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Crónicas da América
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Corrida democrática à Casa Branca oscila entre um socialista e um multimilionário

20 fev, 2020 - 09:26 • José Alberto Lemos, em Nova Iorque

Foi o primeiro debate em que esteve Michael Bloomberg e as expectativas eram altas. Atacado com dureza por todos os outros candidatos, o multimilionário não soube defender-se e pode ter comprometido a sua aposta em conquistar os votos moderados. Elizabeth Warren foi implacável nas críticas e teve a melhor prestação de sempre.

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Num debate eleitoral, por vezes os “sound bites” contam mais do que os argumentos elaborados. Um bom “sound bite” define, por vezes, o vencedor de um debate ou carateriza-o melhor do que qualquer outro fator.

Nesta quarta-feira, no debate de Las Vegas, Nevada, o ex-mayor Pete Buttigieg, a grande surpresa das primárias democráticas, foi quem melhor exprimiu o dilema que varre neste momento o Partido Democrático. Com uma fórmula desabrida: o nosso partido tem de escolher um democrata para bater Donald Trump.

Parece uma “lapalissada”, mas não é. E porquê? Porque a ironia desta corrida democrática é que os eleitores parecem estar polarizados entre dois candidatos que não são… democratas. Isto é, que não pertencem ao partido e que, em rigor, não comungam do essencial da doutrina do Partido Democrático.

Nas palavras de Buttigieg, a escolha “entre um socialista e um multimilionário”, entre alguém que “quer incendiar o partido e alguém que quer comprá-lo” não é a escolha adequada para vencer as eleições em novembro e é até, reconheça-se, um pouco contra-natura.

O socialista que quer incendiar o partido lidera neste momento as sondagens. Bernie Sanders é senador independente pelo Vermont, e nem após o sucesso relativo que teve nas primárias de 2016 contra Hillary Clinton aderiu ao partido.

O multimilionário que quer comprar o partido está em segundo lugar nas sondagens. Michael Bloomberg, ex-mayor de Nova Iorque, já gastou mais de 400 milhões de dólares em propaganda televisiva e na internet, e estreou-se esta quarta-feira (madrugada de quinta em Portugal) nos debates televisivos graças à sua posição nas sondagens.

O debate polarizou-se entre os dois. Sanders porque é o “frontrunner” que todos precisam de atacar para lhe retirar a liderança. Bloomberg porque é o recém-chegado que nem sequer disputa os quatro primeiros duelos nas urnas e cuja fortuna lhe está a comprar popularidade e a colocar como alternativa viável ao socialista Sanders.

Mas foi uma polarização assimétrica, digamos, porque enquanto os ataques a Bernie Sanders visaram as suas ideias e o seu programa “esquerdista”, os ataques a Bloomberg visaram o seu passado politico e empresarial e a sua condição de multimilionário.

Esqueletos no armário

E foram violentos. Violentíssimos, mesmo, com a senadora do Massachusetts Elizabeth Warren a disparar as cargas mais pesadas. Bloomberg tem alguns esqueletos no armário, sobretudo quanto ao ambiente de assédio marialva que dominaria as suas empresas.

Há várias queixas de mulheres que trabalharam no seu império empresarial e que o acusam de ter comportamentos machistas e desrespeitadores da condição feminina, incluindo em situações de gravidez. Tal como há vários acordos de confidencialidade assinados por mulheres que lá trabalharam e que, a troco de dinheiro, aceitaram remeter-se ao silêncio. Elizabeth Warren perguntou quantos eram estes acordos e se Bloomberg estava disposto a libertar essas mulheres do compromisso de silêncio e, em nome da transparência, permitir que elas venham a público contar o que se passou.

Bloomberg titubeou, não soube dizer quantos casos eram, e defendeu a manutenção dos acordos de confidencialidade. Percebeu-se que não tinha uma resposta preparada para o tema, que, de resto, também foi abordado por Joe Biden e por Bernie Sanders. O fogo foi cerrado.

Como o foi na questão da política de combate ao crime adotada quando foi presidente da câmara de Nova Iorque, entre 2001 e 2013. Uma política que permitiu à polícia mandar parar e revistar (stop and frisk) quem lhe parecesse suspeito e que na prática se revelou racialmente discriminatória contra negros e latinos.

Bloomberg já se tinha penitenciado publicamente por isso, mas para os seus contendores não bastava. Joe Biden disse que a administração Obama tinha oferecido mediadores para resolver o problema, mas o mayor não tinha aceite. Bloomberg voltou a pedir desculpa, mas sublinhou que, sob a sua administração, o crime em Nova Iorque tinha baixado cerca de 50%.

