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Requalificação da antiga EN 255? A resposta pode estar num livro que recorda aquela que já foi “estrada real”

13 nov, 2019 - 19:00 • Rosário Silva

Pedreiras de um e de outro lado e, no meio, uma estreita linha de empedrado. A 19 de novembro de 2018, cinco pessoas perderam a vida numa pedreira, quando desabou uma parte da antiga nacional 255. Na região, pede-se que a reabilitação da estrada e as razões estão, agora, num livro.

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Foi despromovida a estrada municipal, mas, na verdade, nunca deixou de ser a principal para grande parte das populações dos concelhos de Borba e Vila Viçosa. São quase seis quilómetros que encurtavam distâncias, evitando a estrada nacional. Um caminho com história e com uma paisagem única que desperta a curiosidade de muitos.

Pedreiras de um e de outro lado e, no meio, uma estreita linha de empedrado, a fazer lembrar uma terra que foi berço de gente ilustre. No corre-corre dos dias, quem por ali passava tinha uma profissão, uma motivação ou uma necessidade. De docentes a alunos, de empresários a trabalhadores, de peregrinos a turistas, todos por lá passavam, tranquilamente, até ao trágico acidente que deixou de luto dois dos concelhos do chamado "triangulo dos mármores". A 19 de novembro de 2018, cinco pessoas perderam a vida numa pedreira, quando desabou uma parte da antiga nacional 255.

“A Estrada Real - memórias do caminho entre Borba e Vila Viçosa” é o titulo de um livro que dá a conhecer factos significativos sobre a utilização deste caminho durante séculos, antes do desenvolvimento industrial das primeiras décadas do séc. XX que viria a mudar profundamente a paisagem.

Doze meses após o trágico acidente, a Renascença procurou saber se o livro - já à venda - pode constituir-se como instrumento relevante para a requalificação da estrada, remetendo para o aproveitamento turístico e, sobretudo, preservando uma memória afetiva que permanece no espaço e no tempo.

Tiago Passão Salgueiro é o autor. Trabalha em Vila Viçosa, onde é curador assistente da Fundação Casa de Bragança. Editou esta obra em conjunto com os municípios de Borba e Vila Viçosa.

O que o levou a desenvolver este projeto?

Este projeto começou logo na sequência do trágico e infeliz desabamento da estrada, em novembro de 2018. Na altura, técnicos e especialistas fizeram um conjunto de comentários que davam conta de que a estrada era apenas uma via de serviço para as pedreiras e unidades de transformação. Não sendo bem assim, a minha preocupação foi tentar revelar a componente histórica que está associada a esta estrada. A partir daí, comecei as minhas pesquisas, recolhi alguma informação manuscrita sobre aquele caminho que, pelo menos, desde o período romano já tinha alguma funcionalidade, tendo em conta a extração do mármore.

Sendo uma estrada que une Borba e Vila Viçosa também em termos afetivos, a sua investigação trouxe-lhe algumas surpresas?

Sim, até porque, como diz, há essa carga afetiva associada a esta estrada, sobretudo, para os borbenses e calipolenses. A partir daí, foi relativamente fácil identificar determinados momentos que foram importantes para a historia desta região.

Por exemplo?...

Olhe, falo, por exemplo, das guerras da Restauração, da batalha de Montes Claros, em que esta estrada teve um papel vital, ou quando, durante as invasões francesas, aconteceu precisamente a mesma coisa. Não podemos esquecer que este era o principal acesso ao Paço Ducal de Vila Viçosa, a partir do séc. XVI. Antes disso, tínhamos o Mosteiro dos Agostinhos, mesmo em frente ao Paço que era, também, um pólo importante do ponto de vista religioso e cultural.

Todos esses episódios estão narrados e descritos por alguns cronistas da região. Foi curioso, também, encontrar relatos de receções feitas por ambos os municípios a entidades ou comitivas que aqui se deslocaram ao longo dos tempos. Nós compilamos e tratamos toda essa informação, procurando fazer o cruzamento e lançando alguns desafios relativamente ao futuro. O que é que irá acontecer? Será que a estrada vai ser reabilitada? Faz sentido? Não faz sentido? Creio que a componente histórica da estrada real é fundamental para, também, percebermos a importância que esta via teve ao longo dos séculos.

