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​De palhaço a toxicodependente sem-abrigo. Jorge Cardinali saiu do abismo e agora ajuda outros

13 nov, 2019 - 11:38 • Teresa Paula Costa

A morte da mulher levou Jorge Cardinali à heroína e à rua. Mãos amigas ajudaram-no a reerguer-se e hoje ajuda à recuperação de outros marginalizados de Leiria.

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Nasceu no circo e era a animar os outros que Jorge Cardinali, o palhaço, passava os dias quando a mulher morreu. A dor da perda levou-o a procurar refúgio na heroína. Daí para as ruas, o caminho foi curto.

Graças à solidariedade, Jorge conseguiu reerguer-se e hoje é “mediador de pares” na Inpulsar, fazendo o elo de ligação entre a associação e os sem abrigo e toxicodependentes da cidade, mostrando-lhes como também eles podem conseguir.

À Renascença, Jorge Cardinali conta que a morte da mulher mudou tudo. "Fui-me desmazelando, deixando de fazer espetáculos, o dinheiro que tinha no banco foi desaparecendo”.

"Andei vários meses a dormir num carro, com os meus dois filhos. Depois, consegui colocá-los num colégio que havia em Leiria e, quando vou a dar por ela, estou mesmo na rua, a sério e a arrumar carros”.

Assim esteve durante 12 anos. Pelo meio, dormiu também “em casas velhas”, onde, ao fim de "um mês ou de 15 dias, logo vinha a polícia avisar-nos que ia fechar a casa e lá tínhamos que arranjar outra.”

Até que a ajuda começou a chegar. Em determinada altura, “um colega meu, que também era consumidor e estava num quarto, disse-me: ‘está lá um quarto vago, vou falar com a senhora'". Um amigo emprestou-lhe dinheiro para um mês de renda. Jorge pagou à proprietária do quarto, que só acedeu por ele lhe poder pagar antecipadamente.

No segundo mês, o mesmo amigo voltou a emprestar-lhe dinheiro para o quarto, mas foi nessa altura que um gesto de Jorge fez mudar a imagem que a proprietária tinha do seu inquilino: "No corredor da pensão, encontrei uma aliança de ouro. Peguei nela e fui entregá-la à senhoria que vivia no andar de baixo."

O gesto deixou a senhoria surpreendida, pois não era o que esperava de um toxicodependente. Mas o episódio era já um sinal da mudança que se operava no interior de Jorge até que, em 2009, deu-se o “click”.

Jorge refletiu: “Estou farto de estar na rua, vou sair da rua.” Recorreu ao projeto “Porta Aberta”, que havia na cidade, e ao Centro de Respostas Integradas e, em janeiro de 2010, foi internado no Hospital Sobral Cid, em Coimbra, "para desintoxicar a heroína”.

“Até hoje, nunca mais toquei na mínima ponta de droga", diz, orgulhoso. "Tornei-me voluntário no núcleo de Leiria da Rede Nacional Anti-Pobreza e, mais tarde, quando nasceu a Inpulsar, convidaram-me para ser voluntário nas equipas de rua”. Assim continua, como “mediador de pares”.

O que faz um mediador de pares

O mediador de pares é alguém que “faz a ligação entre quem está na rua e os técnicos, alguém que, conhecendo a linguagem e o meio, consegue familiarizar-se com os sem-abrigo e, assim, facilita a aproximação dos técnicos”, explica.

Trabalhando a meio tempo na "Inpulsar", Jorge Cardinali descreve o que faz: “Faço a troca de seringas, no âmbito da redução de riscos, vou a casas velhas e espaços públicos ver se há seringas no chão e acompanho as equipas de rua duas vezes por semana durante o dia e, às vezes, também à noite.”

“Tenho uma relação muito boa com os que estão na rua, todos eles gostam de mim, todos eles gostam de uma palavra minha, porque é sempre um incentivo meu, e isso, para mim, é gratificante”, acrescenta.

Além do trabalho que desenvolve na “Inpulsar”, Jorge voltou à animação, pois a sua paixão é animar as pessoas. E diz com orgulho que “cá em Leiria, já bati recordes de girar pratos, depois de ter saído da rua.”

Jorge Cardinali faz equipa com um colega palhaço, em festas de aniversário, coletividades, cafés e bares, sendo os truques de magia a sua especialidade. Magia que conseguiu reintroduzir na sua vida, depois de uma viagem ao abismo que lhe fez perder um tempo precioso para desfrutar da vida.

Uma experiência que, embora marcante, lhe deu a força necessária para agora mostrar aos que andam pelas ruas que, há uma vida melhor à sua espera, se eles quiserem.

Em Leiria está identificada a existência de 16 sem-abrigo, mas, até ao fim do ano, apenas quatro vão ter uma casa onde morar. A meta é traçada com a ajuda do projeto “Housing first” da “InPulsar - Associação para o Desenvolvimento Comunitário".

A “Inpulsar” inspira-se numa iniciativa semelhante desenvolvida nos Estados Unidos que alcançou uma taxa de sucesso de 90-95% e, segundo o presidente da direção, Miguel Xavier, “visa tirar os sem-abrigo das ruas, dando-lhes uma casa”.

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