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​Pedro Azevedo. A relatar jogos de futebol desde os oito anos

19 fev, 2020 - 11:30 • André Rodrigues

Chefe de redação da Renascença, Pedro Azevedo chegou ao relato 2000 no clássico entre FC Porto e Benfica.

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Mais de 30 anos de percurso na Renascença e já relatou mais 2000 partidas de futebol. Pedro Azevedo percebeu bem cedo o que queria fazer. O gosto pela narração desportiva começou aos oito anos, quando via os seniores das rádios nacionais a relatar os jogos do Varzim, nos inícios da década de 70. Já esteve em mundiais e europeus, na Liga das Nações, na Champions e na Liga Europa e não tem dúvidas. O golo de Éder na final do Euro 2016 deixou-o afónico, mas foi um “momento soberbo e inesquecível”. O momento mais alto da carreira.

Mais de 30 anos de carreira como relatador de futebol, só na Renascença. Mas o percurso começa um pouco antes, ainda no tempo das rádios piratas. Porquê a opção pela rádio?

Porque eu sou da Póvoa de Varzim e houve uma rádio local, da qual eu fazia parte, que me convidou para fazer um relato de futebol, porque era preciso alguém para fazer um relato futebol. Foi em outubro de 1985 e eu fiz esse primeiro relato, foi um Varzim x Gil Vicente e, a partir daí, não parei mais até hoje.

Foi um de vários relatos que fizeste, envolvendo um clube que te é querido. Como é que se disfarça isso aos ouvidos de quem escuta?

Quando se entra para esta profissão, não pode haver clube. A partir do momento em que me sento com o microfone na mão e com os auscultadores nos ouvidos, não há emblema nenhum. Estou obrigado ao rigor, à interpretação honesta e ao relato com exatidão.

Não fiz muitos jogos do Varzim, mas, evidentemente, naqueles que relatei procurei sempre despir a camisola, contando o jogo com toda a ética, precisão e honestidade. Sempre sem violentar a minha consciência.

Mas deve haver algum jogo do Varzim que te deu um gozo particular em relatar. Qual foi?

Foi um jogo da Taça de Portugal, um Varzim - Benfica, em 2007. Eu fiz esse relato para a Renascença. O Varzim recebeu um grande do futebol português e ganhou esse encontro, porque jogou muito bem.

O treinador do Benfica, na altura, era o atual selecionador Fernando Santos.

Exatamente. E o Rui Costa ainda jogava.

Foi, aliás, o Rui Costa quem fez o cruzamento para o Simão Sabrosa marcar o golo do Benfica...

... sim, o jogo ficou 2 - 1 para o Varzim e foi, de facto, um jogo especial, porque era o meu clube do coração diante de um grande do futebol português e venceu para a Taça de Portugal. Por isso, é, também, um jogo que não esqueço, porque tive a oportunidade de o relatar, vendo o meu clube a jogar e a ganhar a um grande, que é sempre um grande feito para um clube desta dimensão.

Mas a tua ligação ao emblema poveiro é antiga. Tu foste atleta e começaste a ver os jogos no estádio ainda muito novo.

Sim, eu comecei a ver o Varzim no ano de 1973 e lembro-me ainda de ver o João Alves, o ‘Luvas Pretas’ a jogar. Foi o meu primeiro ídolo no futebol e eu ia ver os jogos do Varzim pela mão do meu pai, que era o correspondente do Jornal de Notícias na Póvoa. E, por isso, eu ficava sempre na cabine de imprensa. Ou seja, naquela altura, as rádios nacionais – uma ou duas – ficavam mesmo ali ao meu lado. Portanto, eu, aos seis anos, comecei a escutar presencialmente os relatos feitos pelos seniores das rádios no estádio do Varzim e, depois, eu ia no carro para casa a imitar aquilo que tinha ouvido no estádio.

Depois, em 1976, havia uma caderneta de cromos que eram as “Caricaturas de Portugal” e eu cortava caixas de sapatos a meio para fazer duas balizas e, com os cromos das Caricaturas, eu fazia um campeonato devidamente organizado com as jornadas, havia uma classificação e os jogadores eram os cromos. Então, eu fazia relatos para mim mesmo, contando todas as incidências dos jogos, contextualizando a partida, a classificação, referindo-me, até, ao estádio onde esses jogos eram disputados. Nessa altura, eu tinha oito anos.

E quatro anos depois, a Renascença cria a Bola Branca.

Ainda bem que não se lembraram de mim. Nessa data, eu tinha 12 e, certamente, não seria um bom relator (risos).

Mas foi a partir daquela altura que passaste a acompanhar a Bola Branca.

A Bola Branca era a minha companhia no trajeto de carro para a escola. O meu pai ouvia sempre a Bola Branca. Lembro-me perfeitamente da escuta dos relatos aos domingos e da escuta diária da informação desportiva, o que acabou por funcionar, para mim, como uma espécie de ambientação para o que pretendia fazer quando fosse mais crescido.

