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Missão País em Murça. "Bater de frente com a realidade"

11 fev, 2020 - 14:55 • Olímpia Mairos (texto e fotos)

Murça recebe a Missão País pela primeira vez este ano. Iniciativa envolve jovens universitários que aproveitam a pausa entre semestres para contactarem com comunidades espalhadas por Portugal.

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Reportagem de Olímpia Mairos sobre a Missão País em Murça (11/02/2020)
Reportagem de Olímpia Mairos sobre a Missão País em Murça (11/02/2020)
Clique na imagem para ouvir a reportagem na íntegra

Murça, na diocese de Vila Real, acolhe pela primeira vez a Missão País. É formada por 49 jovens universitários, numa missão da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, da Universidade do Porto.

Durante uma semana, os missionários fazem da Residência de Estudantes de Murça a sua casa. E é daqui que partem diariamente em missão, na alegria de “missionar e contagiar corações”, de “lançar à terra sementes de bem”. Uns vão para as escolas, outros para os lares e outros, ainda, para o contacto junto das populações, no “porta a porta”.

Em Martim, a surpresa não podia ser maior. Os jovens encontram uma situação, sinalizada pela autarquia, de extrema pobreza e miséria. Um cenário que não é fácil descrever em palavras e que deixa os universitários verdadeiramente arrepiados.

“É uma situação que não estamos de todo habituados e, às vezes, queixamo-nos de várias coisas e aqui percebemos o que é realmente importante e que é ajudar. Não há palavras para descrever. É complicado. É mesmo bater de frente com a realidade e ver que algumas pessoas no nosso país vivem em condições degradantes”, conta Zulmira Santos, estudante do 4.º ano de Ciências Farmacêuticas.

A jovem de 24 anos não se deixa assustar com o que vê e diz que estão ali para “fazer o possível, dar algum apoio emocional e aguardar pela recetividade”.

“Quando acabar o curso quero ir para onde for mais precisa”

Armando Teixeira, de 53 anos, vive com o seu leão, um cão, entre quatro paredes de tijolos, sem portas, nem janelas. Dentro do espaço que lhe serve de teto nada mais há que amontoados de lixo e alguma lenha. Fora há colchões, roupa, ferro velho, restos de comida, lixo e mais lixo.

Armando recebe bem os jovens e entra em diálogo. O seu sonho é “ter uma casa de banho”. E vai tê-la porque, em breve, a autarquia de Murça vai reabilitar aquele espaço e dar-lhe condições de habitualidade.

“Esta é uma situação muito problemática sobre diversos aspetos e nomeadamente as condições habitacionais em que nós queremos intervir nos próximos tempos. É uma das situações mais prioritárias no concelho”, diz à Renascença o chefe de divisão da área da educação, da cultura, do desporto e da ação social da autarquia.

José Moutinho conta com os universitários para sensibilizar Armando Teixeira e acredita que esta experiência “pode ser muito enriquecedora para os jovens”, na medida em que os “faz tomar consciência de que no país, e nomeadamente no concelho, há situações muitos complexas e pessoas que precisam efetivamente de ser ajudadas, não só do ponto de vista físico, em termos de investimento na área habitacional, na melhoria das condições habitacionais, mas, acima de tudo, depois, num processo continuado de as pessoas continuarem a cuidar do seu espaço habitacional”.

Madalena Pinheiro, 20 anos e estudante do 3º ano de medicina, é uma das voluntárias a percorrer as aldeias de Murça, no contacto porta a porta. “É muito bom virmos, sermos bons, para outro lado, que não no Porto. Acho que a missão consegue espalhar uma alegria enorme que temos em ser cristãos e é uma semana mesmo imperdível”, afirma a jovem.

Como futura médica, valoriza a oportunidade de “contacto com as pessoas, com as suas fragilidades”, acreditando que lhe vai ser “muito útil na comunicação, no futuro, com os pacientes” e não descarta a possibilidade de quando terminar o curso escolher o interior para trabalhar.

“Quando acabar o curso quero ir para onde for mais precisa. Se isso implicar vir para o interior, para um ambiente mais calmo e, se calhar, até com mais qualidade de vida, é uma possibilidade”, diz por entre sorrisos.

“Não esperava encontrar uma situação deste género”

Também Pedro Monteiro, estudante do 1º ano de Terapia Ocupacional, considera que “estas experiências são extremamente enriquecedoras, sobretudo para quem está na área da saúde, porque a dimensão vai muito para além da biomecânica” e a missão significa também “sair da zona de conforto, sair da bolha para crescer”.

