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A luta de duas rainhas no palco do Teatro São Carlos

24 jan, 2020 - 07:10 • Maria João Costa

“Maria Stuarda” apresenta-se este sábado no São Carlos, em Lisboa. "É sobretudo a história da relação delicadíssima entre duas grandes senhoras", conta à Renascença o encenador Andrea De Rosa.

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Já foram escritos mais de 20 mil livros sobre a vida de Mary Stuart, ou “Maria Stuarda” como lhe chamou o compositor Gaetano Donizetti, o autor da ópera que marca o arranque do ano 2020 no Teatro Nacional de São Carlos em Lisboa.

Numa produção do Teatro dell’Opera di Roma, “Maria Stuarda” apresenta-se numa encenação do italiano Andrea De Rosa que antes de fazer esta ópera, já antes tinha trabalhado o texto para teatro. “Fiz a rainha Maria Stuart de Schiller em 2007. Fiz o espetáculo em Itália com uma itinerância por vários teatros e foi um sucesso. Depois recebi o convite para fazer a ópera. Disse que a faria na condição de poder usar os mesmos fatos e a mesma cenografia, porque queria, eu próprio, revisitar a ópera do Donizetti à luz do texto de Schiller que tinha feito”, conta o encenador no seu camarim.

Na origem está a peça escrita por Friedrich Schiller sobre a história dos Túdor. Em palco está uma história de luta sanguinária, de confronto entre duas rainhas. Andrea De Rosa descreve-a desta forma: “É sobretudo a história da relação delicadíssima entre duas grandes senhoras. Maria era legitimamente a pretendente ao trono de Inglaterra. Elizabeth tem esse poder com a ajuda da polícia, diríamos hoje, dos serviços secretos. Consegue esse poder graças ao terror, porque este foi um dos períodos mais sanguinários da História de Inglaterra e da Europa.”

O encenador italiano acrescenta que “os confrontos entre católicos e protestantes” são o “pano de fundo da ópera”. Nas suas palavras, quis deixar “respirar um pouco o espetáculo” porque esta é “uma história muito dramática, mas também uma história muito apaixonada”.

A protagonista, Maria Stuarda, é encarnada pela soprano russa Ekaterina Bakanova que encontramos no seu camarim, já de vestido posto, uma viagem no tempo ao século XVIII quando ali entramos. A cantora lírica diz que os figurinos ajudam muito os interpretes a entrarem nas personagens: “Estou muito contente por nesta produção os fatos serem muito tradicionais. Mantêm os cortes do que se usava naquela época. A designer dos figurinos, a Ursula Patzak, criou vestidos muito bonitos em especial para o primeiro ato. Definitivamente ajuda-nos a sentir melhor a personagem, especialmente com os corpetes porque nos dão uma postura correta no palco.”

Mas a soprano que regressa a Lisboa, fala também deste espetáculo onde diz que todos os interpretes estão a estrear-se nos papéis. A este desafio, explica Ekaterina Bakanova soma-se a exigência da música de Donizetti. “É um papel muito exigente, especialmente porque o Donizetti mistura a paixão e uma grande agressividade. Essa é a grande dificuldade de interpretar este compositor. Ele inspirou-se muito em Bellini e o Bellini pertence ao grupo dos compositores mais difíceis de cantar. Em termos estilísticos é muito exigente e ao mesmo tempo sensível. É como se ficássemos nus em cena! Podem ouvir-se todos os erros técnicos!”

Sob a direção musical de Fabrizio Maria Carminati, a ópera “Maria Stuarda” que foi estreada em São Carlos em 1844 regressa agora com a voz também de Alessandra Volpe que interpreta a outra rainha, Elisabeth. Serão cinco récitas desta conturbada relação e a luta de poder entre as duas primas, a rainha da Escócia Mary Stuart e a Rainha de Inglaterra e Irlanda, Elizabeth I.

Apesar de se tratar de uma tragédia, o espetáculo, diz o encenador Andrea De Rosa “é muito simples do ponto de vista da cenografia, e muito rico no que toca à récita. Os cantores estão muito presentes em todo o espetáculo. A música do Donizetti aprofunda em certos casos as passagens que são ditas.” Uma das cenas que o encenador destaca como “a mais bonita é a da oração de Maria antes de morrer”

Satisfeito por regressar a Lisboa, o italiano Andre De Rosa enaltece o trabalho com a equipa do Teatro Nacional de São Carlos. “Trabalhei muito bem. Estou muito feliz de estar em Lisboa. Já cá tinha estado numa outra ópera. É um teatro muito bonito, mas sobretudo trabalha-se com pessoas que têm verdadeiramente uma grande paixão pelo o que fazem. Os solistas são fantásticos, bem como o diretor da orquestra. Estou feliz!”

“Maria Stuarda” sobe ao palco dias 25, 27, 29, 31 às oito da noite e dia 2 de fevereiro às quatro da tarde, no teatro de ópera de Lisboa.

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