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Onde encontrar um padre e um DJ? Na Brotéria, o novo centro cultural do Bairro Alto

24 jan, 2020 - 18:00 • Redação

O novo espaço pretende ser "lugar onde as culturas urbanas contemporâneas e a fé cristã se cruzam". A inauguração quer espelhar isso mesmo e, por isso, este sábado, o dia começa com uma conferência do Padre Vasco Pinto Magalhães e acaba com a atuação do DJ Bill Onair.

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Ao entrarmos no número 3 da Rua de São Pedro de Alcântara, no Bairro Alto, em Lisboa, é impossível não nos impressionarmos com a beleza de um espaço com mais de cinco séculos, integralmente restaurado pela Santa Casa da Misericórdia, para acolher a Brotéria, o novo centro cultural de Lisboa.

No átrio da entrada - que, em breve, irá ser a livraria deste espaço - a diretora de comunicação, Benedita Pinto Gonçalves, de 26 anos, tenta dizer algumas palavras para a pequena plateia que ali está, mas é interrompida pelas sucessivas buzinadelas vindas da movimentada rua.

“É sinal da proximidade com a cidade!”, afirma Benedita.

E é exatamente esta proximidade - entre o centro cultural e a cidade - o fio condutor do novo projeto dos jesuítas, que se instalam no Bairro Alto, com o objetivo de criar um “lugar onde as culturas urbanas contemporâneas e a fé cristã se cruzam”.

O espaço inaugura de 23 a 25 de janeiro, com uma programação intensiva, que “pretende mostrar, um bocadinho, o que este lugar quer ser daqui para frente”, explica Matilde Torres Pereira, responsável pela programação.

Por essa razão, começam “com um tema que é o trabalho em 20/20, porque queríamos muito que esta inauguração refletisse algumas das nossas preocupações mais profundas”.

Mas quem entrar nesta casa, durante os próximos dias, vai poder também encontrar exposições, concertos e até um DJ set.

Uma equipa de 10 “a caminho das 11 pessoas”


Por trás deste projeto - que está a transformar uma revista centenária em centro cultural - está uma equipa composta por elementos muito diferentes que querem fazer as coisas “muito bem feitas”. E, por isso, aos seis padres jesuítas escolhidos para esta missão, juntaram-se cinco “profissionais comuns”.

Em resposta à questão “o que vos levou a convidar 'leigos' para a direção” de um centro cultural da Companhia de Jesus, o P. Manuel Cardoso sj deixa escapar rapidamente a expressão “bom-senso”.

O diretor-geral do centro, Francisco Mota sj, 36 anos e padre desde 2016, concretiza a ideia. “Há questões técnicas que nós não dominamos, que queremos fazer muito bem feitas e para fazer muito bem feitas, têm de ser feitas por gente de fora."

Por exemplo, “a nível de comunicação, de imagem, o João Sarmento - que daqui a 20 anos vai ser o melhor escultor português e que é quase padre (será ordenado em julho deste ano) - diz, muitas vezes, ‘a forma é também conteúdo’ e é verdade. A maneira como nos apresentamos, a expressão, aquilo que chega às pessoas, visualmente, em termos de organização, construção de marca, é também conteúdo, é aquilo que nós somos e foi assim que surgiu a conversa com a Benedita”, exemplifica o padre Francisco Mota.

“Não estamos cá só para fazer coisas”


Apesar do desejo “muito grande de por em comum o que se passa dentro [do centro]” para estarem sempre a “par com a cidade” e “não em sentidos opostos”, este centro cultural não quer ser apenas mais um espaço onde “se fazem coisas”, salienta Manuel Cardoso sj, padre desde 2017 a terminar o doutoramento em estudos políticos, numa universidade de Paris.

“A lógica da Brotéria é entrar mais na espessura, é fazer alguma coisa com profundidade e com seriedade. Não estamos cá só para fazer coisas. Portanto, a metodologia de trabalho que nós adotámos é aquilo a que nós chamamos a “programação redonda”. Para cada tema que nós queremos trabalhar, ao longo do ano vamos trabalhando de forma multidisciplinar sob ângulos diferentes”, sintetiza o jesuíta.

Um tema que já está a ser tratado neste registo são as tatuagens. “Queríamos pensar sobre as tatuagens, que hoje em dia são um fenómeno social. Publicámos na revista um texto sobre tatuagens" que suscitou o interesse do Chapitô "e organizamos um evento onde também se debateu esta questão sobre diferentes aspetos. E como o interesse em pegar nisto continua, vamos agora lançar um grupo de leitura com diferentes aspetos, em que reunimos uma vez por mês e olhamos para as tatuagens de um ponto de vista diferente”, conta o P. Manuel Cardoso sj.

Ponto de encontro entre a história centenária e os habitantes da cidade


A Brotéria foi, durante mais de 100 anos, “apenas” uma revista cultural. A partir de agora, à revista coordenada pelo padre António Júlio Trigueiros sj, junta-se este centro cultural.

O edifício é propriedade da Santa Casa da Misericórdia, que a cedeu aos jesuítas por 25 anos, para que “a vida de cultura que uma instituição como a Brotéria tem” passe a estar “mais próxima das pessoas, mais acessível ao público” afirma o P. Francisco Mota sj.

“A biblioteca da Brotéria tem um conjunto de obras pouco habituais para uma biblioteca religiosa, sobre questões sociais, políticas, de psicologia, de saúde”, acrescenta.

E apesar do espólio da biblioteca ter vários séculos, parece que o estilo "pouco habitual" continua a fazer-se sentir na vida dos jesuítas: se passar pela Brotéria, este sábado, pelas 19h30, vai poder ver o DJ Bill Onair a atuar, no mesmo edifício que, apenas dois pisos acima, é morada permanente de vários padres jesuítas, entre os 32 e os 76 anos.

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