Quais são os registos mais antigos que encontrou na sua investigação?

Seguramente que a partir do período romano conseguimos encontrar alguma informação, ainda que não oficial, sobre a importância desta via, na ligação entre Lisboa e a Emérita Augusta, a antiga capital da Lusitânia Romana. Tendo em conta a importância do mármore desta região, logo a partir desse período, é fácil constatar que esta via de ligação a Borba e, depois, ao eixo Lisboa/Elvas, era absolutamente fundamental. Só para termos uma noção, 80% do mármore que era utilizado nas construções romanas de Mérida era proveniente deste contexto. Ora, isto faz-nos logo perceber a importância desta estrada também do ponto de vista socioeconómico.

Depois, no reinado de D. Dinis, há testemunhos de que o monarca aqui se desloca para ser recebido no Mosteiro dos Agostinhos. Já no século XVI, temos também uma visita importante, que é a visita dos embaixadores japoneses que aqui passaram em 1584 e que falam nos campos vinhateiros de Borba. Já nessa altura, era designada por "estrada real" por ter uma grande importância e fazia parte de uma rede, de um sistema viário que existia em Portugal a partir desse período.

As descrições são bastante marcantes porque, enfim, desde o período medieval até ao séc. XVI, mas também nos séculos XVII e XVIII, há uma referência à estrada como sendo uma estrada essencial, mas com uma envolvente completamente diferente daquela que conhecemos hoje.

Ou seja?...

Ou seja, era caracterizada, sobretudo, pelo olival e pela vinha. As descrições falam muito nisso e é relevante perceber como o enquadramento paisagístico se foi alterando a partir da grande industrialização do sector dos mármores, que se verifica só no séc. XX, por volta dos anos 40/50. É a partir daí que esta paisagem se transforma completamente e passa a ter a configuração atual, que quase nos remete para uma paisagem lunar, diria eu, muito diferente da restante paisagem que temos no Alentejo, em termos do montado e da própria charneca.

Foi a partir de todos esses pressupostos e dessa necessidade de investigação e esclarecimento que avançamos para este projeto que dá conta de vários episódios históricos. Permita que recorde, também, a visita da rainha D. Maria II, que, no séc. XIX, levou a que fosse efetuada a manutenção da estrada por ambos os municípios, para receber a monarca. Havia sempre essa preocupação de reparação e manutenção da estrada. Há, inclusivamente, comunicação escrita, oficial, entre os dois municípios no sentido de se proceder ao repavimento, ao calcetamento da via.

No local, ainda há vestígios desses tempos?

Olhe, existia um marco que fazia a separação entre os dois concelhos, num olival que se chama precisamente "Olival do Marco", mas que, infelizmente, já não tem nenhuma marca visível. Era, no entanto, o ponto, digamos assim, de partida e chegada das comitivas quando se deslocavam por este território. Já não temos nenhum testemunho a esse nível. Fica uma memória que é partilhada por todos os calipolenses e borbenses que têm essa historia em comum e que deve ser valorizada. O passado, muitas vezes, traz-nos lições em relação ao futuro. Houve este desabamento que foi trágico, com as consequências que todos conhecemos, mas penso que, corroborando algumas opiniões de alguns investigadores, que a melhor homenagem que se pode fazer a quem partiu, é, efetivamente, reabilitar a estrada e dar-lhe utilidade.

Parece-lhe, então, que essa possibilidade é viável?

Do ponto de vista técnico, não lhe sei responder. Agora, penso que o que falta fazer é uma avaliação do impacto económico desta situação para estes dois concelhos. Não sei até que ponto o número de visitantes a Vila Viçosa ficou afetado com esta situação. Temos, efetivamente, a variante, que é um percurso mais longo e não tão especial como esta estrada antiga, pois não existe a envolvente das pedreiras. Não sabemos se a estrada vai voltar a ser segura ou não, mas penso que, do ponto de vista técnico, isso pode ser feito.

Depois houve um desafio lançado pelos políticos no sentido de avaliar pelo menos essa possibilidade. Eu cheguei a percorrer esta estrada quatro vezes por dia, juntamente com outros colegas que trabalham no Paço Ducal e são provenientes de Borba. A via servia também para circuitos turísticos que traziam visitantes a Vila Viçosa e por ali passavam para perceberem a importância das pedreiras. Portanto, havia aqui circuitos integrados que mostravam o enquadramento paisagístico e depois tinha o complemento cultural com a visita ao Paço. Também é fácil constatar pela Porta dos Nós que esta era a principal entrada ou o principal acesso a Vila Viçosa. Nós, inclusivamente, no âmbito do nosso trabalho, conseguimos descobrir alguns manuscritos do séc. XVII, onde se refere a estrada de Borba como o principal acesso a esta localidade e ao Paço dos Duques de Bragança. São todas estas questões que estão aqui em causa, e eu e penso que faz sentido proporcionar-se uma reflexão sobre a possível reabilitação da estrada, pois todos ficámos a perder com aquilo que aconteceu.

O Tiago referiu que também passava várias vezes pela antiga nacional 255. Nunca se apercebeu do risco que corriam todos os que por ali circulavam?

Não, pois, se soubéssemos, não utilizaríamos a estrada com tanta frequência. Mas, como lhe digo, para calipolenses e borbenses isto era um acesso privilegiado, até por uma questão de afetividade. Na atualidade, este percurso continuava a ser feito, independentemente da existência da variante. Havia um simbolismo associado e sempre se passou por ali para fazer compras, para ir visitar os amigos, para ir à festa da vinha e do vinho ou em sentido contrário, até porque os mais importantes monumentos de Vila Viçosa ficam no desembocar da estrada, como a Porta dos Nós, que era o acesso primitivo ao Paço Ducal, depois do Mosteiro dos Agostinhos, ou o Panteão dos duques de Bragança. Neste momento, noto alguma falta de vida, parece que se perdeu um pouco daquela vivência, daquela alma que existia antes, e isso foi tudo originado, infelizmente, por este trágico acontecimento.

Em termos de turistas, como trabalha no Paço? Notou alguma diferença em termos de afluência?

Devo dizer-lhe que não, mas, de qualquer forma, não sei até que ponto, em termos da escolha de um determinado percurso, essa questão não está a ter influência. Como lhe digo, havia aqui uma conjugação que terminou. Normalmente, as pessoas que nos visitam ficam muito impressionadas com esta paisagem, com a profundidade das pedreiras e a forma como o mármore é extraído. Realmente, penso que esses circuitos turísticos apostavam muito nessas duas vertentes, o enquadramento paisagístico, pedreiras, mármore e depois património cultural. Isso acabou por se perder um pouco. De qualquer forma, parece haver vontade para, pelo menos, se pensar no futuro e na possibilidade de reabilitação da estrada. No meu livro, deixo no fim algumas questões relativamente a essa possibilidade e acho que é um desafio para os políticos, mas também para as comunidades pois parece-me que todos temos de refletir sobre isto.

Um ano depois, o que é que fica? Que lições se tiraram, se é que se tiraram?…

Penso que, em primeiro lugar, ficou uma grande mágoa pela perda das famílias e para todas estas comunidades envolventes. Foi um acidente trágico com características específicas, que acabou por ceifar a vida a cinco pessoas. Se há que tirar lições, então que seja colocar-nos todos a pensar no futuro e perguntarmo-nos sobre o que pode ser feito. Na minha opinião, esta reflexão implica que haja, também, uma base histórica para perceber a importância da estrada. Foi isso que tentamos fazer com o nosso trabalho. A estrada real que unia as duas localidades, é uma estrada que tem antecedentes que se perdem, quase, no tempo, e isso pode ser uma justificação para se pensar no futuro.

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Tiago Salgueiro nasceu em Évora em 1975. É licenciado em Antropologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e Mestre em Museologia pela Universidade de Évora. Foi Bolseiro no Bourguiba Institute of Modern Languages na Universidade de Tunis e na Facultad de Filosofia y Letras da Universidad de Cádiz. É, ainda, diplomado em Gestión del Patrimonio pelo ILAM – Instituto Latinoamericano de Museus e autor de várias publicações. Atualmente, trabalha em Vila Viçosa, onde é Curador Assistente da Fundação Casa de Bragança.

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