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“Não conhecer a Bíblia é uma forma de iliteracia”

07 nov, 2019 - 15:43 • Liliana Carona

“A Bíblia é um código para ler a cultura nas mais diversas dimensões”, independentemente da fé, diz o professor catedrático José Eduardo Franco. A primeira edição integral em português surgiu há 200 anos.

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Peça de Liliana Carona sobre congresso e concurso sobre Bíblia em Gouveia (07/11/2019)
Peça de Liliana Carona sobre congresso e concurso sobre Bíblia em Gouveia (07/11/2019)
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Gouveia vai acolher o Congresso Internacional e o Concurso Nacional sobre a Bíblia Sagrada em setembro de 2020. Gianfranco Ravasi e José Tolentino Mendonça são alguns nomes já confirmados.

“A Bíblia na Cultura Ocidental: Milénios de Civilização” é o tema do congresso, cuja organização está a cargo do professor catedrático José Eduardo Franco.

“É um congresso científico, académico, que se vai fazer pela primeira vez em Portugal” e “temos uma figura célebre já confirmada: Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura no Vaticano”, anunciou perante uma plateia de alunos do 11.º ano do agrupamento de escolas de Gouveia, no passado dia 25 de outubro.

Gianfranco Ravasi vai apresentar o painel “Das raízes do livro à cultura europeia”. Noutro painel, estará o cardeal português José Tolentino Mendonça, que já confirmou presença para falar sobre “As linguagens bíblicas como perceção do Livro”.

“E temos outras figuras internacionais do mundo judaico, islâmico. É um encontro ecuménico”, destacou ainda o catedrático.

O período para apresentação de propostas à participação nas sessões científicas do congresso decorre até 30 de junho de 2020. Aceitam-se propostas em português, inglês, espanhol, italiano e francês.

Um desafio para públicos de todas as idades

“Estes congressos científicos normalmente atraem o público mais velho, mas também queríamos o público mais jovem”, desafiou o Professor José Eduardo Franco.

Para tal, vai decorrer um outro evento durante o mesmo período (10, 11 e 12 de setembro de 2020): o concurso nacional Bíblia MOOV, que convida os estudantes a refletir sobre a Bíblia de uma forma criativa.

Os trabalhos podem ser feitos “no telemóvel ou com outros meios mais profissionais; um documentário inspirado num motivo bíblico ou pegar num salmo bíblico, musicá-lo e fazer um videoclip”, exemplificou o diretor e professor convidado da Cátedra Infante Dom Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos e a Globalização (CIDH) da Universidade Aberta/CLEPUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Na opinião de José Eduardo Franco, “não conhecer a Bíblia é uma forma de iliteracia, porque, quer se tenha fé ou não, a Bíblia é um código para ler a cultura nas mais diversas dimensões”.

Não se pode pensar que “é um livro escrito há mais de dois mil anos e que não tem nada mais a ver connosco”, defende.

Bíblia em Português tem 200 anos

Este ano, assinalam-se os 200 anos da primeira edição completa da Bíblia em língua portuguesa. É a mais antiga tradução para a português (Londres, 1819), realizada no século XVII por João Ferreira d’ Almeida.

Contudo, “esta obra permanece numa clandestinidade cultural, que tem ocultado o mérito e o prestígio reconhecidos pela maioria dos estudiosos”, lê-se no site do congresso internacional.

É neste sentido que, à Câmara Municipal de Gouveia, se associaram a Cátedra Infante D. Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos e a Globalização (CIDH – Universidade Aberta/CLEPUL), a Difusora Bíblica, o Instituto de Estudos Avançados em Catolicismo e Globalização (IEAC-GO), a Sociedade Bíblica de Portugal e a Universidade Lusófona – Área de Ciência das Religiões para a organização do referido congresso.

O Interior no centro

O Interior de Portugal vai assim estar no centro do mundo no próximo ano, no que ao estudo da Bíblia Sagrada diz respeito.

Gouveia, associada a múltiplas entidades académicas e científicas, organiza uma série de iniciativas preparatórias para a construção do “Museu Internacional do Livro Sagrado. O ADN das civilizações do Mundo” – assim se vai designar o espaço museológico.

O professor Jorge Ferreira, vereador da cultura da Câmara Municipal de Gouveia, diz que a iniciativa do congresso visa preparar essa construção. “É um percurso e um projeto a longo prazo”.

“O projeto do museu está quase concluído: estão a fazer a maquetização em 3D e agora é começarmos a bater à porta de eventuais mecenas, porque são oito milhões de euros – um projeto demasiado grande para uma Câmara como Gouveia suportar. Já fizemos um rastreio das portas a que vamos bater e não levamos apenas uma ideia, mas algo em concreto”, revela, corroborado pelo professor José Eduardo Franco: “vamos bater à porta de quem tiver sensibilidade para uma obra destas para a valorização do Interior”.

Ainda no âmbito do congresso internacional, atividade financiada por fundos nacionais através da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), destaque para a realização de um atelier de dança.

“A dança na Bíblia”, desvenda José Eduardo Franco, será organizado por António Laginha e um padre jesuíta.

“No Antigo Testamento, o Rei David louvava a Deus dançando. A dança era uma forma de liturgia, louvor e de oração e perdemos um pouco isso”, explica o catedrático.

Frei Herculano Alves é o coordenador científico do congresso internacional agendado para 2020 e sabe-se já que 2021 também trará novas iniciativas na senda do Museu Internacional do Livro Sagrado, em Gouveia.

O Museu Internacional do Livro Sagrado “será uma referência no país”, defende José Eduardo Franco.

“O Interior do país está sempre nas bocas dos políticos, mas são precisas ações concretas e de grande dimensão como estas, que poderão criar uma nova centralidade cultural. Poderemos criar cá um 'Serralves de Gouveia'. Queixamo-nos que nada acontece no Interior e esta é uma oportunidade única”, destaca o investigador e docente, para quem “Gouveia está cheia de motivos de influência bíblica e há muito trabalho para fazer”.

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