Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

​Sei de onde vem a mãe que deixou o bebé no lixo

08 nov, 2019 • Opinião de Henrique Raposo


Conseguem visualizar esta descida ao inferno? Têm a força necessária para criar esta empatia? Se têm, podem continuar a ler. Se não têm, não leiam mais.

Eu sei quem é a mãe que deixou o bebé no lixo. Reconheço o ideal-tipo. Sei de onde vem, conheço a miséria económica e mental que soterra uma pessoa neste entulho infernal. Visualizem esta hipótese, sim, visualizem comigo esta rapariga: ainda é menor; no máximo, tem vinte anos. Esta rapariga tem uma mãe que engravidou sem saber por onde saem os bebés. Não acreditam? A vossa descrença está errada.

No passado, na geração das nossas mães, muitas mulheres pobres engravidavam antes de saberem o que é um parto. Qualquer tema relacionado com o sexo era um tabu insuperável entre mães e filhas. O tabu começava na própria menstruação, vista como uma maldição feminina, um sangue sujo que conspurcava as mulheres e que confirmava a sua inferioridade moral perante os homens. Curiosamente, no mundinho “clean” e moderno da net, qualquer imagem com sangue menstrual é de imediato censurada.

Estas mães da geração anterior continuaram na miséria económica e, sobretudo, na miséria moral e na respectiva diabolização de qualquer conversa sobre sexo. As suas filhas foram educadas nos mesmos pressupostos. Sim, ainda há raparigas que crescem sem um mapa do seu corpo. A nossa rapariga é uma delas. Visualizem de novo comigo: esta rapariga é miserável, vive isolada e destratada, é tímida e muito gorda; a seguir, visualizem um homem, um padrasto, um vizinho, um irmão, um tio, um vizinho, um pai ou um avó que pressente a timidez da rapariga.

O predador é assim. A rapariga é violada uma ou várias vezes. Ela não diz nada à mãe ou irmã ou tia, porque tem medo de expor o pai, o padrasto, o irmã, o meio irmão, o vizinho, o tio. Ela não percebe o que se passa, ela nem sequer conhece a palavra “violação”, que lhe permitiria contestar moralmente a situação. E, mesmo que conheça a palavra, recusa verbalizá-la. Ela não conhece o seu corpo. Nunca ninguém falou com ela. Ele não percebe porque é que deixou de sangrar de mês a mês, até fica aliviada por isso, e não vê nada de mais no seu corpo porque foi sempre muito gorda. É por isso que a gravidez cresce incógnita. Ela não percebe. Os outros não reparam. Sempre foi gorda. Sempre usou roupa larga. Sempre comeu muito. Nos meses finais, ela sente aquela criatura a mexer, mas não diz nada. Está apavorada.

Conseguem visualizar esta descida ao inferno? Têm a força necessária para criar esta empatia? Se têm, podem continuar a ler. Se não têm, não leiam mais.

Rompem-se as águas. Ela entra em choque. Não sabe o que pensar ou fazer. Provavelmente, tem a criança sozinha numa cave, numa arrecadação, num prédio devoluto entre plásticos, seringas e ratazanas, ou num descampado, como um animal qualquer. O bebé não nasceu, foi parido. A seguir, ela coloca o bebé no lixo. Comete o erro de ir ao hospital? Esperemos que sim. Através deste ou de outro erro, podemos salvá-la. Salvar antes de punir, por favor.

