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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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O luto das crianças

22 nov, 2019 • Opinião de Henrique Raposo


A criança que não vai ao velório do avô será o jovem que não fará companhia à avó e será o adulto que aceitará com facilidade a eutanásia de alguém.

É porventura uma das perguntas mais desafiantes para um pai: como educar os nossos filhos em relação à morte? Ou seja, como é que as crianças devem fazer o luto? A minha resposta começa por dizer precisamente isso: as crianças devem fazer o luto. A morte de um familiar, um avô, uma tia, um primo, não pode ser escondida da criança.

Manter a criança na ignorância, ocultando o sucedido ou dizendo que o "tio foi para longe", é uma forma de hiper-protecção cada vez mais comum, parece-me. E também me parece que é uma forma de desprotecção. Estamos a desproteger os nossos filhos quando não os confrontamos com a morte, quando não lhes dizemos que o avô morreu, quando não os levamos ao velório da avó. Não estamos a educá-los. Há pais que mergulham os filhos nesta anestesia moral, alegando que o contacto com o ambiente fúnebre de um velório é traumático. Trauma? Não será o verdadeiro trauma aquela moda hiper-competitiva que impõe altas metas escolares a crianças com sete ou oito anos? Não me consigo reconciliar com esta contradição cada vez mais evidente: obrigamos as crianças a serem adultas no conhecimento escolar (testes, rankings), mas mantemo-las numa bolha Peter Pan sem acesso ao conhecimento moral da vidinha (a morte e a doença de familiares). Faz sentido? A infantilização da sociedade começa aqui. Os jovens adultos chegam à faculdade e/ou mercado de trabalho sem maturidade intelectual e moral. Não sabem lidar com a contrariedade, com opiniões contrárias e com a dor.

Este confronto com o luto deve ser feito o mais cedo possível. Se começamos a adiar o contacto dos nossos filhos com a morte, essa procrastinação moral nunca terá fim. Se achamos que aos cinco anos ainda é cedo, vamos pensar o mesmo aos oito, e aos dez, e aos quinze e, nesta lógica de permanente anestesia, eles chegam aos dezoito ou vinte sem nunca terem entrado num velório: serão adultos no BI mas crianças na mente.

O luto não é um trauma, é uma travessia.

Esta hiper-protecção das crianças em relação à morte é o resultado de uma sociedade que não sabe lidar com a dor, física e mental. Esta é a sociedade que leva a criança à urgência só por causa de joelhos esfolados, porque a dor física das brincadeira desapareceu. Não há rua. As crianças não brincam na rua. A dor física tornou-se num acontecimento. E repare-se como até os momentos de tensão e dor foram retirados dos desenhados animados, quer nos livros quer na televisão. Quando procuro livros para crianças, procuro algo parecido com os velhos contos infantis, que, recorde-se, eram duros. As velhas fábulas eram lições sobre o lado negro da vida. Até os desenhos animados do meu tempo eram fábulas pesadas sobre a condição humana, algo que entretanto desapareceu. Os desenhos animados de hoje são meros jogos ou aulas, isto é, através dos desenhos animados procura-se ensinar, por exemplo, inglês ou matemática. Eis de novo o padrão desta sociedade técnica e amoral: os próprios desenhos animados ensinam coisas úteis para a carreira profissional, não contam histórias para o crescimento moral. Para encontrar algo sólido, é preciso recorrer aos bons filmes da Pixar, sobretudo os de Pete Docter, “Up”, “Inside Out”, “Wall-E”, “Monster Inc”. Diz-se muitas vezes que estes são filmes de animação para crescidos. Discordo: são filmes para crianças como as velhas fábulas, isto é, não tratam as crianças como criaturas frágeis e incapazes de lidar com o sofrimento.

A hiper-protecção das crianças em relação ao luto também resulta de uma sociedade que não sabe lidar com os idosos e com a proximidade da morte. Como tenho dito aqui diversas vezes, esta sociedade vive como se os velhos não existissem. A sociedade do "lifestyle" e da permanente escapadinha turística não pode ter espaço para os idosos. Se estamos na roda-vida dos ginásios, dos restaurantes, dos concertos, das viagens, então é óbvio que não temos tempo e predisposição para fazermos companhia aos nossos velhos (nem para ter filhos). Portanto, não é por acaso que a sociedade que esconde o luto das crianças é a mesma sociedade que quer apressar a morte de idosos através da eutanásia. Porque as pessoas pedem a morte não por causa da dor, mas por causa da solidão. A criança que não vai ao velório do avô será o jovem que não fará companhia à avó e será o adulto que aceitará com facilidade a eutanásia de alguém.

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  • Susana Pereira
    26 nov, 2019 14:24
    Concordo com a ideia de que o luto faz parte da vida e que é uma passagem que deve ser aceite a abraçada pelos que ficam, de forma saudável, por adultos e por crianças com o apoio dos adultos. Talvez mais do que uma questão moral pode estar em causa uma falha pedagógica do ponto de vista emocional onde seria salutar a crianças ter uma resposta acima de tudo honesta, adequada à sua idade, face ao desaparecimento de um ente que lhe era querido. Quando li o título “Luto das crianças” esperei encontrar aqui uma abordagem ao assunto que não fosse apenas dedicada ao desaparecimento dos avós. Compreendo que sejamos levados a pensar que o desaparecimento dos avós é um aspecto mais recorrente do que o desaparecimento de outras figuras próximas à criança, no entanto (e se de facto a preocupação central for o luto das crianças) não devemos desconsiderar o desaparecimento de um pai, de uma mãe, de tios ou de outras figuras próximas e importantes para a criança. Sendo esta uma realidade que também acontece, infelizmente. O que não entendi de todo é qual a relação entre a criança não fazer o luto (hiperprotegendo-a nesse sentido, o que tb não me parece que seja genericamente a melhor forma de lidar com a situação), e a eutanásia, já que encaro a eutanásia como um duro ato de amor e respeito pela dignidade e sofrimento alheio, vendo como imoral precisamente o contrário. São opiniões. Qual a melhor? Talvez seja respeitar a opinião alheia e não interferir na liberdade do outro...
  • Vera Costa
    23 nov, 2019 05:38
    "A hiper-protecção das crianças em relação ao luto também resulta de uma sociedade que não sabe lidar com os idosos e com a proximidade da morte. Como tenho dito aqui diversas vezes, esta sociedade vive como se nos velhos não existissem. A sociedade do "lifestyle" e da permanente escapadinha turística não pode ter espaço para os idosos. Se estamos na roda-vida dos ginásios, dos restaurantes, dos concertos, das viagens, então é óbvio que não temos tempo e predisposição para fazermos companhia aos nossos velhos (nem para ter filhos). Portanto, não é por acaso que a sociedade que esconde o luto das crianças é a mesma sociedade que quer apressar a morte de idosos através da eutanásia. Porque as pessoas pedem a morte* não por causa da dor, mas por causa da solidão. A criança que não vai ao velório do avô será o jovem que não fará companhia à avó e será o adulto que aceitará com facilidade a eutanásia de alguém." É isso Sr. Henrique Raposo! (coloquei um asterisco) para aqueles que vão ler o meu comentário, que lêem à pressa como é costume, que cheguem ali e abrandem um bocadinho... Não lhe alterei o que escreveu, foi só um sinal de trânsito, para: 'ler com atenção' . Achei graça ao 'Lifestyle'! se ligarem tanto a este caso, como o pedido de NÃO da mudança da hora! e ficámos todos às escuras às 5 horas da tarde! mas enfim, vamos tentando...