Foi uma espécie de livro de estilo para os teus relatos?

Foi um livro de estilo, de facto, não apenas para mim, mas, creio, para todos os relatores de futebol em Portugal. Claro que, depois, cada relator tem o seu estilo próprio, tem o seu cunho pessoal, tem a sua assinatura que se vai consolidando com o tempo. Naturalmente, eu fui aperfeiçoando o meu estilo. Mas, no início das minhas transmissões, o estilo inicial era um ato de imitação das minhas referências, Artur Agostinho e Ribeiro Cristóvão. Principalmente, o Ribeiro Cristóvão com quem trabalhei muitos anos com quem estive mais vezes, porque o Artur Agostinho saiu cedo da Renascença. Mas, sim, são de facto as duas grandes referências que eu tenho do relato radiofónico.

Além do que aprendeste com os teus mestres, qual é o grande ensinamento que colheste nestas três décadas?

Noto que, ao longo dos anos, fui doseando o esforço. Quando comecei a relatar acabava os jogos sempre com muitas dificuldades…

… era o entusiasmo de relatar como se não houvesse amanhã…

… exatamente. No início, eu não doseava convenientemente o esforço. Isso é falta de experiência. Ao longo dos anos, esse foi o principal ensinamento. Depois, claro, vai-se ganhando experiência e vai aumentando, também, a nossa capacidade para estar mais tempo em emissão e para desenvolver, também, o estilo próprio na narração, tornando-a mais atrativa. Penso que, ao longo dos anos, fui aperfeiçoando esse perfil que é, por assim dizer, a minha assinatura nos meus jogos.

Tu já fizeste exatamente 2002 relatos de futebol, só na Renascença. Se pudesses escolher uma peripécia com piada, qual seria?

Acho que posso contar duas. Uma em Portugal e outra no estrangeiro. Vamos começar lá fora. Estádio White Hart Lane, em Londres, estávamos em 1992 ou 1993 e eu fui lá para fazer o relato de um Tottenham – FC Porto e não havia local para fazer o jogo, não havia, sequer, uma linha telefónica. Estava atado de mãos e pés para fazer essa transmissão. A solução que encontrei, com um funcionário do Tottenham, foi relatar o jogo de pé em cima de uma mesa, a olhar pela janela na secretaria do clube, com um telefone do clube ali ao meu lado. E em cima dessa secretária estavam documentos tão diversos como contratos dos jogadores, despesas de manutenção do estádio, estava ali tudo à mão de semear.

Ou seja, tinhas ali todo um manancial de notícias em primeira mão sobre o Tottenham dos inícios da década de 90 do século passado.

Sim, tinha as últimas notícias em primeira mão do clube. Mas, na verdade, eles foram muito simpáticos, porque foi a única forma que eu tive de transmitir jogo, em pé em cima de uma secretária olhar para uma janela com o telefone na mão a relatar esse Tottenham – FC Porto.

E em Portugal, qual é a peripécia mais engraçada que recordas?

Foi numa final da Terceira Divisão Nacional, em finais da década de 80. Naquela altura, a Renascença fazia as narrações das finais de escalões secundários. E eu fui relatar um Vianense – Guarda, em Viana do Castelo, e também não havia local para a transmissão, porque o estádio não tinha condições para transmissões radiofónicas. A solução foi ficar a fazer o relato desse jogo na cabine sonora do estádio. O senhor também foi extremamente atencioso e cedeu-me o lugar dele.

Só que dá-se a circunstância de a cabine sonora ser, também, o local onde eram distribuídas as almofadas para os espectadores do estádio. Então, eu fiquei nesse local e, como o funcionário do clube teve de sair, eu acabei ali sozinho a fazer a narração. E, na minha introdução e nos primeiros minutos do jogo eu fui o distribuidor das almofadas no Estádio do Vianense. As pessoas pousavam 25 tostões na minha secretária e eu distribuía as almofadas, porque elas estavam colocadas ali mesmo atrás de mim. Portanto, eu fui o distribuidor das almofadas para os adeptos dessa final da Terceira Divisão. Foi um episódio que deu muito para rir no fim, porque, nesse dia, fui narrador dessa final e fui, também, o distribuidor das almofadas para os espectadores no estádio.

Partindo dos 40 anos da Bola Branca, tu acompanhaste a evolução do futebol e com ela, também, a evolução a jornalismo desportivo em Portugal. Está melhor ou pior do que há 40 anos?

Não é fácil responder a essa pergunta com "sim" ou "não". Está, seguramente, diferente. Eu lembro-me, por exemplo, de fazer a cobertura de uma Volta a Portugal em bicicleta e as reportagens eram feitas nos cafés, 20 quilómetros à frente da etapa porque não havia telemóveis e tínhamos de pedir uma linha ao café, fazendo as narrações ali mesmo ao lado dos clientes do café que assistiam a um relato de uma etapa que estava 20 quilómetros atrás do local.

