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Crónicas da América
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​Primárias democratas começaram bem para… Donald Trump

14 fev, 2020 - 22:29 • José Alberto Lemos, em Nova Iorque

Após o Iowa e o New Hampshire não há um claro favorito à nomeação democrática e instalou-se a incerteza na escolha do candidato à Casa Branca. Quem parece ter mais hipóteses de bater Trump está a falhar, e quem está a vencer terá muitas dificuldades em batê-lo. Tudo está em aberto.

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Com apenas duas etapas cumpridas, o processo de escolha do candidato do Partido Democrático à Casa Branca começou bem para… Donald Trump.

Após o “caucus” no Iowa na semana passada e as primárias no New Hampshire nesta terça-feira, o senador Bernie Sanders surge bem posicionado para vencer a nomeação, mais graças ao cenário politico daí resultante do que às vitorias alcançadas.

Na verdade, no Iowa, Sanders nem sequer ganhou, ficou atrás do ex-autarca Pete Buttigieg, este, sim, o grande vencedor e a grande surpresa destas primárias até agora. E na terça-feira, no New Hampshire, Sanders bateu Buttigieg por escassos 1,3 pontos percentuais e arrecadou o mesmo número de delegados à Convenção Democrática que Buttigieg (9). Isto num estado em que Sanders bateu Hillary Clinton em 2016 por 22 pontos e é vizinho do seu Vermont natal.

Para um candidato que adquiriu grande notoriedade nacional nas eleições de há quatro anos, que desde então está no terreno, que construiu um movimento de ativistas sólido e que tem recolhido mais dinheiro do que qualquer outro, as eleições do Iowa e do New Hampshire não são proeza significativa.

O que já pode ser significativo é o cenário que delas resultou e que se pode resumir assim: o voto progressista entre os democratas concentra-se e inclina-se cada vez mais para Sanders, enquanto o voto moderado está cada vez mais dividido entre três candidatos. A primeira boa notícia para Sanders é que a candidatura de Elizabeth Warren entrou em colapso.

A senadora do Massachusetts teve duas prestações más no Iowa e no New Hampshire e não se vislumbra como possa recuperar. Warren tem uma campanha bem organizada, no ano passado ultrapassou Sanders nas sondagens quando o senador do Vermont teve um ataque cardíaco, mas algumas inconsistências no programa político e contradições na sua defesa abalaram a candidatura e a sua reputação.

Foi uma esperança para muitos progressistas, convencidos que a oportunidade de Sanders já tinha passado, mas o Iowa e New Hampshire vieram mostrar que é o velho senador que concentra o voto mais à esquerda entre os democratas. Sobretudo em New Hampshire, um estado vizinho do seu Massachusetts, onde era suposto ter muita influência, os resultados de Warren foram desastrosos.

Vai continuar na corrida, mas as sondagens no Nevada e na Carolina do Sul — a 22 e a 29 deste mês — não lhe permitem acalentar qualquer esperança. Depois de duas derrotas pesadas, os votos e a angariação de fundos vão continuar a fugir-lhe. A aposta de Elizabeth Warren na corrida à Casa Branca morreu aqui.

A experiente Klobuchar

A segunda boa notícia para Sanders foi a subida da senadora Amy Klobuchar no New Hampshire, que saltou para o terceiro lugar, graças sobretudo às boas prestações que teve nos debates. Depois de Buttigieg, Klobuchar tem sido a outra surpresa destas primárias. Com 59 anos, proveniente do Minnesota, no Midwest americano, foi a primeira mulher eleita para o Senado por aquele estado e a sua experiência política tem-lhe valido excelentes performances nos debates. Consistente, articulada, com boas réplicas e bons “sound bites”.

Defende os seus pontos de vista com firmeza sem ser agressiva com os contendores, usa argumentos convincentes e tem um registo de sucessos no Senado que revela uma capacidade de diálogo e de entendimento com os adversários políticos, mesmo em tempos de grande crispação como os de hoje. Não por acaso, recebeu o apoio do gabinete editorial do “New York Times”.

