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Eleições no Reino Unido

“Partidos ainda não responderam à nova realidade eleitoral do Brexit”

11 dez, 2019 - 20:24 • António Fernandes, correspondente em Londres

A partir da Universidade de Richmond, em Londres, a professora de política Eunice Goes tem acompanhado o furacão político do Brexit. Em entrevista à Renascença, explica o que precisamos saber sobre as eleições britânicas desta quinta-feira.

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Pela terceira vez em quatro anos, os britânicos vão a votos. As eleições antecipadas foram convocadas depois de um impasse no processo do Brexit que paralisou o Parlamento e acabou por levar a que o Governo perdesse a maioria. No centro das eleições está, por isso, o Brexit, um assunto que dividiu o país.

A partir da Universidade de Richmond, em Londres, a professora de política Eunice Goes tem acompanhado o furacão político do Brexit. Em entrevista à Renascença, explica o que precisamos saber sobre as eleições britânicas e afirma que “os partidos ainda não responderam à nova realidade eleitoral que descobrimos com o Brexit”.

Como funcionam as eleições no Reino Unido?

Na realidade são 650 eleições que estão a decorrer. Cada círculo eleitoral, é um ato eleitoral onde os eleitores podem escolher um deputado e o que for mais votado, não precisa de uma maioria, é quem ganha o lugar. Nestas eleições, e é um fenómeno que já dura quase há 10 anos, há cada vez menos bastiões seguros para os partidos. Portanto há deputados que foram eleitos com pluralidade ou maiorias muito pequenas. Ora, isto significa que o partido rival tem uma chance elevada de ser eleito.

Nestas eleições vai haver uma taxa elevada de voto útil, porque há eleitores que estão altamente motivados, uns que querem travar o Brexit, portanto vão votar no candidato que tem maior probabilidade de derrotar o candidato conservador, os eleitores que querem que o Brexit aconteça, vão votar de uma maneira útil, mesmo que tenham de votar Conservador por exemplo, porque essa é a única forma de garantir que o Brexit acontece.

Quando as eleições foram anunciadas falou-se nas eleições de uma geração, mas a campanha acabou por ser morna. Não foi a campanha que se esperava?

Não é a campanha que os partidos esperavam, e isto porque o eleitorado está a confrontar-se com, por um lado, querem uma resolução para o Brexit e estão a seguir atentamente os acontecimentos, mas há também uma grande desmobilização. Há mais de dez anos que os britânicos estão um bocado fartos dos seus políticos, desde o escândalo das despesas parlamentares em 2009, e todo o impasse sobre o Brexit, quando o Parlamento criou obstáculos à aprovação do programa do Governo, a leitura que o eleitorado fez foi que os políticos estavam a criar impedimentos à resolução do Brexit.

O que tem acontecido é o Partido Trabalhista a evitar falar do Brexit, porque não tem uma posição clara sobre o assunto, particularmente o líder do partido, Jeremy Corbyn, que disse que se vai abster no caso de um referendo sobre a União Europeia. Os conservadores, por outro lado, querem falar do Brexit, e prometem que vão resolver o Brexit até 31 de janeiro. Há muitas dúvidas sobre como isso vai acontecer, se é de facto possível. Depois temos os liberais democratas que prometeram revogar o artigo 50 e esse é um grande problema, porque para a maioria dos eleitores essa proposta é antidemocrática. Há insatisfação sobre o que os políticos estão a propor, há insatisfação com o estilo de vida, a vida piorou para as pessoas nos últimos dez anos. Tudo isto combinado resulta num eleitorado zangado com os políticos.

É uma eleição motivada e centrada no Brexit. Isso fez com que esta campanha fosse diferente das anteriores?

Fez, porque os partidos estão extremamente divididos internamente. No Partido Conservador, todos os moderados saíram, o partido tornou-se um partido do Brexit, o próprio programa não tem praticamente mais nada para além de prometer o Brexit.

