|

 Confirmados

 Suspeitos

 Recuperados

 Óbitos

Estes 100 jovens estão prontos a rejuvenescer o debate público, "para que não haja mais desculpas"

21 jan, 2020 - 06:05 • Inês Rocha

João Marecos cumpriu a promessa que fez há nove meses num "Prós e Contras", da RTP. Juntou 100 jovens que querem contribuir para que o debate público deixe de ser um "oligopólio partidário" com as "mesmas caras, das mesmas faixas etárias".

A+ / A-

22 de abril de 2019. O programa da RTP “Prós e Contras” debate a cidadania, 45 anos depois do 25 de abril. Um dos convidados é João Marecos, advogado com 28 anos, “Global Shaper” e co-fundador da página de Facebook "Os Truques da Imprensa Portuguesa". Foi convidado na qualidade de “jovem”, para debater a participação dos jovens na vida política.

João faz uma acusação. “Normalmente, quando vemos debates na televisão, temos sempre as mesmas caras, das mesmas faixas etárias. Nunca chamam os jovens para discutir os temas da atualidade”, atira, dirigindo-se a Fátima Campos Ferreira.

A jornalista responde com outra acusação. “Às vezes não é fácil, porque os jovens demitem-se muito. E é mais difícil encontrar gente muito jovem para intervir do que pessoas de mais idade”.

É aqui que nasce a promessa: João vai criar uma lista de jovens qualificados, disponíveis para falar nas mais diversas áreas, e disponibilizá-la à comunicação social, para dar a conhecer novas vozes.

Nove meses depois, esta segunda-feira, a lista foi apresentada, num "Prós e Contras" dedicado ao assunto (pode ser consultada aqui no site 100 Oportunidades).

Da lista fazem parte 100 nomes de jovens até aos 33 anos, de 20 diferentes áreas, que vão da política à cultura e à sustentabilidade. São 53 mulheres e 47 homens, sem filiação partidária conhecida, especialistas em determinada área. Há portugueses a viver em várias zonas do país, portugueses a trabalhar no estrangeiro e também imigrantes a viver em Portugal.

Filipa Galrão (Mega Hits), Ricardo Esteves Ribeiro (É Apenas Fumaça) e Diana Duarte (Observador) são alguns dos nomes mais conhecidos, propostos para a área da comunicação. Mas há também académicos, como Carlos Moura Teixeira, a estudar Políticas Públicas em Harvard, e Samuel Paiva Pires, professor de Ciência Política na Universidade da Beira Interior. Há artistas, como Teresa Coutinho, responsável pelos ciclos de poesia do Teatro Nacional D. Maria II. Nas áreas da economia e finanças há também quem tenha passado pelo Banco de Portugal, por exemplo.

“Eu entendi a resposta da Fátima como uma justificação, mas também como um pedido de ajuda: ‘nós não conseguimos encontrar jovens’”, conta João Marecos à Renascença. “É esse o mote aqui, fazer com que não haja mais desculpas”, diz o advogado.

Por isso, pôs mãos à obra. E arranjou 100 exemplos. "Não quer dizer que sejam os melhores da sua geração. Não é um ‘Forbes under 30’ ou um prémio. É uma ação de cidadania", realça.

O prazo de dois meses para fazer a lista, que impôs a si mesmo, revelou-se demasiado curto. “Quando disse dois meses, não sabia do que estava a falar”, confessa. O processo acabou por demorar nove meses.

Mais de 50 pessoas envolvidas na criação da lista

A iniciativa, lançada por João Marecos no programa da RTP, foi concretizada pela comunidade de que faz parte: os “Global Shapers”, comunidade internacional do Fórum Económico Mundial formada por jovens entre os 20 e os 30 anos de idade.

Criada em 2011 para desenvolver projetos com impacto local, a comunidade está dividida em "hubs" - grupos que, em cada grande cidade do mundo, se organizam para criar projetos com impacto local.

O “hub” de Lisboa surgiu em 2013 e, atualmente, tem 32 membros.

Foi com a ajuda de outros “shapers” que João chegou aos 100 nomes. Como dentro da comunidade não tinham pessoas que cobrissem todas as áreas, procuraram “curadores” fora da rede para os ajudar.

“A cada curador lançamos o desafio de convidar outra pessoa para os ajudar. Foi aqui que surgiu a ideia dos embaixadores: pessoas com grande conhecimento na sua área que poderiam não só subscrever este manifesto, de dar mais voz aos jovens nestes debates, mas ajudar a escolher estas pessoas”, conta João à Renascença.

Lista é “tudo menos uma lista de amigos”

João Marecos garante que a tarefa de escolher as pessoas para cada área foi, em muitos casos, “um desafio”. “Foi um esforço colegial e não só de um curador a escolher cinco amigos”, garante.

“Esta lista é tudo menos uma lista de amigos”, afirma. “Acho que não há nenhuma pessoa envolvida que conheça mais de 10% das pessoas pessoalmente”.

A orientação política de cada pessoa proposta também não foi um elemento considerado. “Às vezes causa-me alguma ansiedade, porque eu não faço ideia do que pensam estas pessoas que estou a propor”, admite João Marecos.

“Não sei se são de esquerda, de direita. Não perguntámos porque não era o nosso propósito. Isto não é uma iniciativa de imposição de qualquer ideologia”, garante à Renascença.

