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Eutanásia sem cuidados paliativos "é inverter as responsabilidades da sociedade"

12 fev, 2020 - 11:21 • Marta Grosso , Miguel Coelho (entrevista)

Manuel Luís Capelas, um dos diretores do Observatório Português de Cuidados Paliativos, lembra na Renascença que a “Lei de Bases dos Cuidados Paliativos foi aprovada por unanimidade” no Parlamento, mas não é aplicada.

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É essencial implementar uma verdadeira rede de cuidados paliativos no país, defende um dos diretores do Observatório Português de Cuidados Paliativos. Convidado no programa As Três da Manhã, Manuel Luís Capelas diz que aprovar a eutanásia antes de reforçar aqueles cuidados é inverter as responsabilidades da sociedade.

“Darmos a estas pessoas a hipótese de, pura e simplesmente, terem como solução pedir a eliminação da sua vida, é invertermos os papéis e invertermos as nossas responsabilidades enquanto sociedade”, afirma.

A realidade dos cuidados paliativos está muito longe daquilo que foi definido pela Assembleia da República e que foi considerado uma prioridade pelos três últimos governos: a criação de uma rede nacional de apoio a doentes que precisam destes cuidados, lembra Luís Capelas.

“Só um terço das equipas tem um profissional a 100%, um médico; temos zonas do país que estão completamente desprovidas de uma resposta integrada – por exemplo, Leiria continua só com uma equipa no hospital, Viana do Castelo tem uma equipa no hospital e a mesma equipa vai à comunidade. Ou seja, temos assimetrias regionais, uma falta imensa de médicos, temos uma falta de milhares de enfermeiros para cumprir os requisitos que a própria administração criou”, aponta.

O responsável do Observatório de Cuidados Paliativos dá o seu próprio exemplo: “vivo numa zona de Lisboa que, por 100 metros, não tenho acesso a cuidados paliativos em casa. Bastava viver na rua ao lado”.

Mas o que são cuidados paliativos?

“Não são especificamente para doentes terminais”, sublinha Manuel Luís Capelas, adiantando que há que distinguir cuidados paliativos de serviços de cuidados paliativos.

Cuidados paliativos são os “que podem ser prestados em mais sítios do que os serviços especializados de cuidados paliativos”, enquanto “os serviços de cuidados paliativos, estes sim, destinam-se a doentes em sofrimento, mas decorrente de doença avançada, incurável e progressiva”.

Neste momento, de acordo com os números conhecidos e “com os parâmetros internacionais, teremos cerca de 103 mil pessoas adultas a necessitar de cuidados paliativos, a que acrescem 500 familiares e amigos que necessitariam deste apoio e cerca de oito mil crianças”, indica o diretor do Observatório.

Luís Capelas acrescenta que, “em teoria, foram abordadas no ano passado 25 mil pessoas”, mas o Observatório acredita que “terão sido mais”, o problema “é que o tempo é muito limitado nestas abordagens”.

Na opinião deste responsável, há que identificar os doentes que precisam de cuidados paliativos.

“Se eu sei identificar o sofrimento intolerável de um doente para lhe disponibilizar uma solução tão drástica como será a da eutanásia, eu tenho que ter – até do ponto de vista ético e profissional – a capacidade de dizer que, antes de apresentar esta possível solução, tenho de o referenciar para cuidados paliativos”, defende na Renascença.

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  • Luis Espadana
    17 fev, 2020 Alcobaça 23:41
    A eutanásia sobrepõe-se à lei dos cuidados paliativos (aprovada pela AR) sendo impingida com uma técnica de vendas: “Se o cliente não quer, cria-lhe a necessidade”. É isso que os governos têm feito, para justificar a necessidade dos privados: no ensino, (escolas secundárias ou universidades); na saúde, (PPP ou seguros de saúde); nos transportes (TAP), meios de distribuição (CTT) e vias de comunicação (vias rápidas); na Banca (má gestão, recapitalização, venda ao preço da chuva com a garantia de recuperação do capital investido em 3 a 5 anos de resultados negativos, pago com a ajuda dos contribuintes) Assim a qualidade do público decresce e cria-se espaço para o privado florescer com os melhores. Por fim, uma nova “necessidade”: a morte assistida e a eutanásia. Será isto no interesse das pessoas ou do governo, que poupa em 3 frentes (com os medicamentos que deixam de ser administrados; os cuidados de saúde paliativos, pois não é preciso arranjar meios; as reformas daqueles que têm a “oportunidade” do suicídio assistido). Para o Estado prevalece o interesse económico já que o comum cidadão é apenas um número. Existe um choque de interesses pois, sem dinheiros, o comum cidadão têm acesso a um débil SNS e não às clínicas com bons cuidados de saúde. Em troca, passa a ter o “direito” à morte medicamente assistida e à eutanásia!!! Conclui-se que é mais barato “matar” pessoas do que formar e abrir concursos para médicos e enfermeiros na área dos cuidados paliativos.