Não houve um único debate em que não fosse elogiada pelos media e considerada uma das vencedoras da noite. O reconhecimento eleitoral surgiu esta semana nas urnas do New Hampshire. Dividiu com Pete Buttigieg e com Joe Biden o voto moderado, por mérito próprio, mas criou com isso um problema ainda maior ao partido.

A fraqueza de Biden

Antes da sua ascensão eleitoral, parecia que Joe Biden, ex-vice-presidente de Obama, não teria rival sério para disputar o voto “mainstream” entre os democratas. Biden surgia sistematicamente nas sondagens muito distanciado dos restantes candidatos a nível nacional e tudo parecia indicar que, mais cedo ou mais tarde, garantiria a nomeação.

Até que… veio o Iowa e a sua derrota pesada. Bem, o Iowa elegia menos de 1% dos delegados à convenção do partido, argumentaram os seus defensores. Mas depois do Iowa, veio o… New Hampshire e a derrota repetiu-se, agravando as dificuldades do candidato, que era o favorito e que deixou de o ser. Pressentindo-o, aliás, antes de saber os resultados, Biden voou para a Carolina do Sul, onde espera recuperar dos dois desaires.

Se o conseguirá ou não, é neste momento a maior incógnita. Até há pouco tempo as sondagens davam-lhe uma enorme vantagem nos dois próximos estados — Nevada e Carolina do Sul. No primeiro, uma grande percentagem do eleitorado democrata é latino e no segundo é negro. Biden, porque foi vice de Obama oito anos e porque tem um passado de luta pelos direitos cívicos e pelos imigrantes, dispõe de um grande apoio entre as duas comunidades. Ou dispunha. Porque também neste caso os números têm vindo a encolher significativamente.

E este é o paradoxo, e simultaneamente o fascínio, do processo das primárias. Dois pequenos estados como o Iowa e o New Hampshire, eminentemente rurais, quase totalmente brancos, longe de serem representativos da América, que elegem em conjunto menos de 2% dos delegados à convenção que há de formalizar a escolha do candidato em julho, acabam por ter um peso político em todo o processo muito superior ao seu peso real.

Como fazer previsões quando estão escolhidos menos de 2% dos delegados, perguntar-se-á. Como é possível excluir já alguém quando falta escolher cerca de 98% dos delegados? A resposta está naquilo a que os americanos chamam “momentum” e que se poderá traduzir livremente por dinâmica. Dinâmica eleitoral, dinâmica política.

Quem ganha ou obtém um bom resultado aqui adquire uma dinâmica que lhe traz novos apoiantes e sobretudo mais dinheiro para a campanha. Incute confiança nas suas hostes e atrai as dos que perderam ou que estão hesitantes. É a chamada dinâmica do vencedor. Por contraste, aqueles que têm mau resultado — sobretudo se tinham expectativas de vencer — abalam a confiança das hostes, deixam de atrair hesitantes, perdem contributos financeiros. Entram numa espiral descendente donde é muito difícil sair.

É este o fel que a campanha de Joe Biden prova neste momento. Mas talvez seja prematuro vaticinar-lhe já uma derrota. O seu impacto nas bases democratas continua a ser grande, várias sondagens atribuem-lhe ainda a liderança no Nevada e na Carolina do Sul, assim como em muitos estados que vão a votos a 3 de março, na Super Terça-feira em que se elegem centenas de delegados. Irão estes números encolher até lá e esvaziar a candidatura, como sucedeu no Iowa e no New Hampshire? É possível, mas não é um dado adquirido.

A surpresa Buttigieg

Pete Buttigieg parece ser o principal responsável pelas dificuldades por que passa Biden. Ele é, sem dúvida, a maior surpresa desta campanha. Com apenas 38 anos, contrasta numa corrida dominada por septuagenários. Foi até há pouco tempo presidente da câmara de uma pequena cidade no Indiana, South Bend, de cerca de 100 mil habitantes. Fez uma comissão de serviço militar no Afeganistão, vem de uma região conservadora, e não tem qualquer experiência de gestão pública, à exceção da autárquica.

