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Pacífico, mas com "tolerância zero". Foi assim um dos maiores protestos de polícias de sempre

22 nov, 2019 - 01:24 • Ricardo Vieira, João Pedro Barros, Joana Viana, Celso Paiva Sol, Sofia Moreira, com Lusa

Cerca de 13 mil elementos das forças de segurança manifestaram-se esta quinta-feira, em Lisboa, para exigir melhores condições de trabalho e salariais.

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Fartos de promessas, exigem “respeito”. Prometem "tolerância zero” e ameaçam voltar à rua. Milhares de agentes da PSP e militares da GNR manifestaram-se esta quinta-feira, em Lisboa, a reivindicar melhores condições salariais e laborais, num dos maiores protestos de sempre das forças de segurança já vistos em Portugal.

A indignação é grande, mas o protesto foi pacífico. Como medida de precaução, o Parlamento estava protegido por um forte contingente policial, barreiras de metal e blocos de betão. Nas traseiras da Assembleia e na calçada da Estrela, era visível o mesmo tipo de barreiras de cimento, nos acessos à residência do primeiro-ministro.

Não houve invasão da escadaria do Parlamento, como há exatamente seis anos, muito menos “secos e molhados”, como em 1989, quando uma manifestação da PSP acabou com uma carga policial e canhões de água, num frente a frente entre agentes em protesto e agentes em serviço.

A manifestação desta quinta-feira, entre o Marquês de Pombal e a Assembleia da República, juntou cerca de 13 mil pessoas, de acordo com os dados avançados pela organização ao final da tarde.

As associações de profissionais da PSP e da GNR prometem voltar. Anunciaram para 21 de janeiro um novo protesto, caso o Governo não atenda às suas reivindicações. O anúncio foi feito por megafone, em frente à Assembleia da República.

"Chamem a polícia". Descontentamento das forças de segurança saiu à rua
"Chamem a polícia". Descontentamento das forças de segurança saiu à rua

O dia de descontentamento ficou marcado por vários atos simbólicos. Os PSP e GNR (à civil) cantaram o hino nacional de costas voltadas para a “Casa da Democracia”, houve um minuto de silêncio em homenagem a um militar da Guarda que morreu em serviço durante o último fim de semana e aplausos para a Polícia de Intervenção que estava nas escadarias do Parlamento.

Alguns deputados fizeram questão de manifestar solidariedade com os manifestantes, mas o mais saudado e único a discursar foi André Ventura. Por volta das 17h00, o deputado do partido de extrema-direita juntou se ao protesto. Envergando uma t-shirt do "Movimento Zero", com a qual já tinha assistido ao plenário da Assembleia da República, Ventura desceu à manifestação, discursou no sistema de som da organização e circulou entre os manifestantes sob fortes aplausos e gritos de "Ventura, Ventura".

Em declarações aos jornalistas, o presidente da Associação dos Profissionais da Guarda (APG/GNR), lamentou que o discurso tenha acontecido. César Nogueira fala mesmo em “aproveitamento político". “Não entendemos como é que o deputado utilizou uma manifestação apartidária, que é dos polícias, para usar da palavra”, afirmou o dirigente da APG/GNR.

Paulo Rodrigues, da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP), também se demarcou do episódio.

O deputado do CDS-PP Telmo Correia e a líder parlamentar do PAN, Inês Corte-Real, desceram igualmente para junto dos elementos das forças de segurança, em frente à Assembleia da República, manifestando compreensão quanto às suas reivindicações.

Deputados do BE, PCP e Iniciativa Liberal solidarizaram-se, por sua vez, com os profissionais das forças de segurança, mas logo no início do desfile no Marquês de Pombal.

Apesar de nenhum deputado do PSD ter visitado os manifestantes, o vice-presidente da bancada social-democrata Carlos Peixoto disse entender o protesto e as suas reivindicações, acusando o Governo de "brutal desinvestimento", e manifestou disponibilidade para receber no parlamento qualquer associação ou sindicato que o solicite.

