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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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A soberania do bem

29 nov, 2019 • Opinião de Henrique Raposo


Se o cínico peca quando diz que não há moral, o moralista peca quando dá a entender que as escolhas morais são sempre fáceis e óbvias. Não são.

“Rezar a Vida“, do Padre Paulo Duarte, é editado pela Matéria Prima

O jesuíta José Maria Brito cunhou uma expressão sublime sobre a fé. A nossa crença, diz Brito, não deve ser um tijolo para atirar, mas sim um tesouro para partilhar. O Paulo Duarte, também jesuíta, é um dos grandes guardiões deste tesouro em Portugal. Tesouro, esse, que nunca é transformado em lingotes, quais tijolos dourados para atirar aos outros em forma de julgamento e punição. E isto não quer dizer que o Paulo é relativista. Não, o Paulo não é um saduceu. Quer dizer, isso sim, que o Paulo é moral, e não moralista. Qual é a diferença? O moralista usa a fé para vigiar e punir os outros, sem nunca passar pelo esforço fundamental do cristão: compreender a preposição do outro, tentar compreender as acções dos outros, mesmo quando essas acções são terríveis.

Dou dois exemplos desta atitude, um histórico, outro microscópico. Primeiro: Hannah Arendt dizia, e bem, que era preciso compreender a emergência do nazismo, deixando bem claro que compreender não é desculpar; era preciso compreender o nazismo, porque a tarefa fundamental era impedir o regresso de algo parecido. Segundo: a rapariga que há dias abandonou um bebé no lixo. É óbvio que esta mulher tem de ser punida, cometeu um crime hediondo. Só que esta punição legal é somente o princípio da conversa. A seguir vem o fundamental: tentar compreender porque é que ela fez aquilo, tentar sentir o que ela estava a sentir (não tem país, não tem família, não tem casa, vive na rua, é abusada, tem fome, tem frio) para fazermos a pergunta chave: qual é o livre arbítrio que sobra a uma pessoa a viver assim? Ela não tomou aquela decisão no nosso conforto. Este esforço de compreensão é fundamental a três níveis. Primeiro, é fundamental para nós, pois obriga-nos a um esforço moral e até literário de expansão da nossa sensibilidade moral. Nós temos de imaginar os dilemas morais desta pessoa, dilemas que nunca lhe ofereceram boas alternativas, ela só tinha diferentes opções de mal à sua disposição. Segundo, é fundamental para ela, porque nós, como cristãos, temos de lutar pela redenção desta pessoa. Terceiro, é fundamental para a sociedade, porque o foco principal é criamos as condições para que este crime não se repita. Ora, estes três passos resumem bem o magistério do Paulo Duarte: ser moral sem ser moralista; ser duro com o pecado sem perder a empatia com o pecador.

Mas como é que mantemos o rigor contra o pecado ao mesmo tempo que mantemos a empatia com o pecador? Ao ler este livro do Paulo, lembrei-me muito da filosofia ou psicologia de Iris Murdoch. Eu não sou fã de Murdoch, já deixei dois livros a meio, mas venero os pressupostos morais da sua visão. Pressupostos, esses, que foram compilados num livro de 1970 intitulado "A Soberania do Bem”.

Ao longo das últimas décadas, o cinismo pós-moderno impôs duas visões parecidas: ou não há moral, somos bolas de bilhas a chocar umas nas noutras, ou a moral é apenas o afecto de cada um, cada um escolhe a sua moral. Ou não há bem, ou o bem é apenas uma mera subjectividade de cada um. Seguindo ou não o Evangelho (ainda não percebi, embora isso seja de somenos importância), Iris Murdoch recusa em absoluto esta predisposição amoral. A moral existe, em primeiro lugar, e é exterior ao ser humano, em segundo lugar. O bem é real e não subjectivo. O ser humano não cria moral, descobre a moral que já existe na estrutura do mundo. A bondade, a ternura, a crueldade ou a futilidade não são pontos de vista, são realidades palpáveis. O Paulo faz-me lembrar Murdoch por isto. Ele percorre o mundo moral como o botânico percorre o mundo natural, isolando as flores e as ervas daninhas, cuidando das primeiras e mondando as segundas.

Os ecos de Murdoch continuam noutro ponto do trabalho do Paulo. Quando falamos de moral, não podemos ceder à abstracção fácil. É esse o pecado do moralismo. A moralidade choca com a realidade física e desse choque nascem os dilemas morais que nos definem enquanto seres humanos. Se o cínico peca quando diz que não há moral, o moralista peca quando dá a entender que as escolhas morais são sempre fáceis e óbvias. Não são. Ser decente é uma carga de trabalhos. Os textos do Paulo partem desta premissa, partem de dilemas reais de pessoas concretas, pessoas que não sabem muito bem o que fazer, porque o fardo da escolha é tremendo. Por outras palavras, não serve de nada defendermos um Bem abstrato se formos insensíveis às pessoas concretas que nos rodeiam. "Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa” (1 Cor 13, 1).

