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Ricardo Araújo Pereira e joana marques

“Fazer uma piada sobre os nossos próprios valores não os belisca em nada”

13 jan, 2020 - 16:30 • José Pedro Frazão

Existem limites para o Humor ? O que faz o humorista com o enorme poder social que tem hoje? Que relação com a política? E com as redes sociais? Ricardo Araújo Pereira e Joana Marques debateram o lugar do Humor na sociedade no programa "Da Capa à Contracapa", da Renascença, em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos.

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O humorista Ricardo Araújo Pereira rejeita que uma piada ou uma sátira seja equiparada a uma ofensa. Convidado do programa “Da Capa à Contracapa” para debater a importância do humor na sociedade, o cronista e praticante de artes marciais recusa equiparar o Humor a uma agressão, no caso da polémica que certas piadas podem provocar.

“A comédia não é ‘punching’, lamento. Há uma diferença bastante grande entre uma piada e um soco. E eu posso exemplificar a diferença a quem quiser. E aí as pessoas terão uma consciência mais aguda de que realmente ser alvo de uma piada não custa tanto como levar um ‘banano’ nas ventas”, afirma o humorista que acaba de se transferir da TVI para a SIC.

Instado a comentar a forma como os valores do humorista enquadram as sátiras que protagonizam, Ricardo Araújo Pereira defende que “fazer uma piada sobre os nossos próprios valores não os belisca em nada. À própria ideia de comédia está subjacente uma certa ideia de cepticismo. A comédia é uma espécie de anti-fanatismo que faz como que as certezas possam ser questionadas a toda a hora. Isso não só não é grave como é produtivo para nós”.

O humorista debateu o tema com a também comediante Joana Marques que diz guiar-se primordialmente pela graça das piadas que constrói, mais do que os valores que possa ou não seguir como pessoa. E deu o exemplo de piadas feitas a propósito do desaparecimento de crianças.

Se eu não me iria rir com isto, não vou fazer. Normalmente tento fazer piadas às quais também achasse graça. Nunca me passaria pela cabeça proibir qualquer humorista de humor mais negro de o fazer. Eu é que posso não me rir com isso”, declara a humorista do programa “As Três da Manhã” da Renascença.

A pulsão da censura

Os convidados do “Da Capa à Contracapa” concordam que é possível fazer humor com todo o tipo de temas e defendem o direito ao mau gosto, evitando a censura e a imposição de tabus.

Ricardo Araújo Pereira assinala que muita gente defende que apenas a qualidade da piada a salva de ser proibida. “O problema é quem é a Alta Autoridade da Comédia que determina que uma piada é suficientemente engraçada para tolerarmos que se fale deste tema difícil. Isso não é possível. Em última análise é uma questão de gosto e acho difícil legislar o gosto e punir pessoas porque o gosto delas é mau. Não deve ser proibido ter mau gosto e até ser um palerma”, argumenta o fundador dos Gato Fedorento.

Em certa medida, Araújo Pereira vê “uma vantagem” nessa “compulsão para censurar e impor o seu gosto aos outros” que torna até mais fácil fazer humor sobre temas considerados proibidos.

“Às vezes é mais engraçado fazer uma comédia quando nos querem impor tabus. Isso às vezes é preciso. É bom que nos imponham que aquela palavra não se pode dizer. Isso torna mais fácil o nosso trabalho. Basta dizer a palavra para termos a sensação de que o que aquela pessoa acabou de dizer é inadmissível”, afirma no programa da Renascença em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos. Joana Marques acrescenta que a pulsão para proibir é “uma tendência que se tem agravado nos últimos anos e é mais preocupante”.

Humor, política e redes sociais

A fronteira entre a popularidade dos humoristas e a intervenção cívica ou política foi outro dos temas em debate, com Ricardo Araújo Pereira e Joana Marques a reconhecerem um forte impacto social provocado pelo trabalho dos humoristas. O cronista deu mesmo a garantia de que “nunca serei candidato a presidente seja do que for, nem sequer de uma associação recreativa”. Certo é que muita actualidade política passa hoje pelo filtro do Humor, embora os humoristas recusem assumir a responsabilidade de enquadrar os desenvolvimentos políticos para o grande público.

“Quem acompanha a actualidade politica por um programa de comédia arrisca-se a não ficar bem informado. Isso está fora do nosso alcance”, diz Ricardo Araújo Pereira para quem esse cenário, a confirmar-se, revela que algo não está bem. Joana Marques complementa: “não o fazemos para as pessoas se interessarem por politica”. O fundador dos Gato Fedorento diz contudo que já teve “a experiência ao contrário, com gente que me dizia que os filhos começaram a ver mais sobre politica para perceber o programa. Também esse lado positivo não tem a nossa responsabilidade”.

A explosão das redes sociais é algo que também mexe com o ecossistema do Humor, reconhece Joana Marques que acentua que há “óptimos humoristas não profissionais” com muita graça no Twitter e no Facebook . Com uma vantagem: “têm a sorte de ter alguma descontração porque não têm prazos para entregar e fazem a coisa até mais naturalmente que nós”. Fazer humor no tempo das redes sociais implica atenção ao que se escreve nas redes. “Temos que ter esse cuidado de ir ver. Num programa diário, as coisas acontecem muito rápido e quando há qualquer coisa com André Ventura ou com Joacine há logo milhares de piadas feitas com isso nos minutos seguintes. Isso dificulta um pouco a nossa tarefa porque temos que fazer uma piada que ainda não foi feita. É bom, dificulta o processo e não vamos para a primeira ideia, mas se calhar para a décima”, justifica a humorista da Renascença.

Para Ricardo Araújo Pereira, este é mais um sinal dos novos tempos. “Ir ao Google ver algo de que se lembrou para ver se alguém já fez aquilo é algo que me já aconteceu. Ainda no outro dia tinha um jogo de palavras de que estava muito orgulhoso para crónica da Visão, fui ao Google ver e Joana Marques já tinha feito”, ironiza. A conhecida aversão do cronista às redes sociais liga-se à natureza das discussões mantidas nos perfis dos utilizadores.

“É muito diferente duas pessoas terem uma discussão - no sentido de uma desavença - oralmente e olhando uma na outra ou fazerem-na por escrito, à frente de toda a gente quando estão cada um na sua casa. É claro que já dissemos coisas que nos arrependemos frente-a-frente com outra pessoa. Mas é diferente de nos arrependermos de uma coisa escrita, com uma plateia que participa com polegares para cima e para baixo”, remata Araújo Pereira.

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