Tem por isso um discurso algo anti-establishment, culpando frequentemente Washington pelos males do país, mas tem um programa político moderado, pragmático e realista. Bom orador, com uma linguagem muito polida, seguro na defesa dos seus pontos de vista, bom conhecedor das questões de defesa e de política externa, Buttigieg tem pontos em comum com Obama em 2008, no sentido em que irrompeu nesta campanha, vindo (quase) do nada, e está a galvanizar muitas bases, especialmente jovens.

Com pesos pesados como o ex-vice-presidente Joe Biden, os senadores Bernie Sanders, Elizabeth Warren, Amy Klobuchar, Kamala Harris e Cory Booker, quem diria há duas semanas que Buttigieg estaria agora a liderar a corrida? Ele tem neste momento 23 delegados à convenção do partido, enquanto Sanders tem 21. Bateu Bernie no Iowa e empatou com ele no New Hampshire e o “momentum” vai certamente alavancá-lo nas próximas primárias, embora esteja com dificuldades em conquistar eleitorado negro e de outras minorias.

Mas se há hoje favoritos nesta corrida, Buttigieg está à cabeça deles, juntamente com Bernie Sanders. Ambos, porém, têm vulnerabilidades eleitorais que os podem tornar presa fácil de Trump nas eleições de novembro.

O esquerdista Sanders

Bernie Sanders define-se como um “democrata socialista”, tem um passado político esquerdista, defende um serviço nacional de saúde gratuito idêntico ao dos países europeus num país em que todo o sistema está baseado em seguros de saúde, quer acabar com as propinas nas universidades e anular as dívidas dos estudantes, e ameaça compensar todas estas despesas taxando os super-milionários e as grandes corporações.

Em suma, tem um programa eleitoral bem esquerdista para os padrões americanos, que assusta não apenas a América conservadora, mas muita América liberal, alienando setores do eleitorado centrista, moderado, que jamais votará nele mesmo contra Trump. Uma sondagem da Gallup publicada esta semana detetou 53% de americanos garantindo que não votariam por um socialista, enquanto apenas 45% admitiram fazê-lo.

O presidente, aliás, já começou há muito a agitar o fantasma do “socialismo” que “destrói os países”, amalgamando nele quase todos os democratas que estão na corrida. Mas Sanders é, claramente, aquele a quem o epíteto melhor se ajusta, fornecendo a Trump o melhor trunfo eleitoral para novembro. Se o Partido Democrático o escolher, a reeleição de Trump será um passeio triunfal.

O choque cultural

A vulnerabilidade eleitoral de Pete Buttigieg é de outra ordem. Não é política no sentido restrito, mas de costumes, cultural, digamos. Homossexual assumido, é casado e tem feito campanha com o marido ao lado. Em momentos de maior entusiasmo, proclama-o mesmo como o futuro “first gentleman” americano. A transparência é total e corajosa, mas arriscada eleitoralmente.

Para vencer, qualquer candidato democrata vai precisar de conquistar setores moderados do eleitorado que, em 2016, quiseram dar uma oportunidade a Trump. Trabalhadores indiferenciados, mulheres suburbanas, latinos, negros, que sendo politicamente liberais, são socialmente conservadores. Basta que se abstenham para que as chances de Trump ser reeleito aumentem substancialmente.

No Iowa, uma mulher que tinha acabado de votar em Buttigieg queria mudar o voto quando soube que ele era gay. “Está a dizer-me que ele é casado com uma pessoa do mesmo sexo? Está a brincar comigo? Não quero ninguém assim na Casa Branca. Ele devia ler a Bíblia”, disse a uma apoiante do candidato.