PS: texto da apresentação do livro "Rezar a Vida", 27 novembro, Lisboa.

Comentários
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  • Vera Costa
    02 dez, 2019 13:08
    Continuação: Eu já tinha visto um homem com o carro parado, à porta dos Hotéis do outro lado da Avenida Duque d'Ávila,tinha uma farda: chaufer! devia trabalhar nos hotéis! Eu morava em Olival Basto, apanhava o autocarro na Calçada de Carriche, até à Avenida da República,depois seguia a pé por aquela avenida até ao largo de São Sebastião da Pedreira,que os eléctricos naquela hora iam muito cheios; eram 7,30h da manhã, estava nevoeiro cerrado, eu entrava na escola às 8h, Marquesa d' Alorna (ficava lá ao fundo, chamavam-lhe o Bairro azul); eu ia carregada com uma pasta de livros,na outra mão,um saco com o material de desenho, o fato de ginástica e os ténis! de repente, sem ruído nenhum, o homem tapou-me os olhos, eu lutei com o saco batendo nele, mas ele empurrou-me para a frente e eu senti que na minha frente, tinha uma porta de um carro aberta e comecei a gritar; foi aí que ele me tapou a boca! a minha ideia,foi meu Deus! e ferrei-lhe uma dentada na mão; ele largou-me! eu fugi, mas desatou a correr atrás de mim, para me apanhar novamente,ouvi um eléctrico e corri pela linha,na frente do eléctrico,que me apitou!mas valia mais ficar atropelada! então o eléctrico abrandou e deixou-me seguir à frente,sempre a correr até ao sinaleiro!atravessei,fiquei junto da saída do Metro,juntei-me com outras miúdas,as mães delas e lá fui! Não chorei! mas tremia tanto!! a Prf. de trab.manuais,perguntou... - Não foi nada! Contei à minha colega e ela foi-lhe dizer!(3 dias depois a escola fechou)
  • Vera Costa
    01 dez, 2019 06:44
    Olá Henrique Raposo! Eu podia-lhe contar o que tem sido a minha vida desde criança, talvez servisse de exemplo para alguém! mas já me custa tanto lembrá-la quanto mais contá-la! por isso não vou fazê-lo! vivi sempre com muita dificuldade em termos de saúde, mas educação eu tive e agradeço a Deus pela pessoa que me deu para me ensinar tudo o que eu precisava saber, para me livrar de tudo o que podia ser mau para mim! não ter medo, mas fugir, quando sentisse que estava para me acontecer qualquer coisa de mal! Então a minha tia começou por me falar de Deus: é uma bondade infinita,mas quando se zanga não é para graças,castiga! e se ficar zangado contigo,quando precisares da Sua ajuda, Ele não quer saber de ti para nada! por isso porta-te sempre bem, para que Ele te ajude sempre até ao resto da tua vida! Às vezes trovejava fortemente e ela dizia-me: Deus,está zangado,alguém fez alguma,que Ele não gostou! por isso o melhor é ficares muito quieta para Ele ver que tu és uma menina boazinha! e eu escondia-me atrás da porta da sala e espreitava pela greta da porta para ver se Deus ainda estava zangado,não fosse eu ter feito alguma,como puxar as orelhas ao cão! Cresci e a voz dela,nunca saiu dos meus ouvidos,em dias de trovoada: Deus está Zangado!Depois tive uma professora de Religião e Moral que me falava de outras coisas e o castigo de Deus!Um dia a caminho da escola vi o perigo:ia sendo raptada com 14 anos.Olhos e boca tapada: meu DEUS! Uma dentada na mão,largou-me,consegui fugir...
  • Desabafo Assim
    30 nov, 2019 15:26
    Não me melindro com comentários sobre a origem da definição.
  • Desabafo Assim
    30 nov, 2019 11:01
    Saduceus- Núcleo duro, da sociedade Judeia que tinha como função acolher o Messias, com poder legislativo e provável (tudo indica) criador da ordem dos Essénios. Essa dita realidade física (que nos é apresentada onde a humanidade chora e se revolta com o destino tal como os filhos castigam os pais, “não pedi para nascer” escrevendo nos jornais e dizendo na televisão,” Veem como Deus não existe”, uma solidariedade consoladora, no lado de cá da barricada, tentando por tudo vincar a crença da barbárie, de terra sem Deus, no cada um por si) está mudando a olhos vistos, a pieguice vai dando lugar ao verdadeiro homem, aquele que consegue conciliar racionalmente essas duas realidades, prova disso é o tratamento dado ao terrorismo pelos canais informativos, (quem faz parte da solução que intervenha) não à utilização destes casos anormais para encher (até à exaustão, no seu devido lugar) espaços destinados à informação, sem generalizações com o intuito de propagandear um mundo sem Deus que é absolutamente falso, doentio, medíocre pois estamos aqui e agora a ler porque acordamos, porque nos foi dado mais um dia, isto é o mais elementar.