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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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nem ateu nem fariseu

Porque é que as crianças jantam a olhar para o tablet?

18 out, 2019 • Opinião de Henrique Raposo


No dia-a-dia abrasivo e muito machista da sociedade portuguesa, o jantar de família, calmo, colectivo e conversador, é uma longínqua quimera. O tablet ocupa o espaço vazio, é a dama de companhia.

A censura sobre os pais é enorme. Julgar os pais pelos alegados fracassos na educação dos filhos é um desporto muito português. Toda a gente julga e dá palpites tremendistas, mesmo aqueles que não têm filhos aqui e agora. Os solteirões sem filhos julgam quem ousou ter filhos; lançam esta crítica a partir de um conceito abstrato de "criança" que varia de cabeça para cabeça. Aqueles que tiveram filhos há trinta ou quarenta anos também julgam. Estes, os avós, são muitas vezes os piores, porque não percebem que ser pai em 2020 é mais difícil do que em 1980.

Neste festim justiceiro, as pessoas assumem que só existe vontade ou ausência de vontade. Isto é, se uma criança passa o jantar a ver bonecos no tablet ali no restaurante ou hotel, as pessoas à volta assumem que isso só pode ser o resultado de duas coisas: ou é a vontade expressa dos pais, ou é o resultado da inércia dos pais. Mas já pensaram que no mundo existem forças exteriores ao livre arbítrio? Já pensaram que existem forças estruturais que nos esmagam? Neste caso, a força estrutural é a seguinte: uma percentagem altíssima dos miúdos está habituado a comer com tablet, porque a mãe (e é quase sempre a mãe) está sozinha com eles à hora do jantar. Está sozinha sem marido que não chega, sem mãe ou sogra que estão longe ou não querem ajudar, sem tios ou tias, sem irmãos que também moram longe. São poucos os pais que têm ajuda de familiares àquela hora. Eu tive essa sorte e, também por causa disso, as minhas filhas comem sem tablet.

A ajuda familiar que eu tive é rara, quase arqueológica. Infelizmente, a maioria está sozinha à hora do jantar. Ela, a mãe portuguesa, está sozinha. E está sozinha porque o modo de vida da sociedade portuguesa é uma máquina de destruição de casamentos e famílias. