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Parte II

Derrocada em Borba, um ano depois. A vida continua, mas não apaga as memórias

18 nov, 2019 - 10:57 • Rosário Silva

Um ano depois da tragédia numa pedreira do município, os locais de maior perigo foram sinalizados mas nada mais foi feito. A antiga Nacional 255 continua cortada ao trânsito. A população quer a sua reconstrução, mas é preciso, primeiro, apurar responsabilidades.

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Uma tarde como as outras. Nuno saiu de Borba para ir trabalhar numa grande superfície comercial, em Vila Viçosa. O caminho era o de sempre: a antiga estrada nacional 255. Entrava às quatro da tarde.

“Fazia aquele caminho diariamente, lembro-me que não tinha carros nem à frente, nem atrás de mim”, conta, sem gravar, à Renascença. Pede-nos que não o identifiquemos, mas dá o seu testemunho.

“Chego a cerca de seis, sete metros do precipício, travei a fundo, e quando olho em frente, vejo uma carrinha, que segue em sentido contrário, cair lá para baixo. Penso que ainda travou, mas a roda esquerda encalhou numa pequena saliência e capotou”, recorda.

“Por instinto e um bocado em pânico”, saiu do carro e aproximou-se da cratera. “Vi uma grande projeção de água e ouvi pequenas explosões lá em baixo, até que um senhor saiu de uma pedreira, atrás de mim e fez-me sinal para sair dali, pois o terreno podia ceder e eu não tinha consciência disso”, lembra o jovem com pouco mais de 30 anos.

Por esta altura, chegavam ao local outras viaturas e eram alertadas as autoridades. Nuno fez inversão de marcha e foi trabalhar, ainda anestesiado pelo que acabara de presenciar.

“Todos os dias passava ali e isto foi muito estranho. Aquela é uma reta apetecível, talvez a mais apetecível do caminho”, por isso, “ia a 90 ou 100”, confessa, ao mesmo tempo que sabe ter tido “muita sorte”, pois bastariam “dois ou três segundos e uma qualquer distração” para lhe acontecer o mesmo que os ocupantes do veículo que viu cair.

Quando chegou ao trabalho, contou aos colegas e, juntos, procuraram, já do outro lado da estrada, encontrar indícios da presença das autoridades. Só mais tarde, Nuno viria a saber que um dos ocupantes da viatura acidentada, era um colega de trabalho que seguia na estrada com um cunhado, e com quem tinha estado a jantar dias antes, na Festa da Vinha e do Vinho.

“Por vezes lembro-me, que mais não seja pelo meu colega que era uma pessoa querida, mas acho que já ultrapassei, já exteriorizei o que tinha de exteriorizar e agora estou em paz”, revela-nos.

Para chegar a esta serenidade, o jovem percorreu o seu próprio caminho interior. “Nunca tinha presenciado a morte à minha frente, nem nenhum acidente. Só via mármore à minha frente, era um cenário bastante bizarro e não conseguia compreender. Foi mau”, desabafa.

Nuno já não trabalha no mesmo local. Hoje está, como que uma ironia, a laborar numa empresa de extração e transformação de mármores. “Há pessoas que me questionam sobre isso, a ironia de vir para aqui, mas encaro com naturalidade, pois também estou um pouco afastado da pedreira”, admite.

“Não penso muito nisso, tenho feito o meu dia a dia normal”, embora reconheça que o acidente, de contornos distintos numa pedreira de Vila Viçosa no dia 9 de novembro, “avivou más memórias”.

Um ano depois do trágico acidente, apesar de algumas lembranças, Nuno garante à Renascença que já fez “a transição, o luto”, estando agora, “em paz.

“Nunca sabemos o que vamos encontrar”

Pedro lapão, bombeiro há 17 anos, saiu com uma das duas ambulâncias enviadas para fazer o reconhecimento da situação, reportada no alerta recebido a 19 de novembro do ano passado.

Recorda que só parou o veículo pelo facto de ter um carro “a trancar a estrada” e só quando saiu da ambulância percebeu que parte da via tinha desaparecido.

“Ninguém está preparado para o que aconteceu. Eu ia a pensar numa coisa e saiu-me outra”, relata à nossa reportagem.

Com 31 anos, o bombeiro percebeu de imediato que “era uma tragédia de grande dimensão”, por isso, nessa noite e nos dias que se seguiram, foi um dos muitos operacionais que quis colaborar numa operação de resgate de grande complexidade. “Para mim foi a mais complexa de todas as que já tive, foi a mais trabalhosa”, diz.

Um ano depois, recorda o acontecimento, destacando a “cooperação” que caracterizou toda a operação, cujo objetivo era resgatar os corpos das cinco vitimas mortais e devolvê-los, com toda a brevidade possível, às famílias para “poderem fazer o seu luto.”

O seu colega Tiago Guelas, mais novo, também recorda o momento em que chegou ao local. “Saímos da ambulância para ver o que se passava e não havia estrada. Dava para ver o outro lado da estrada e a ribanceira, tudo cheio de terra, dava para ver a máquina e o senhor que estava lá dentro. Depois o nosso comandante chegou e assumiu o comando.”

Pare este bombeiro de 24 anos, apesar das terríveis circunstâncias, toda a operação desencadeada acabou por ser uma imensa aprendizagem. “Foi uma coisa diferente. Apesar de ser uma situação má, aprendemos muito”, destacando, a titulo de exemplo, “a Força Especial de Bombeiros, as equipas de mergulho, as equipas cinotécnicas da GNR e os drones”.

