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Análise

O que quer o PSD?

17 jan, 2020 - 23:05 • Eunice Lourenço , editora de Política da Renascença

Partido escolhe este sábado entre Luís Montenegro e Rui Rio, depois de uma campanha em que não conseguiram gerar um debate motivador.

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O PSD não quer Montenegro. Essa é uma lição que se pode tirar da primeira volta das diretas sociais-democratas, mesmo que a segunda volta venha a ser uma reviravolta. E isso apanhou de surpresa o candidato e, sobretudo, os seus mais acérrimos apoiantes, que terão achado que o partido ansiava por Montenegro como por água no deserto.

Um sedento no deserto – é assim o PSD, como são os partidos com vocação de poder cada vez que estão na oposição. Mas este PSD ainda mais: vem de duas derrotas, das mais pesadas que os sociais-democratas já tiveram.

O que seria normal era Rui Rio já não ser presidente do PSD. Já há dois anos, Rui Rio não era o líder que o partido queria. Era o que havia. E o que ainda não tinha sido experimentado. Porque o seu adversário – Pedro Santana Lopes – tinha sido experimentado pelo partido e pelo país e não oferecia garantias. Ainda assim perdeu por pouco.

Luís Montenegro perdeu a sua oportunidade em 2018. Não concorreu por puro calculismo: porque achou que terá de passar por um período longo de oposição até ter hipótese de ser primeiro-ministro. Com isso, deixou passar a oportunidade de causar uma boa impressão dentro e fora do partido. Em janeiro de 2019, tentou corrigir no que Rui Rio continua a chamar de “golpe de Estado” e que correu mal.

Agora, tinha mesmo de ser candidato. Mas a entrada em campo de Miguel Pinto Luz baralhou as contas: tanto pode ter impedido uma vitória de Rui Rio à primeira volta, como a vitória de Montenegro.

Miguel Relvas, apoiante de Pinto Luz, já não será o ‘king maker” de outros tempos, mas ainda tem poder e influência que Montenegro recusou logo em 2018.

Se não anseiam por Montenegro, os sociais-democratas também não morrem de amores por Rui Rio, o presidente que maltrata o partido. Mas que tem ideias, tem uma estratégia e tem experiência que permitem alguma confiança.

De Montenegro só sabemos que acha que o PSD não deve fazer acordos com o PS. De Rio sabemos o que pensa sobre economia, justiça, segurança social, sabemos que quer um PSD mais ao centro, mais social-democrata, que pode negociar e até chegar a consensos com os socialistas. É o que há, mesmo que pareça fora do seu tempo.

Paulo Rangel, que esteve para avançar há dois anos, recuou e lá ficou na retaguarda de Rio. Carlos Moedas, o preferido do Presidente Marcelo, está a instalar-se na Gulbenkian, lugar mais bonito, mais sossegado e com muito menos chatices. Pedro Duarte, um dos ex-líderes da JSD que chegou a manifestar vontade de liderança, encolheu-se e apoia Montenegro. Jorge Moreira da Silva, outro ex-presidente da JSD que também chegou a levantar o dedo para dizer ‘estou aqui’, acabou por escolher a OCDE.

E, assim, num momento em que o CDS já mudou de geração e ainda pode vir a rejuvenescer mais no próximo congresso, o PSD parece não ter opções e não conseguiu gerar um debate substantivo sobre políticas, nem sobre o seu papel na sociedade. O parceiro à sua direita, que saiu muito mais enfraquecido das legislativas de outubro, parece de longe mais vivo. Mas também sabemos que, no PSD, pode chegar fazer-se de morto para ser primeiro-ministro. Quando o ciclo político virar – e vai virar, faz parte do sistema – é quem lá estiver que vai ter o poder a cair-lhe no colo.

O líder saído destas diretas ainda não será a chegada aos rios da Babilónia. Será apenas um oásis onde o PSD pode descansar um bocadinho, esperar que a tempestade passe e que cheguem cavalos novos e frescos que o consigam levar para fora do deserto até às águas do poder. Ou então um líder, como Rio, tão resiliente, que aguente até que o ciclo do poder volte a virar para o PSD.

O PSD não escolhe este sábado o que quer, mas o que há. E com os olhos postos não no futuro, mas no passado. Porque muitos, como Miguel Relvas, defendem e esperam o regresso de Pedro Passos Coelho. A derrota de Montenegro pode aumentar ainda mais a desilusão e aumentar o desejo pelo regresso do que consideram ainda ser o líder natural da direita.

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