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Conflito com Igreja Ortodoxa expõe divisões em Montenegro

30 dez, 2019 - 14:59 • Filipe d'Avillez com Reuters

A Igreja Ortodoxa Sérvia pediu aos seus fiéis para se reunirem em protesto contra uma medida do Governo do Montenegro que consideram discriminatória. A tensão já resultou em violência.

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Milhares de fiéis da Igreja Ortodoxa da Sérvia saíram às ruas de várias cidades de Montenegro, esta segunda-feira, em protesto contra uma medida do Governo que a hierarquia da Igreja considera discriminatória.

Nalgumas cidades os protestos resultaram em violência, com os manifestantes a lançar pedras contra a polícia, que respondeu com gás lacrimogéneo.

Os protestos surgiram depois de a hierarquia daquela Igreja ortodoxa ter pedido aos seus fiéis para se reunirem nos locais de culto em oração, “para mostrar ao regime de Montengro que não vamos ceder”.

Em causa está uma medida passada pelo Governo que obriga as comunidades religiosas a comprovar que o seu património já lhes pertencia antes de 1918, altura em que o Reino de Montenegro foi incorporado ao Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos. Mais tarde toda a região seria integrada na Jugoslávia. Os terrenos e propriedades cuja prova de titularidade prévia a 1918 não seja apresentada poderão ser nacionalizados.

A Igreja Ortodoxa da Sérvia teme que a lei seja uma forma encapotada de tentar diminuir a sua influência em Montenegro e de favorecer a Igreja Ortodoxa de Montenegro, que não é reconhecida por mais nenhuma igreja ortodoxa.

Em resposta, a polícia montenegrina acusou a Igreja de incentivar à violência através de “declarações de dignitários eclesiais que estão a conduzir à obstrução da ordem pública e ao ferimento de agentes policiais”.

A aprovação da lei no dia 26 de dezembro já tinha levado a protestos e confrontos com a polícia, como se vê no vídeo abaixo, postado por grupos pró-sérvios, e mesmo à detenção de políticos também pró-sérvios.

Direitos sucessórios


A questão é que até 1918 existia uma Igreja montenegrina, mas esta foi dissolvida e passou a incorporar a Igreja Ortodoxa da Sérvia a partir da unificação dos reinos. Em 1993 um monge que tinha sido expulso da Igreja Sérvia fundou a Igreja Ortodoxa de Montenegro, que reclama agora ser sucessora da Igreja de 1918.

Caso o Governo entenda que essa reivindicação é correta, fica com mão livre para passar igrejas, mosteiros e terrenos da Igreja Sérvia para a Igreja de Montenegro. A Igreja montenegrina tem pretendido fazer isso mesmo ao longo dos últimos anos. O Governo, entretanto, nega que seja essa a sua intenção, mas a oposição, pela voz do partido pró-sérvio Frente Democrática, diz que é precisamente isso que está a acontecer.

O conflito com a Igreja Ortodoxa da Sérvia expõe as grandes divisões que existem em Montenegro devido à questão da independência. Em 2006 esta foi aprovada em referendo por 55,5% da população, apenas meio ponto percentual acima do limite mínimo necessário para que o referendo fosse vinculativo. O parlamento acabou por declarar a independência, pondo fim ao que restava da Jugoslávia, mas há uma parte muito significativa da população que continua a considerar-se próxima da Sérvia e especula-se que muitos tenham votado pela independência por acreditarem que sozinho o Montenegro teria mais possibilidades de aderir à União Europeia e não por qualquer verdadeiro sentimento nacionalista.

Atualmente a esmagadora maioria dos ortodoxos em Montenegro continua a frequentar a Igreja Ortodoxa da Sérvia com menos de 30% a frequentar a Igreja montenegrina, que continua sem conseguir obter reconhecimento por outras igrejas oficiais e é por isso considerada cismática.

O Cristianismo oriental segue uma lógica de igrejas étnicas ou nacionais, o que levanta frequentemente problemas em situações como esta. A Ucrânia tem sido palco de tensões pela criação de uma Igreja Ortodoxa da Ucrânia oficialmente reconhecida pelo Patriarca de Constantinopla, que é o primeiro entre iguais dos patriarcas ortodoxos, uma vez que Moscovo recusa largar mão da sua jurisdição naquele país. O mesmo acontece com a Igreja Ortodoxa da Macedónia, que também declarou a sua autocefalia em relação à Igreja Sérvia, mas que também não foi reconhecida.

As Igrejas nacionais são frequentemente encorajadas pelas forças políticas que defendem a independência, como parece estar a acontecer em Montenegro.

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