São dois temas embaraçosos para o multimilionário que quer ganhar a confiança da maioria dos eleitores democratas para disputar a Casa Branca a Donald Trump em novembro. Dois temas que o colocam em rota de colisão com as convicções do eleitorado liberal americano, mas que já tinham sido explorados politicamente quando ele se candidatou à câmara de Nova Iorque, sem consequências eleitorais. E Nova Iorque é uma das cidades mais liberais na América, como sabemos.

A questão que se coloca hoje é saber se, desta vez, numa corrida eleitoral a nível nacional, onde a exposição mediática é muito maior e o escrutínio público é implacável, estes dois esqueletos no armário serão suficientes para comprometer a candidatura de Bloomberg.

Se depender da vontade dos seus adversários, os temas nunca mais sairão da agenda porque ficou bem patente no debate que se há algo em que os cinco rivais não têm divergências é na vontade de afundar a candidatura de Bloomberg. Como Elizabeth Warren sintetizou, “o povo americano não quer substituir um multimilionário arrogante por outro na Casa Branca”.

Prestação desastrosa

E talvez até nem precisem de muito esforço para tal. Em boa verdade, a prestação de Bloomberg no debate foi pouco menos do que desastrosa. Não teve uma única intervenção poderosa, uma frase que marcasse a noite, ficou embaraçado mais do que uma vez quando o confrontaram com questões delicadas, titubeou, foi arrogante a falar da fortuna que possui e defendeu mal o excelente currículo que tem em matéria de filantropia. Incluindo no financiamento de muitas causas caras aos eleitores democratas, como o controlo do uso e porte de armas, as alterações climáticas, a luta contra a droga e o tabagismo. Pareceu mesmo displicente naquele palco.

Desde 2009, quando concorreu ao último mandato em Nova Iorque, que Bloomberg não participava em debates, o que justificará o facto de estar “enferrujado” nestas andanças. No final, a candidatura sugeriu isso mesmo, mostrando confiança em que nos próximos confrontos será melhor.

Mas o problema é que nunca há uma segunda oportunidade para causar uma primeira impressão. E depois de 400 milhões de dólares gastos em anúncios que o catapultaram nas sondagens mesmo sem ter ainda disputado uma única primária, este seu primeiro confronto com os rivais tinha de ser inequívoco. Bloomberg necessitava de consolidar uma imagem de presidenciável, de homem providencial que está a correr por fora e vai resolver a orfandade de um partido que está lentamente a cair nos braços de um socialista. Esse objetivo falhou claramente.

A senadora Amy Klobuchar saudou a sua presença no palco, logo no início do debate, e fê-lo com ironia. “Saúdo a presença de Mike Bloomberg neste palco, assim deixa de estar escondido atrás dos anúncios”. No final, a expressão soa quase premonitória porque, de facto, o Bloomberg que apareceu naquele palco de Las Vegas é muito diferente do que surge nos anúncios televisivos.

Pergunta-se: bastará uma má prestação num debate para comprometer uma candidatura? É duvidoso, sobretudo se tivermos em conta que um debate destes é visto por poucos milhões de pessoas, enquanto os anúncios são vistos diariamente por muitos milhões durante semanas, meses.

Como já se viu nesta corrida, uma boa prestação num debate pode levar a uma subida nas sondagens (Pete Buttigieg e Amy Klobuchar são bons exemplos), mas um fraco desempenho não enterra necessariamente uma candidatura.

Nesta quarta-feira, a maioria dos candidatos esteve igual a si próprio, exceto Elizabeth Warren, que teve uma prestação de grande nível. Foi a que melhor expôs os seus pontos de vista, defendeu com mais energia as suas causas e sobretudo atacou com mais veemência Bloomberg. Atirou-o positivamente às cordas e se a candidatura do multimilionário não se conseguir recompor, Warren será a principal responsável por isso.

Com dois resultados fracos no Iowa e no New Hampshire, Warren joga no Nevada, no próximo sábado, e na Carolina do Sul, no dia 29, as suas derradeiras hipóteses de continuar nesta corrida. Logo após o debate, a candidatura anunciou que tinha recebido cerca de 400 mil dólares em donativos. É uma esperança que renasce, mas a forma como os temas da agenda de Bernie Sanders polarizaram o debate e a energia com que o velho senador se defendeu permitem prever que o voto mais à esquerda no partido vai continuar a concentrar-se nele.

O ex-vice-presidente Joe Biden, que joga também nas duas próximas disputas eleitorais a sua sorte, esteve ao nível habitual e poderá ser o grande beneficiário da má prestação de Bloomberg, que entrou na corrida justamente para conquistar o voto dos moderados do partido.

O caucus do Nevada no próximo sábado poderá dar já alguns indicadores interessantes, mas a primeira grande clarificação só surgirá no dia 3 de março, na chamada Super Terça-feira, quando 14 estados vão a votos, entre eles alguns dos mais importantes como a Califórnia, o Texas, a Virgínia e a Carolina do Norte.

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