O objetivo não era ter representatividade a nível político. “Claro que eu, conhecendo algumas pessoas, sei que algumas são mais à esquerda, outras mais à direita”. Mas não foi por isso que foram escolhidas.

Esta é, para João Marecos, uma lista de jovens que sabem o que falam. “Sabemos que estas pessoas têm um percurso profissional ou educativo que nos tirou qualquer dúvida sobre elas poderem acrescentar qualquer coisa nestas áreas. É com essa convicção que as propomos”, diz.

Nas áreas que normalmente são os políticos que comentam, esforçaram-se por afastar qualquer pessoa que tivesse ligações partidárias, ainda que não tenham investigado cartões de militante.

Essa foi uma regra importante, “porque entendemos que o espaço de debate neste momento é um oligopólio partidário. É distribuído e dividido consoante o entendimento dos partidos”, acusa João. “Quem tem essas vias para aceder a essa plataforma não precisa desta. Foi uma tentativa de trazer pessoas que não estão dentro desse oligopólio”, explica.

“Número de novos comentadores por ano chocou-me”

João Marecos baseia as críticas que lança à comunicação social num estudo de Rita Figueiras para a Fundação Francisco Manuel dos Santos, que mostra que, entre 2000 e 2017, passaram pelo comentário político 224 homens e 49 mulheres (82% vs. 18%).

O que significa que, por ano, entraram em média 15 pessoas diferentes no debate público. “Isto num país onde se discute todos os dias, a toda a hora, sobre tudo. Temos canais que estão quase 24 horas a fazer comentário. Isso chocou-me”, conta à Renascença. “Estamos a propor 100 pessoas, num país onde entram 13 novas pessoas por ano”.

O advogado considera que, por vezes, pode haver alguma preguiça ou facilitismo por parte dos órgãos de comunicação ao escolher os convidados, mas o problema é mais profundo. “Acho também que a comunicação social se alimenta deste circuito fechado. Leva os comentadores dos partidos políticos e depois consegue exclusivos em relação aos partidos políticos. Há um círculo que alimenta esta ‘mesmice’”, considera.

João Marecos diz que os dados tornaram o desafio mais “urgente”. Reforçaram a ideia de que estes 100 não são suficientes. “Queremos, de dois em dois anos, escolher novos 100”, avança.

“Ser jovem é uma condição temporária, estamos conscientes disso, infelizmente. O grande objetivo é evitar fazer destes 100 os '100 especiais'”, explica o promotor da iniciativa.

Paridade aconteceu “de forma orgânica”. “Não são só betinhos de Lisboa”

A diversidade da lista - com 53 mulheres e 47 homens - não foi, segundo o autor da iniciativa, forçada. “Acho que é um sinal geracional. Esta geração chega a esta igualdade de forma orgânica. Olha menos para o género, é capaz de ver para além disso”.

Os números não podiam ser mais ilustrativos da realidade - esta é também a percentagem da população feminina e masculina em Portugal. “Às vezes interiorizamos esta ideia de que só conseguimos a paridade se pedirmos, se introduzirmos quotas. Isso revelou-se errado neste caso”.

Além da paridade de género, há também diversidade de nacionalidades: “Temos portugueses a viver em Portugal, de Lisboa, Braga, Porto, Viana, temos estrangeiros a viver em Portugal. Uma rapariga da Síria, uma de Itália, dois ingleses, uma cabo-verdiana, uma angolana, uma brasileira. E temos portugueses a viver no estrangeiro”.

Uma “misturada” que enriquece imenso a lista, para João Marecos. “Não são só betinhos de Lisboa”, brinca.

João espera transmitir com a lista a “vitalidade” de uma geração “que está sempre a levar”.

“Não só leva em termos de reputação, são os ‘millenials’ que gostam pouco de trabalhar, que não saem de casa dos pais, mas depois têm salários que não lhes permitem sair de casa dos pais, mesmo que trabalhem”, afirma o advogado. “É uma geração que os estudos demonstram que vai viver pior do que a geração dos pais. Isto é dramático”.

Um projeto "ao contrário" dos Truques

João Marecos é um dos autores da página de Facebook "Os Truques da Imprensa Portuguesa", juntamente com o arquiteto Pedro Bragança. A página dedica-se a criticar casos que os autores consideram exemplos de mau jornalismo em Portugal.

Começaram por ser anónimos, mas em 2017, revelaram a sua identidade ao público.

O advogado, que tem um mestrado em Direito da Informação, confessa ter um grande interesse pela área do jornalismo, que atravessa momentos difíceis.

"Precisamos urgentemente de fazer com que o espaço mediático volte a ganhar prestígio, credibilidade e abertura para voltar a merecer a confiança das pessoas", afirma.

João Marecos diz entender a "má fama" que tem no meio. "Muitas vezes os Truques são entendidos como um ataque à comunicação social, mas nasceram para ser um grito pela preservação daquilo que faz da comunicação social o nosso referente de credibilidade", explica.

Pelo contrário, o jovem advogado espera que o projeto "100 Oportunidades" tenha um pendor "totalmente positivo" e que seja uma boa ferramenta para jornalistas. "Usem e abusem", sugere aos profissionais da informação.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Teresa Martinho
    21 jan, 2020 Lisboa 08:19
    Boa iniciativa! Devia haver jovens da área da Teologia, podem adicionar. É uma proposta!