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​O dia de Marcelo em Deli. Ioga para todos, acordos concretos e a diplomacia de um bule de “chai”

​O dia de Marcelo em Deli. Ioga para todos, acordos concretos e a diplomacia de um bule de “chai”

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14 fev, 2020 - 23:14 • Paula Caeiro Varela, enviada da Renascença a Nova Deli

Primeiro dia de visita oficial de Marcelo Rebelo de Sousa à Índia com muito protocolo, nenhum improviso e várias declarações sem direito a perguntas.

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O ambiente controlado não é favorável a um Presidente como Marcelo Rebelo de Sousa. A curta passagem por Nova Deli é prova disso.

Estava um tempo perfeito, nem demasiado quente nem demasiado calor, o céu mais azul do que a poluição severa da capital indiana fazia prever, sol a iluminar a parada militar e honras de Estado no Rashtrapati Bhavan, a casa do Presidente.

A apertada segurança indiana impedia quebras do protocolo, mas também não havia por perto a quem dar abraços ou com quem tirar “selfies” numa cidade com milhões de habitantes, quase todos para lá dos portões com guardas armados até aos dentes.

Colorido só mesmo o da Índia, porque tudo o resto foram salas fechadas, reuniões, almoços, audiências, jantares. Um de cada, já agora, que 24 horas em Deli não dão para mais.

Marcelo na Índia. Uma visita "mais executiva" sem esquecer os direitos humanos
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A exceção foi a inauguração de uma obra da portuguesa Joana Vasconcelos no Museu Nacional da Índia: Chá-Chai, nome da exposição que une Portugal e Índia, embora a peça não tenha sido criada a pensar no chá que os portugueses introduziram em Inglaterra e daí para o mundo.

Foi uma escala do bule da Alice no País das Maravilhas (quando Alice come um bolinho e encolhe) feito para o “Portugal dos pequenitos”. Mas, enfim, chegou a Nova Deli, empreitada patrocinada por uma empresa indiana, um bule em ferro forjado, onde se pode entrar e tomar um chá das cinco, sentados nos bancos que a cultura indiana enfeitou de flores muito amarelas e de outras cores. São pontes entre duas culturas e a cultura também pode ser “ponte para negócios”, acredita a autora.

Nem só de política vivem os encontros ao mais alto nível, diz o Presidente português que, na primeira vez de sempre” na Índia, gastou quase todo o tempo em Nova Deli a falar de “concretização” de acordos, da “concretização” de projetos. Mais concretamente, a cada passo, Marcelo repetiu o mesmo exemplo, a assinatura de um contrato da Águas de Portugal para construir equipamentos de saneamento em Goa, que será um dos últimos pontos da agenda oficial. E repetiu todas as vezes que a expectativa é que se multiplique. Expectativa. Nada de muito concreto, portanto.

Sem declarações depois do demorado encontro com Narendra Modi, o primeiro-ministro indiano, onde só houve “imagens para o boneco”, à noite a comitiva regressou ao palácio presidencial e para voltar a ouvir falar de entendimentos. Foram 14 ao todo, entre memorandos e acordos, em áreas que vão das políticas sociais.

Mas um deixou o presidente indiano particularmente agradado: a hipótese de todas as escolas portuguesas passarem a contar nos seus currículos com aulas de yoga. Ram Nath Kovind até sabia que já há 10 mil alunos com aulas de yoga em Portugal. E deixou um “boa tarde” e um elogio rasgado à gestão de Marcelo da “robusta democracia portuguesa”. O chefe de Estado português preferiu falar sobre a calorosa receção e de como se sente “profundamente emocionado”.

Mais uma vez, não houve direito a perguntas.

Na “primeira vez de sempre” de Marcelo Rebelo de Sousa na Índia, a terceira de um Presidente português, não houve para já nem sinais das viagens cheias de folclore, multidões e até passeios de elefante. Nem sequer uma visita ao Taj Mahal, símbolo máximo da cultura indiana.

Não é disso que tratam as viagens presidenciais destes tempos onde todo o deslize pode tornar-se viral e ninguém arrisca um movimento em falso que possa ser levado à fogueira das redes sociais. “Namasté!”

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