O “choque cultural” que representaria um gay na Casa Branca será seguramente explorado pelos republicanos na campanha eleitoral. O que, aliás, já começou esta semana. Rush Limbaugh, o radialista ultraconservador que Trump condecorou e que durante anos alimentou a ficção de que Obama não tinha nascido nos EUA, veio contrastar a masculinidade de Trump com a de um candidato que “beija o marido no palco”.

E o próprio Trump admitiu à Fox News que haverá um grupo de pessoas que não votará Buttigieg por ele ser gay, mas que ele, Trump, não se inclui nesse grupo. Mas, como já mostrou abundantemente, Trump é um homem sem escrúpulos e se pressentir que a reeleição está em risco contra Buttigieg não hesitará em jogar a cartada homofóbica. No que terá um coro ruidoso de apoiantes, certamente.

Uma sondagem do “Washington Post”, publicada há 15 dias, dava Trump a bater Buttigieg por três pontos percentuais (48-45) caso se defrontem em novembro. São números voláteis, naturalmente, sobretudo porque recolhidos a dez meses da eleição, mas a pergunta é legítima e é esta: está a América preparada para votar num candidato gay? E equivale à mesma que foi feita em 2008: está a América preparada para votar num candidato negro? Sabemos qual foi a resposta em 2008. Neste momento nem sequer sabemos se a questão se vai colocar no silêncio da urna.

Bloomberg à espreita

É neste cenário de indefinições e incógnitas que espreita a candidatura de Mike Bloomberg, o multimilionário que fundou um império de negócios e de media e que foi mayor de Nova Iorque logo após o 11 de setembro. Intuindo que a confusão iria instalar-se nas primárias democratas, que Biden poderia falhar, e que o partido poderia inclinar-se para alguém com poucas probabilidades de bater Trump, Bloomberg decidiu correr por fora, nem se apresentando às urnas antes da Super Terça-Feira, quando 14 estados vão a votos.

Mas entretanto inundou as televisões com anúncios de promoção da sua candidatura, graças a uma fortuna que faz Trump parecer remediado. Bloomberg já gastou mais dinheiro do que todos os outros candidatos juntos e financiará a sua própria campanha de forma ilimitada para convencer os democratas de que ele é a melhor opção para bater o atual presidente.

A estratégia parece estar a resultar. Surge agora em terceiro lugar nas sondagens, mesmo sem ter ido às urnas e sem ter participado nos debates. A 3 de março se verá quanto vale nas urnas, mas a sua aposta passa por demonstrar que tem o perfil adequado para esta batalha: homem de negócios independente, sem necessidade de angariar dinheiro para a campanha e sem ficar a dever favores a ninguém, liderou o renascimento económico de Nova Iorque no pós 11 de setembro.

É moderado politicamente e tem abraçado causas caras aos democratas: controlo do uso e porte de armas, direito ao aborto, casamento gay, alterações climáticas, combate à pobreza, abertura à imigração. Tem uma mancha no currículo: enquanto mayor de Nova Iorque adotou uma política de prevenção do crime que permitiu à polícia agir de forma discriminatória em relação aos negros. Já pediu desculpa por isso, mas há muitas feridas ainda em aberto.

Se tiver sucesso e conseguir a nomeação, é provável que setores democratas se recusem a votar nele, sobretudo negros. Mas pode compensar essa falta com a conquista de eleitores ao centro, nomeadamente republicanos e independentes descontentes com Trump. Embora tenha sido democrata grande parte da vida, foi eleito mayor de Nova Iorque como republicano nos dois primeiros mandatos e como independente no terceiro.

Na convenção democrática de 2016 que escolheu Hillary Clinton para candidata, Bloomberg fez uma das intervenções mais demolidoras para Trump, começando por justificar o facto de ser independente pelo facto de nenhum dos dois grandes partidos ter o monopólio das boas ideias. A convenção pareceu concordar ao aplaudi-lo entusiasticamente. Será que a convenção deste ano também vai concordar?

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