Isabel Ferreira, de 20 anos, frequenta o 3º ano da licenciatura de educação básica, está a fazer a sua primeira missão. A sua faculdade não aderiu à Missão País, mas o “desejo de missionar era tão forte” que foi à procura. Está em Murça e diz que escolheu o “porta a porta”, “para fazer a diferença, para sair da zona de conforto, para dar um bocadinho de si e dar um bocadinho aos outros”.

Na aldeia de Candedo os missionários encontram mais uma situação gritante. Arménia é doente do foro psiquiátrico. Vive só. Não se relaciona com os vizinhos nem com os familiares. Os missionários aproximam-se, conversam, tentam ganhar a confiança, para poderem concretizar o objetivo de lhe limpar a casa. Entre avanços e recuos, Arménia lá acede, embora com alguma desconfiança.

“Nós viemos ajudar esta senhora que é a Arménia, que vive numa casa que tem as janelas partidas, está muito desarrumada e tem muito lixo. A Câmara quer colocar janelas e portas, esse tipo de coisas, mas ela não aceita a ajuda. E nós estamos aqui a tentar fazer com que fique mais recetiva, começando por retirar-lhe o lixo, arrumar as roupas que tem por ali espalhadas, lavar as louças, para ver se depois ela consegue manter o espaço em melhores condições”, conta à Renascença Helena Flores, de 20 anos.

A estudante de farmácia “não esperava encontrar uma situação deste género”, mas refere que escolheu o “porta a porta” “pelo desafio” e está “para fazer o que for preciso, na certeza de que a força vem de dentro”, abraçando o ícone da Mãe Peregrina, uma imagem de Nossa Senhora de Schoenstatt, um dos símbolos que carateriza a ‘Missão País’.

“Um caos harmonioso”

Durante uma semana os jovens universitários têm que enfrentar algumas dificuldades, privações e limites. Dormem no chão, em sacos cama, e vivem em comum, numa partilha de espaços, de tempo e de vidas. O dia começa e termina sempre com a oração.

Inês Leal, de 22 anos, está no 4.º ano do mestrado integrado em ciências farmacêuticas e é chefe de missão. Conta que “é um caos harmonioso”.

“Nós somos 49. É muita gente ao pequeno almoço, ao almoço, ao jantar, mas toda a gente ajuda, toda a gente está para ajudar e tudo corre bem. Quando achamos que nada vai correr bem, toda a gente ajuda. E sendo o primeiro ano, nós estávamos muito nervosos. E estes dias estão a correr às mil maravilhas”, diz a estudante por entre sorrisos.

Esta é a primeira missão da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, da Universidade do Porto, mas é já a terceira de Inês, que participa pelos “valores pessoais e a cidadania e também pelo encontro com Deus”, porque – diz – “não nos podemos esquecer que a missão país é um movimento católico e, mais do que voluntariado, é um encontro profundo com Deus”.

Durante uma semana os jovens universitários marcam presença nos lares com os idosos, a gerir atividades e a animar os centros de dia, vão às creches ajudar no que for preciso e fazem o “porta a porta”, para contactar com as comunidade. Em Murça o “porta a porta” é especial.

“Temos casas sinalizadas pela câmara e vamos tentar ajudar as pessoas psicologicamente e também tentar remodelar as casas, limpar, tentar por as casas mais funcionais”, explica a estudante de farmácia.

Inês Leal declara que depois de uma época de exames, “tão focadas neles próprios e tão tensa”, os jovens precisam desta semana para se colocarem um pouco de lado para se focarem mais nos outros”.

“Esta semana serve exatamente para isso, serve para nos darmos aos outros, serve para nos entregarmos às outras pessoas e estarmos uns para os outros, nós para a comunidade e entre nós, grupo de missionários”, observa.

Esta é a primeira Missão em Murça. “É o primeiro de três anos. A Missão País é uma semana de três anos. O primeiro é o acolhimento, depois a transformação e depois o envio. Ou seja, temos como objetivo estarmos aqui três anos e tentar, que quando formos embora, deixarmos aqui uma marca, uma semente e, principalmente, os jovens continuarem o trabalho que nós temos feito aqui, durante estes três anos”, conclui Inês Leal.

A Missão País é um projeto católico que envolve milhares de jovens em todo o país, que aproveitam a pausa entre semestres para contactarem com comunidades espalhadas por Portugal.

Em 2020, a Missão País conta com a ajuda de 3.377 missionários divididos em 60 missões, todos com o lema “Desce depressa! Eu fico contigo”.
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  • Petervlg
    12 fev, 2020 Trofa 13:02
    Noticias como estas é que deveriam abri os telejornais. O que necessitamos é de jovens como estes que tem um coração de ouro Parabéns pelo que fazem e acreditam