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Programa do Governo tem mais palavras em comum com programa eleitoral do PSD

31 out, 2019 - 06:44 • Rui Barros , Inês Rocha

Se excluirmos o programa eleitoral do próprio PS, ao nível das palavras (e não dos significados), o texto do programa social-democrata é o mais próximo daquele que vai orientar o Governo nos próximos quatro anos. Mera coincidência ou sinal de um PS mais ao centro?

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À exceção do programa do próprio Partido Socialista (PS), em termos textuais, o programa eleitoral do PSD é aquele que mais se aproxima do programa do Governo, que esta quinta-feira continua a ser debatido no Parlamento.

A Renascença recorreu a um algoritmo de processamento de linguagem natural e comparou o programa do Governo, cuja discussão parlamentar arrancou ontem, com os textos que os partidos apresentaram durante a campanha às legislativas. O algoritmo, que muitas vezes é utilizado para, por exemplo, tentar detetar autores de determinado texto com base em características textuais, não tem dúvidas: o verdadeiro “pai” do programa do Governo é o Partido Socialista.

Se essa conclusão não é surpreendente para nós, humanos, que sabemos quem venceu as eleições de dia 6 de outubro, não deixa de ser interessante verificar que partidos o algoritmo colocou mais próximos do programa do Governo.

Segundo este cálculo estatístico, que atribui uma nota de entre 0 e 1 à semelhança do “sintagma verbal” dos programas dos partidos, o texto mais parecido é o programa de Governo do PS (0.98), seguido do do PSD (0.90), Livre (0.86) e CDS-PP (0.82).

No pólo oposto - isto é, nos programas dos partidos que, a nível discursivo, mais longe estão do texto do PS - estão os textos apresentados pelo Chega (0.62), PEV (0.67), Iniciativa Liberal (0.77), PCP (0.8), Bloco de Esquerda (0.81) e PAN (0.82).

Luísa Coheur, investigadora e especialista em Processamento Natural de Linguagem (NLP, na sigla em inglês) do Instituto Superior Técnico, explica que, para fazer estas contagens, o computador transforma o texto em vetores. Cada posição desses vetores corresponde a uma palavra do vocabulário.

Uma das grandes limitações do método é o facto de a ordem das palavras e a semântica do texto se perderem totalmente - os documentos são representados como “sacos” de palavras. À Renascença, a investigadora dá um exemplo: “Frases como ‘a prima do mestre da obra’ e ‘a obra-prima do mestre’ são representadas por vetores muito próximos ou iguais.”

Palavras que são autênticas “impressões digitais”

Para além de ter eliminado as palavras comuns da língua portuguesa que nada acrescentavam à análise (como, por exemplo, os artigos definidos e indefinidos), a Renascença usou ainda como valor de referência uma métrica (tf-idf) que afere a relevância que determinada palavra tem em relação a todos os documentos.

Esta métrica tem em conta a frequência com que uma palavra é usada no documento, mas também a frequência da palavra em todos os documentos. “Ou seja, uma palavra muito frequente na coleção ‘perde pontos’ com o tf-idf”, esclarece Luísa Coheur. Assim, uma palavra que apareça em todos os documentos passa a ter um peso menor.

Como estamos a falar de programas políticos, há palavras que são repetidas por quase todos os partidos e que, por isso, não nos ajudam a identificar semelhanças e distâncias entre textos. Outras, por serem tão únicas de determinado documento, acabam por ser autênticas “impressões digitais” dos programas dos partidos.

Por exemplo, no caso do programa do Partido Socialista, essa palavra é precisamente a sigla “PS”, ao passo que, no programa do Partido Comunista Português, essa palavra é “protecção”.

Dados sugerem um PS mais ao centro

Luís Santos, especialista em comunicação e professor da Universidade do Minho, lembra que este tipo de análises faz sentido “sempre como complemento a outras”. Por ser uma análise quantitativa de palavras, que não tem em conta expressões ou sentidos, “teria muita dificuldade em fazer leituras muito definitivas com base nesta análise”.

“Em documentos escritos, de produção textual, diria, pessoalmente, que a análise qualitativa ajuda sempre a tirar outro tipo de conclusões, enquadrada com ações e gestos políticos”, ressalva o especialista.

Ainda assim, o professor universitário considera “interessante, pela positiva”, que haja uma maior proximidade do que se poderia imaginar entre os vários partidos nas questões centrais e que aqueles que estão mais distantes do programa do governo sejam os partidos nas extremidades do espectro político.

O facto de o programa do PSD ser o mais parecido com o do Governo em termos textuais é também curioso para Luís Santos.

“Há, olhando para isto e percebendo as movimentações recentes do PS, uma confirmação do que foi sendo dito, de que o núcleo duro do governo e o foco central da sua ação política terá mudado de sítio, fugindo um pouco para o centro”, explica o especialista.

Note-se, por exemplo, a subida de Pedro Siza Vieira e Augusto Santos Silva a ministros de Estado. Os responsáveis das pastas da Economia e dos Negócios Estrangeiros, respetivamente, são conhecidos por se situarem mais ao centro nas opções políticas e estão agora no núcleo duro do Governo, com mais peso nas decisões. Prova desta vontade de recentrar o partido é o discurso de Augusto Silva durante a campanha eleitoral, em que fez questão de “malhar na esquerda” tanto quanto na direita.

Também a “subida” a ministro de Pedro Nuno Santos, ainda na última legislatura, terá retirado o socialista, conhecido como o elemento do Governo mais próximo da esquerda, do centro das negociações.

Além disso, sem acordos escritos, o programa do Governo é mais próximo dos planos que o PS tem para o país, sem obrigatoriedade de acomodar propostas do Bloco e do PCP.

“Estes dados permitem de alguma forma sugerir que essa reorientação do PS um pouco mais para o centro estará de facto em curso”, considera Luís Santos.

O professor da Universidade do Minho refere ainda o facto “curioso” de uma das palavras-chave do PS ser “projetos”, ao passo que o PSD prefere a palavra “ações”.

“Podem referir-se aos mesmos temas, mas há uma dinâmica de assunção de papel ativo de oposição por parte do PSD que talvez possamos ver nos próximos quatro anos”, considera Luís Santos.

Ao olhar para as palavras do Chega, da Iniciativa Liberal, do Livre ou do PAN, os quatro estreantes no Parlamento, o especialista considera que se denota uma tentativa, por parte destes partidos mais pequenos, de fazer passar uma “mensagem política autónoma”, apostando na diferenciação relativamente aos outros.

“Vão ser quatro anos em que estes partidos vão tentar ter uma expressão externa muito maior do que a sua dimensão no Parlamento”, explica Luís Santos. Apesar de terem um reduzido número de deputados, “vão agitar alto as suas bandeiras”.


Os dados dos programas dos partidos foram recolhidos e convertidos para formato texto pela comunidade “Politica para todos” e podem ser obtidos aqui. O programa do governo foi convertido para texto pela Renascença. Todo o código utilizado na elaboração deste trabalho pode ser consultado no Repositório de Dados Abertos da Renascença

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