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A caminho da COP25

Lisboa-Madrid. Uma noite sem clima no comboio de Greta

06 dez, 2019 - 07:05 • José Pedro Frazão

A Renascença acompanhou a ativista sueca na viagem de comboio que escolheu fazer para chegar à Conferência climática de Madrid. A sueca não saiu do seu compartimento durante o percurso.

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Ela segue o seu caminho. Entra num comboio como se não fosse Greta Thunberg. Silenciosa, pragmática, como se fosse uma dessas adolescentes suecas que só quer instalar-se na carruagem que a vai adormecer até ao destino.

Pouco importam as baias montadas, com a ajuda da polícia, na entrada mais próxima da Gran Classe do comboio Talgo que a levará noite fora a Madrid. Greta entra por dentro, percorre o estreito corredor da carruagem em busca da cabina mais luxuosa da fileira. Vem sempre com o cartaz das greves pelo clima, preparada para o frio com um capuz claro que sobressai de um casaco que levaríamos para a Serra da Estrela.

Os repórteres de imagem procuram-na do lado de fora, colam as lentes aos janelões, atropelam-se para conseguir a face fechada da menina sueca. Não há quase ninguém que venha por ela à despedida na linha 3. Uma turista pergunta-nos o que se passa. A calmaria que preenche a plataforma de Santa Apolónia é apenas incomodada por essa agitação de câmaras e microfones que buscam Greta. A segurança barra a subida dos repórteres à carruagem. E ela segue, sem um sorriso para fornecer aos jornalistas que nesta noite são os únicos que a seguem como uma estrela pop.

E foi tudo o que se viu de Greta

Ocupou a carruagem que mais luxo tem neste comboio noturno. Cruzará a fronteira em Vilar Formoso numa cabina com cama e duche, munida de bilhetes para si e para o pai, com uma acompanhante não identificado na carruagem adjacente. Não circula como o Papa nos aviões nem os adolescentes nos comboios noturnos.

Não se sabe se mostrou a identificação pedida com simpatia pela polícia aos passageiros, a bordo e ao largo de Mortágua, alegando rotina de reposição de fronteiras pela Conferência de Madrid.

E não, não abriu cortinas para agradar aos repórteres que foram tentando novos planos no mapa das paragens curtas. Entroncamento, Coimbra, Mangualde. A Beira foi entrando na linha mas não quebrou a disciplina da adolescente sueca. Não houve alterações no clima entre carruagens. Sem gelo, quanto mais degelo.

Resguardada do frio quase negativo desta noite na Península, não se sabe se deu pela tão falada troca de locomotiva do Talgo, elétrica para diesel e depois diesel para elétrica. Um compasso técnico de 15 minutos em solo espanhol que só recolocou a ecologia nos carris pelas seis da manhã em Medina del Campo.

A essa hora o senhor Joaquim Silva que serviu queijo, sopa, tortilhas e cerveja pelo serão está já a abrir o balcão às sandes e leite matutino. Greta e os repórteres ganham força para a marcha mais logo em Atocha. Ambos parecem entender, por agora em viagem, que o gelo que entre eles se instalou de alguma forma também tem que existir. Nem que seja pela força dos compartimentos ou pela decência dos comportamentos, assim chegará connosco a Chamartin.

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