Comentários
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  • António Silva
    12 nov, 2019 16:22
    Em relação ao texto, como neorrealismo há melhor. Nada justifica deitar seja quem for para o lixo, muito menos um filho recém nascido. Ao fazê-lo a mãe, por maiores que fossem os seus problemas, teve uma atitude indesculpável e inclassificável. Como já aqui alguém disse, só falta dizer que a culpa é do bébé…
  • David Poço
    11 nov, 2019 19:44
    Queria dar os meus parabéns Sr. Henrique Raposo pela coragem em escrever estas palavras, que podendo ou não concordar, devem ser um convite ao pensamento antes do julgamento. Deveria ser sempre assim mas infelizmente não é. É necessário sermos polícias de nós próprios e não deixarmos de nos questionar, não irmos atrás da corrente de opinião que se instalam nos diversos meios de comunicação nem atrás de demagogos que procuram ganhar alavanca para ter tempo de antena e influência. Eu consigo perceber a hipótese que menciona, não sou perito em análise psicológica mas sei de casos onde a degradação de vida de uma pessoa é de tal ordem que td aquilo que para a maioria de nós é convicção inabalável, é auto-evidente, é instintivo, está fora do alcance de outros. Tais situações serão carentes de apoio institucional ao nível da psiquiatria creio. Consigo perceber a hipótese do Henrique, podemos estar perante alguém profundamente doente. Intelectualmente creio que consigo acompanhá-lo mas do ponto de vista emocional não consigo encaixar. Imagino a sra a levar uma criança absolutamente frágil e pergunto como é possível que um ser humano que, mesmo com toda a distorção, sabe o que é dor, pode infligir o mesmo a outro ser humano tão frágil. Não consigo imaginar uma criança a chorar e uma mãe a afastar-se... Mas se falamos de doença mental percebo que o normal não caiba aqui....
  • cátia carapinha
    11 nov, 2019 05:13
    Meu Deus! Estamos a caminhar a passos largos para a auto destruição... Onde e quando se põe um recém nascido no lixo...é uma nova vida,uma nova esperança para esta sociedade de caca que eu ainda que contrariada e discordando de muita porcaria faço parte,um ser indefeso que nem sabe onde está nem tem capacidade para se livrar de nada;um ser que não pediu para nascer! Dizem que pode ter sido violada pode ter problemas mentais e não só;...então ponham-lhe o dedo na boca para ver se ela morde ou deem-lhe vidro para comer para ver se come. Coitadinha porque é uma vitima,vitimou...eu também sou vitima minha vida ficou do avesso quando fui atropelada;ainda assim não vou por aí a ferir a tornar ninguém defeituoso ou imperfeito.Por favor acordem para a vida,foi homicídio qualificado sim,um genocídio a um recém nascido que ainda agrava mais .
  • Eugénio da Costa Rui
    10 nov, 2019 VENDA DO PINHEIRO 19:12
    O capitalismo criando na sua génese as grandes desigualdades sociais em que o Fascismo era o expoente do obscurantismo onde a maternidade era tabu... onde os direitos das mulheres ao conhecimento através do acesso à educação era tabu... houvem-se discursos, lamentos... mas atacar as suas causas... não...Falta cumprir Abril.
  • Fernanda Vieira
    10 nov, 2019 Torres vedrss 16:53
    Desde o primeiro momento em que ouvi a notícia, pensei para mim " algo de muito grave se passou na vida deste ser humano para inconscientemente deitar outro ser humano em crescimento no lixo. O que se passará?! ..na vida deste ser que gerou ...mas não é responsável pela gestação. Ninguém quis saber! Só "olhavam" para o acto, e não para a origem! Não deram apoio a geradora e nem quizeram saber! Deram à criança...até ver! Isto, é o resultado duma sociedade egocêntrica e julgadora. Não tenho palavras, porque o que sinto é maior, tão grande ...como a pobreza existente nos distribuidores de fé, de religião e de amor...dos quais não se vê e sente a emanação. Na sua opulência e bem estar ...só fazen o que dá dinheiro ou créditos. Por isso, é que vozes como a sua são raras! É preciso sentir e " entrar" no ser e sentir do outro! Penso ...que poucos têm esse previlegio! Bem haja pelo seu "Alerta!"
  • Maria Calvo
    10 nov, 2019 Lisboa 14:59
    Acho que pela primeira vez concordo completamente consigo.
  • 10 nov, 2019 08:03
    Assim que a notícia saiu um escândalo. Hoje em dia não existem pessoas, mas sim imbecis que querem a força toda ser deus. Quem somos nós para julgar seja quem for. Só tenho uma palavra imbecis. E não é por chamar imbecis que concordo com a ação dessa rapariga ou mulher. Os jornalistas hoje em dia são uma porcaria sensacionistas. Notícias chamam a isto informação. Que vergonha mas é.
  • Susana Pereira
    10 nov, 2019 Lisboa 08:00
    Henrique Raposo, grata pela sua mensagem, pela sua coragem nesta escrita. Vi tantas críticas de imediato a esta situação e consegui também imaginar essa pessoa, esse desepero essa angústia para chegar a fazer isso, e depois de um parto, de dor e do medo!.Salvar em vez punir! Excelente mensagem!
  • Arminda Melo
    10 nov, 2019 02:37
    Infelizmente, este texto reflete o que muitas jovens "mulheres", sentem e passam. No caso desta jovem "mãe", a viver na rua completamente abandonada, sem qualquer preparo quer fisicamente, psicologicamente e moralmente. Eu não posso condenar alguém que já por si vive uma vida de abandono, quer familiar, de amizade e da própria sociedade. Sr. Presidente, por acaso foi visitar a jovem mãe a cadeia? Já que soube agradecer ao Sr. que salvou a criança e bem. A mãe também precisa de alguém que lhe leve conforto ao seu espírito, não com o intuito de criminalização! Deus mostrou quanto é urgente dar dignidade a todos e não só aqueles que vivem no sombra dos políticos.
  • carla Madeira
    09 nov, 2019 Albufeira 23:21
    Tou aqui, tou a ouvir que o culpado foi o bebê de ter nascido... Peço desculpa, mas discordo . Esta menina, mulher ou monstro, pegou num ser que não tem culpa de ter sido gerado e atirou o para um contentor onde poderia ter morrido. Onde passou frio, fome. Uma criança recém nascida. Ela não é parva nenhuma. Ela poderia ter dado assistência , chamar o 112 e entregar a criança. Mas não a forma mais fácil de se descartar do problema foi atira-lo para um contentor, como se fosse um pacote de baratas vazio. Lixo. Isso não se faz. Isso não se faz e não tem perdão.