e fixar os bons professores.

"Esta é que é a questão, porque temos pessoas com formação que querem ser professores, mas é preciso mantê-los na carreira”, defende Estela Costa.

Veja-se o caso de Alexandra Rodrigues, 46 anos, que dá aulas há 23 mas que só agora entrou na carreira: é uma das novas professoras.

“Ao fim de 23 anos, concorri a nível nacional para tentar efetivar e, havendo lugares no Norte, o Ministério da Educação só efetiva os professores em Lisboa, Alentejo e Algarve porque é onde há falta", conta Alexandra à Renascença.

Alexandra mora em Ponte de Lima, é licenciada em gestão de empresas, deu aulas de Economia, mais tarde fez uma pós-graduação em Educação Especial. Foi neste grupo que ficou efetiva, colocada numa escola a muitos quilómetros de casa. “Fiquei numa escola em Alverca e todos os anos tenho de pedir mobilidade para ficar mais perto de casa."

A isto, acresce o facto de, neste momento, Portugal ter “um grande grupo de professores à beira dos 60 anos de idade que têm muita experiência, mas que estão cansados de estar em sala de aula" -- e que "podem ter outras tarefas na escola", remata Estela Costa.

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  • Helena Vidinha
    26 fev, 2020 Angeja 15:52
    Quando, em 2006/07, a Educação passou a ser desprezada, espezinhada, pelo gabinete ministerial, por pessoas que desconheciam a escola pública, o amor e a dedicação dos professores que, contrariamente ao que se passou a dizer nessa altura, trabalhavam o dobro das horas que lhe eram atribuídas, para formarem cidadãos capazes de engrandecer a sua/nossa sociedade, começou o abandono de professores novos, bons profissionais. Ao longo dos anos e com o crescente menosprezo dos governantes, a desautorização na função educativa, a obrigação de passar mais tempo a preencher inútil papelada, do que a ensinar os seus alunos, a injustificada interferência dos pais no processo didáctico, que trouxe a violência e transformou a carreira docente numa profissão de risco, a falta de condições e de meios com que a escola se debate, os baixos salários e a falta de respeito quando se anuncia um aumento de miséria, tudo tem provocado, muito justificadamente, o desinteresse pela superior função docente, onde ela é mais importante e desafiante. Falo com conhecimento de causa: fui professora no ensino secundário, durante 37 anos, porque gostava dos alunos, da escola, da profissão. Em 2011, abandonei tudo, porque a escola da Maria de Lurdes Rodrigues, deixou de ser a minha ESCOLA.
  • Vanessa Coelho
    26 fev, 2020 Japao 09:50
    Estou fazendo liçenciatura de Matemática e realmente ainda não sei se quero ser professora. Pensso muito fora o medo dos alunos e dos Pais. Sinceramente pensso prestar concurso para Banco e se eu passar eu acho que não abro mão da carreira bancária p ser professora. Mas vamos lá né terminar a faculdade e ver o que vem pela frente.
  • Cidadao
    25 fev, 2020 Lisboa 11:20
    Quem é o doido que quer ser professor, hoje me dia? Para o ser, são muitos anos a tirar licenciaturas, Mestrados e não falando no esforço pessoal, tudo isso custa dinheiro. Depois segue a profissão: precário com a casa às costas, durante 20 anos senão mais, a receber pelo índice mais baixo, a aturar os mal-educados dos filhos dos outros, e a aturar encarregados de educação que são tudo menos isso, sempre debaixo de agressões verbais e até físicas, e para quê? Salários irrisórios - quando falam em 3 a 4 mil euros/mês isso é para quem tem 40 anos de carreira, mas carreira mesmo, não 40 anos de precário - anos e anos com a casa às costas e onde por vezes só com o alojamento, paga-se para trabalhar, reconhecimento social nenhum, turmas e turmas de turbulentos indisciplinados que não hesitam em partir para a agressão mas se levarem um estalo em troco, gritam logo que são "menores", e governo a lançar descrédito e vagas de fundo a apresentar professores como uns malandros da reivindicação que não querem trabalhar ... Quem é que sendo licenciado, logo mão-de-obra qualificada que se não tem lugar aqui é meter-se num avião que a poucas horas daqui, há Países que o/a recebem de braços abertos e lhes dão condições com que aqui apenas sonham, quem é que quer ir para professor nesta caricatura de País e Sociedade?
  • manuel ferraz
    24 fev, 2020 19:25
    Para professores agora que concorram os políticos. Maltrataram os professores, forças de segurança e demais classes e agora faltam professores é bem feito. Os alunos que façam com Sócrates, Miguel Relvas e outros mais.... que eram engenheiros com cursos tirados aos Sábados, Domingos e feriados. Não precisavam de professores bastava apenas o diretor(a). A partir de agora faz-se igual passam todos.... via a democracia
  • Lúcia Dias
    24 fev, 2020 Setúbal 16:34
    Muito boa tarde, Estive a ver a vossa reportagem sobre quem quer ser professor em Portugal? E infelizmente, mais uma vez, não foram capazes de fazer uma averiguação aos alunos que tiram o mestrado em ensino. Uma das razões para que os alunos não vão para o ensino é o número de anos que se leva a tirar. No meu caso que tenho uma licenciatura de 4 anos em geologia . Tenho de tirar mais um ano em biologia e mais 2 anos de mestrado. O que prefaz 7 anos para exercer a profissão...Quem quer ir para um curso assim? Já para não falar que não existe este curso em pós laboral. O que faz com que muitas pessoas não o consiga tirar...enquanto as regras não mudarem, não vamos ter professores...