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Costa desafia socialistas a combater "discurso do medo" da extrema-direita

01 dez, 2019 - 19:35

O primeiro-ministro afirmou igualmente que deseja prosseguir e aprofundar solução à esquerda em Portugal.

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O primeiro-ministro, António Costa, pediu hoje cooperação entre democratas no combate "aos discursos do medo da extrema-direita" europeia, e considerou essencial a existência de estabilidade política e de um Governo em plenitude de funções em Espanha.

António Costa assumiu estas posições em Bilbau, após receber o Prémio da Fundação Ramón Rubial pela "Defesa dos valores socialistas", num discurso que dedicou aos líderes históricos do PS, Mário Soares, e do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), Felipe González.

"Ao evocar Mário Soares e Felipe González quero também homenagear todos os outros camaradas e companheiros socialistas, portugueses e espanhóis, que contribuíram com tanto sacrifício para as conquistas alcançadas em nome dos ideais que partilhamos: Liberdade, democracia, tolerância e capacidade de diálogo, progresso económico e justiça social", disse.

De acordo com António Costa, vivem-se atualmente "tempos incertos e perigosos", com a extrema-direita a crescer na Europa e com a democracia a dar sinais de "riscos sérios de erosão, inclusivamente em países com larga tradição democrática".

"A nossa missão como socialistas é combater aqueles que exploram o medo em proveito próprio e como instrumento para chegarem ao poder. Este é um combate que deve ser travado em cooperação internacional", advertiu, antes de enumerar desafios como as alterações climáticas, a sociedade digital, as migrações, o terrorismo e a desigualdades económicas e sociais.

Estes desafios, na perspetiva do líder do executivo português, exigem esforços de investimento na saúde pública, na educação, nas qualificações, na inovação e no direito ao trabalho digno com bons salários. Neste contexto, António Costa saudou a "perseverança e tenacidade" do líder socialista e chefe do Governo espanhol, Pedro Sánchez, dizendo que tem pela frente "uma missão complexa", e fazendo votos para que "Espanha tenha rapidamente" um executivo "progressista" - uma parte do discurso que foi muito aplaudida pelos socialistas bascos que enchiam a plateia do auditório.

"A estabilidade institucional é fundamental para as nossas relações bilaterais", alegou logo a seguir o primeiro-ministro português, apontando como exemplos a cooperação transfronteiriça, a gestão de recursos comuns (como os rios), o abastecimento energético, a educação, a agenda digital, os assuntos sociais, a política de infraestruturas de transporte, o turismo e a segurança interna e externa.

"Não temos relações tão densas com outro país como com Espanha e, por isso, esperamos que, em breve, possa haver um Governo a funcionar em pleno. Em Portugal, há quem diga que sou otimista irritante. Pois bem, penso que o otimismo é uma característica essencial a qualquer bom socialista, porque sem otimismo não há esperança", alegou - aqui numa alusão a uma caracterização que lhe foi feita pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e que provocou alguns risos na plateia.

Para António Costa, ser socialista consiste antes de tudo em defender e promover a liberdade e a solidariedade concreta de oportunidades, "significa estar do lado dos que mais necessitam e criar condições políticas para um marco social que permita a emancipação cívica, económica e cultural de todos dos cidadãos". "Nos nossos países tivemos séculos de inquisição, décadas de ditadura, sabemos o que nos custou a liberdade", frisou na parte final da sua intervenção lida em castelhano, onde classificou igualmente como inaceitáveis fenómenos de "regressão cívica, de erosão da democracia, de regressão económica ou cultural com o crescimento da intolerância".

"Interpreto este prémio como o reconhecimento do que fizemos estes últimos anos em Portugal. Demonstrámos que era possível virar a página da austeridade, consolidando as finanças públicas, e um aspeto essencial foi o diálogo frutífero que tivemos - e que queremos seguir - com as outras forças de esquerda. O fim da incomunicabilidade da esquerda foi um aspeto decisivo na democracia portuguesa", considerou.

Na sua intervenção, o primeiro-ministro deixou ainda a promessa de que trabalhará em conjunto com os socialistas espanhóis em defesa de ideais como uma construção europeia "mais solidária, com mais democracia e prosperidade partilhada". "Queremos uma Europa mais livre, justa e fraterna", acrescentou.

Costa afirma que quer prosseguir e aprofundar solução à esquerda em Portugal

O primeiro-ministro afirmou hoje ser sua intenção "prosseguir e aprofundar" a solução política à esquerda em Portugal, dizendo que "o fim da incomunicabilidade" entre estas forças enriqueceu a democracia portuguesa.

António Costa deixou esta nota sobre a situação política em Portugal numa parte em que falou de improviso no discurso que proferiu em Bilbau, Espanha, após ter recebido um Prémio da Fundação Ramón Rubial pela "Defesa dos valores socialistas". Nesta parte da sua intervenção, feita em castelhano, o primeiro-ministro falou da ausência de diálogo político para soluções de Governo entre os partidos da esquerda até 2015, em contraponto com uma direita historicamente "sempre muito pragmática".

"A direita foi sempre capaz de unir-se para chegar e para se manter no poder. Em Portugal, até 2015, a direita dava por adquirido que as divisões nascidas do período da revolução de 1974 entre a esquerda seriam eternas. Nesse sentido, o fim da incomunicabilidade entre as forças de esquerda em Portugal eliminou o último vestígio que havia do Muro de Berlim. Foi uma conquista muito importante para a democracia portuguesa", afirmou António Costa.

Depois, o primeiro-ministro falou sobre o futuro do Governo português, dizendo pretender continuar a aprofundar a solução política com o Bloco de Esquerda, PCP, PEV, Livre e PAN na presente legislatura.

"Esta solução permitiu resultados que queremos prosseguir e aprofundar, porque há ainda muito para fazer. A grande riqueza da democracia é haver sempre uma alternativa. E sempre dissemos que não era verdade quando nos diziam que não havia alternativa", afirmou, numa crítica às lógicas políticas conservadoras na Europa. "Há sempre alternativa. Por vezes, não estamos a ver essa alternativa, mas ela existe e a nossa missão é encontrá-la, construí-la e pô-la no terreno", acrescentou.

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