No início da década de 90 era assim. Portanto, hoje, é tudo diferente. De facto, os meios mudaram o jornalismo e mudaram, também, a disseminação das notícias que hoje é muito agressiva e muito mais ativa do que no passado. Hoje, uma notícia não dura muitos minutos. Naquela altura, podia guardar-se numa caixa durante algumas horas e, portanto, o jornalismo é completamente diferente.

A Bola Branca mantém uma linha editorial de dar primeiro, de dar muitas notícias em pouco tempo, com as nossas reportagens e as nossas entrevistas distintivas. É isso que faz com que continuemos a merecer a preferência dos portugueses. Até o número de citações na imprensa é revelador. Temos à volta de três mil citações por ano, quer no papel, quer no digital.

Mas, hoje, a discussão em torno do futebol baseia-se muito mais nos casos de arbitragem, nas polémicas fora do campo do que, propriamente, no jogo jogado que é, afinal, aquele que mais interessa.

A nossa informação é uma informação pela positiva. E nós tratamos o futebol positivo. A nossa primeira conferência do ano passado teve a adesão que teve, em Lisboa, praticamente de todos os agentes do futebol, porque eles próprios também sabem a forma como nós tratamos o futebol.

E a Bola Branca é um programa, essencialmente, de futebol. Embora olhe, também, para as outras modalidades quando há factos importantes para noticiar. E temos, de facto, tido uma informação diferenciada em relação à concorrência, embora haja, na concorrência casos bons e positivos para assinalar.

Este fim de semana, o Vitória de Guimarães - FC Porto foi o teu relato número 2002. Com tudo o que aprendeste ao longo dos anos, se tivesses que fazer uma descrição conceptual do relato de futebol na rádio, o que seria?

Vamos dividir em duas partes, começando pelo narrador. O narrador tem de ter duas coisas: um bom aparelho fonador, uma boa zona de fonação, é a parte mecânica que o relator tem de ter. Depois, há a parte técnica, tem de pensar depressa e dizer bem. Com estas características, o relator faz-se.

Depois, há a parte do relato que tem de ter três coisas: arte, informação e entretenimento.

Arte, porque estamos a falar em expressão estética. Entretenimento, porque o relato diverte, entretém, distrai. E, finalmente, informação, porque no relato está a atividade primária do jornalismo, a apuração, a observação e a descrição dos acontecimentos.

Levar o ouvinte a ver o jogo na rádio...

Exatamente. O relato, tendo estas três coisas juntas, torna-se num bom relato. Sem uma destas três coisas, no meu entendimento, o relato não faz sentido.

Curtas

O melhor momento.

A final do Europeu de Futebol em 2016. Nunca a seleção portuguesa tinha ganho um título internacional e, naquele momento em que o Éder faz o golo, Portugal tem uma mão na taça de campeão europeu. Sem dúvida nenhuma que esse é o meu grande momento. Estive a narrar em nove fases finais de campeonatos da Europa e do Mundo, estive na primeira fase final da Liga das Nações, que Portugal venceu, fiz três finais europeias de clubes. Mas momento como aquele, não há. Foi soberbo, inesquecível. Foi, aliás, o único momento em que fiquei afónico em 2002 relatos.

O momento mais marcante.

Naturalmente o meu primeiro relato. Foi um Rio Ave - Portimonense, em junho de 1988. Mas o relato 1000 foi muito marcante, porque eu nunca imaginei que pudesse chegar a 1000 relatos na rádio que eu mais gostava de ouvir, na rádio que era, para mim, a grande referência, com o líder de referência, Ribeiro Cristóvão. Esse relato 1000 foi em fevereiro de 2002, um FC Porto - Benfica, no Estádio das Antas. Curiosamente, o FC Porto também ganhou 3-2, tal como aconteceu no meu relato 2000, que foi o clássico do outro fim de semana, no Estádio do Dragão.

O momento mais inesperado.

Pela negativa, foi o relato do jogo entre o Vitória de Guimarães e o Benfica, em que morreu o Miklos Fehér. Foi um momento trágico. Eu também joguei futebol e, naquele momento, e apercebo-me que está prestes a acontecer uma tragédia. A queda do jogador no relvado acontece ali mesmo à minha frente, tenho bem presente a expressão do árbitro que diz muito também relativamente àquilo que iria acontecer. Eu fiquei completamente emocionado, chorei ao microfone, foi a única vez que isso me aconteceu. Um jornalista é um ser humano, tem as emoções à flor da pele. Ainda hoje, recordo muitas vezes aquele instante em que relatei a morte de Miklos Fehér. Foi um momento absolutamente inacreditável. Nunca esperei presenciar uma situação destas. E sempre que falo nisso, emociono-me porque revivo esse momento como se fosse agora. Foi um momento tão marcante que nem sequer me lembro do resultado desse jogo. Impossível recordar isso.

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