Por fim, a líder parlamentar do PS, Ana Catarina Mendes, afirmou que as reivindicações das associações representativas das forças de segurança estão a ser analisadas pelo Governo e disse que nos últimos quatro anos houve mais investimento e foram descongeladas carreiras.

A manifestação desta quinta-feira foi convocada pela ASPP/PSP e APG/GNR - as mais representantivas das forças de segurança -, mas o Movimento Zero, grupo de elementos das forças de segurança que nasceu nas redes sociais, acabou por dominar. No protesto destacaram-se as camisolas brancas – vendidas a um euro - e pulseiras alusivas ao movimento inorgânico. Já tinham dados nas vistas em julho deste ano, quando viraram as costas ao discurso do diretor nacional da PSP e retiram-se durante a intervenção do ministro Eduardo Cabrita no 152.º aniversário da Polícia de Segurança Pública.

Um dos manifestantes desta quinta-feira disse à Renascença que, quanto às polémicas em torno do Movimento Zero, "também interessa ao Governo que se fale dele de forma negativa, a dizer que não tem cara. É uma forma de não querer negociar". "Estamos tranquilos, porque o Movimento Zero não tem extremistasm extremistas nem nada que se pareça", acredita o agente.

O desfile, que partiu do Marquês de Pombal, foi encabeçado por uma tarja branca com uma das palavras de ordem a negro: "Exigimos respeito".

Entre as camisolas brancas e muitas bandeiras de Portugal, os manifestantes virarem costas à sede do PS, durante a passagem pelo Largo do Rato. Ao longo da caminhada gritaram "Corruptos, corruptos", "Polícia unida jamais será vencida!" e "Cabrita, escuta, a polícia está na luta", num recado ao ministro da Administração.

Na praça em frente ao Parlamento, entre hino nacional entoado a plenos pulmões, palavras de ordem e discursos, dos altifalantes saiu hino pop-rock "Chamem a polícia", da banda Trabalhadores do Comércio.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, também se referiu à manifestação, afirmando que espera que sejam encontradas respostas para o estatuto das forças de segurança, assim como o das Forças Armadas, com diálogo entre o Governo e a associações representativas desses profissionais.

O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, deu uma conferência de imprensa, ao início da noite, a enaltecer uma manifestação que, na sua leitura, foi “a afirmação de maturidade democrática e sindicalismo responsável que constitui a manifestação de hoje”.

O governante afirmou que, apesar do “investimento como nunca houve" nas forças de segurança (450 milhões de euros entre 2018 e 2021), “é preciso fazer mais” e prometeu continuar a via do diálogo com sindicatos da PSP e associações da GNR.

Depois de terminada a manifestação, o Movimento Zero marcou para a praça do Comércio um "ato solene" a propósito dos confrontos entre forças de segurança naquele local, há 30 anos, quando elementos da PSP exigiam a constituição de sindicatos e foram repelidos pelos colegas do corpo de intervenção, num incidente que ficou conhecido como "secos e molhados".

No local, onde se situa o Ministério da Justiça e da Administração Interna, voltaram a cantar o hino nacional e deixaram velas no chão, marcando, pouco depois das 18h00, o fim do dia de protesto dos elementos das forças de segurança.

Entre as reivindicações que motivaram o protesto, estão os aumentos salariais, a atualização dos suplementos remuneratórios, que "há mais de 10 anos que não são revistos", o pagamento de um subsídio de risco e mais e melhor equipamento de proteção pessoal.

Os polícias exigem também uma fiscalização das condições de higiene, saúde e segurança no trabalho e que seja cumprido o estatuto na parte referente à pré-aposentação aos 55 anos.

O Governo reatou na sexta-feira as negociações com os sindicatos da PSP e, na segunda, com a APG/GNR, mas as associações profissionais da PSP e da Guarda decidiram manter a manifestação e que decorreu sob o lema "tolerância zero".

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