O Partido Trabalhista está também muito dividido, entre os deputados que defendem uma visão cosmopolita, que representam os jovens e o eleitorado urbano e, por outro lado, temos os eleitores tradicionais trabalhistas, no Nordeste de Inglaterra e das Midlands que não gostam da União Europeia, principalmente porque estão preocupados com questões de imigração.

É muito difícil para os partidos gerirem coligações de apoiantes e deputados com visões para o futuro tão diferentes. E é isso que o Brexit tem revelado, nos últimos três anos - os partidos ainda não responderam à nova realidade eleitoral que descobrimos com o referendo para sair da União Europeia em 2016.

Um eleitorado dividido, como prova o resultado do referendo, 52-48%. O que é que está na base dessa divisão?

A decisão de sair da União Europeia não foi tomada de ânimo leve, e não é o resultado só da campanha. No fundo, é o resultado dos efeitos de desindustrialização dos anos 80 e 90, da intensificação da globalização, que levou a uma revolução muito grande a forma como vivem as populações no Nordeste de Inglaterra, nas Midlands, no País de Gales e na Escócia também, que viram as fábricas a fechar e não houve nenhum outro setor económico que aparecesse. O que apareceu foi trabalho precário. São populações que se sentem muito abandonadas pela classe política. Chegando a 2008, com a grande crise financeira, essa foi mais uma década perdida em termos de rendimentos. Os rendimentos da população baixaram brutalmente e ainda não recuperaram para o nível de 2008.

Estas são as causas, eu acho, que levam a que os eleitores estejam tão descontentes e, de certa maneira, a União Europeia foi o bode expiatório. A União Europeia, e os imigrantes provenientes da União Europeia. Houve uma vaga muito grande de imigrantes europeus, entre 2005 e 2012, primeiro os imigrantes da Europa de Leste e Central, e a seguir os da Europa do Sul.

Numa altura de cortes nos serviços públicos, com bibliotecas a fechar, com pouco dinheiro para as escolas e para o Serviço Nacional de Saúde, os imigrantes foram o alvo - essa foi a resposta fácil. Sair da União Europeia foi um pontapé que se envia aos políticos há espera de uma resposta, que até agora não chegou.

Voltando à campanha, pelo meio tivemos um incidente terrorista em London Bridge, que vitimou duas pessoas, e que foi de certa forma politizado, até pela forma como os partidos responderam. Quem é que beneficia numa situação destas?

De uma maneira geral, os governos são quem beneficia de um incidente destes em tempos de eleições. Porque os governos nessa altura têm oportunidade de se apresentarem como a força que responde com responsabilidade. Por isso, seriam, os conservadores a beneficiar. Mas Boris Johnson tem sido muito criticado por ter politizado o incidente, em particular pela família de uma das vítimas, que tem criticado o Governo pelo aproveitamento do ataque terrorista para promover uma certa agenda política.

Eu acho que o que está a acontecer é que como esta está a ser uma eleição muito renhida, os partidos estão a lutar com tudo o que têm à disposição, por vezes com meios que não são legais, com muitas mentiras a serem ditas pelos partidos. Todos estão a dar o tudo por tudo porque há ainda uma incerteza quanto ao resultado das eleições.

Há incerteza, os conservadores têm agora maior probabilidade de chegar à maioria, mas é possível que tenhamos o Parlamento novamente dividido?

As sondagens apontam para uma maioria conservadora, mas temos de ler as sondagens com muito cuidado. Se o Parlamento ficar de novo dividido, em que nenhum partido tem maioria essa seria a única possibilidade de o Jeremy Corbyn liderar um governo britânico. Se for esse o caso, daqui a 12-18 meses teremos novas eleições, e o Brexit pode voltar a ficar adiado.

E como é que Jeremy Corbyn chegaria ao poder? Através de uma coligação?

Não diria tanto uma coligação, mas uma espécie de geringonça portuguesa, porque há divergências ideológicas entre os trabalhistas, os liberais democratas e o Partido Nacionalista Escocês. Os dois partidos já recusaram coligar-se a Corbyn, mas poderão apoiar pontualmente peças de coligação, nomeadamente o plano para o Brexit - que seria uma nova negociação e depois um referendo.

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