Passado todo este tempo, Tiago Guelas ainda pensa na ocorrência. “É sempre difícil, é uma coisa que pensamos, poderia ter-nos acontecido a nós, mas a vida continua e vamos fazendo o nosso melhor para ajudar os outros”, adiciona.

“Foi um choque”, mas a vida continua em Borba

Há um ano, Francisco Zingalho não se lembra do que estava a fazer, mas recorda-se que “ficou chocado” quando soube da ocorrência.

“Senti-me em choque, pois passei muitas vezes na estrada, na minha lambreta, quando ia a Vila Viçosa ao mercado ou visitar pessoas amigas.

Aos 83 anos, e a residir no concelho de Borba, refere que o acontecimento, “às vezes”, ainda volta à baila, sobretudo, quando se junta com os amigos, “nos copos e falamos sobre isso, desgraçados dos que lá ficaram.”

Francisco já não circula na sua “lambreta”, mas isso não o impede de defender a reconstrução da estrada. “Para mim fazia sentido, pois era a estrada melhor para não ir dar uma volta maior, esta é mais a direito, e acho que se fosse arranjada era uma grande coisa para a nossa vida.”

A opinião é partilhada por Cândida Gonçalo. “Temos que usar a variante, que remédio, não há outra, mas gostava que a estrada fosse reabilitada, pois até íamos a pé à Nossa Senhora.”

Cândida refere-se ao Santuário de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa. A estrada que colapsou era também utilizada por muitos peregrinos para se deslocarem, a pé, ao Santuário da Padroeira de Portugal.

Sobre a tragédia, esta residente no concelho, hoje com 77 anos, lembra que “ficou triste” e chocada. “Não esperava que isso acontecesse. Quando vi na televisão fiquei chocada.”

À sua memória regressaram amargas recordações. O seu marido, trabalhador nas pedreiras, foi lá que faleceu. “Há 24 anos morreu, ficou lá debaixo de uma pedra”, conta-nos, Cândida Gonçalo.

“Sentimo-nos um pouco como os maus da fita”

Fica a escassos metros do local onde a via está interrompida devido à derrocada. A sexagenária Marmetal é uma de duas empresas dirigida por Luís Sottomayor, dedicada à extração e comercialização de rochas ornamentais. Um ano depois da tragédia, luta-se pela sustentabilidade económica ao mesmo tempo que se procura cumprir todos os requisitos exigidos, depois de uma apertada fiscalização às empresas do sector, nos últimos meses, por parte de várias entidades.

“Estamos a trabalhar normalmente, dentro do possível, cumprindo com os estudos que nos solicitaram, nomeadamente em termos de sinalética, proteção, taludes, entre outros aspetos”, refere à Renascença, o empresário, lamentando, contudo, a maneira como foram impostas algumas medidas, nomeadamente “os curtos prazos estabelecidos, tendo em conta o que nos foi pedido para fazer.”

Há um ano, Luís Sottomayor estava no escritório quando ouviu um estrondo. Quatro anos antes, tinha sido um dos empresários a lançar o alerta para os perigos da estrada, por isso não foi com surpresa que assistiu à tragédia. Não estabelece uma relação direta entre o sucedido e o momento menos bom que o sector está a atravessar, mas reconhece que não foi um ano fácil. No conjunto das duas empresas que administra, uma dezena de funcionários reformou-se ao abrigo da nova legislação que atribui aos trabalhadores das pedreiras, um regime de aposentação semelhante ao dos mineiros.

“É difícil arranjar mão-de-obra e com a nova legislação, ainda pior, as pessoas estão a reformar-se e isso trouxe impacto à situação do sector, pois se já havia dificuldades, agora ainda é pior”, adianta.

Por outro lado, o acidente não deixou uma boa imagem dos empresários do ramo, e Luís Sottomayor sente que “não houve ninguém que chegasse ao pé de nós e perguntasse como estamos a superar as dificuldades depois de termos ficado sem a estrada”.

“Percebo a preocupação com as famílias”, ressalva, mas “há que ver também o lado de quem dá emprego às pessoas. Não queríamos nada de especial, mas pelo menos que viessem perguntar quais são as dificuldades que temos”, acrescenta do administrador da Marmetal.

“Sentimo-nos um pouco como os maus da fita”, remata o empresário.

Em Borba, a vida continua

A 19 de novembro de 2018, a estrada municipal (EM) 255, que liga Borba a Vila Viçosa, abateu. Um troço de cerca de 100 metros colapsou, causando a morte de dois operários de uma empresa de extração de mármore que usavam uma retroescavadora numa pedreira em atividade, e arrastou outros três indivíduos, ocupantes de duas viaturas que, na altura, passavam no local, tendo caído para o plano de água de uma outra pedreira, esta desativada.

Um ano depois, os locais de maior perigo foram sinalizados com semáforos, vedações e outros sinais de alerta, mas nada mais foi feito, pelo menos que seja visível. A antiga nacional 255 continua cortada ao trânsito com acesso permitido apenas a fábricas e pedreiras em funcionamento. Já se pensa na sua reconstrução, mas é preciso, primeiro, apurar responsabilidades.

De acordo com o Ministério Público (MP) foram constituídos nove arguidos, um deles uma pessoa coletiva. À margem do processo judicial, 19 familiares e herdeiros das vítimas mortais da derrocada receberam do Estado, sete meses depois do acidente, indemnizações no valor global de 1.626.706 euros.

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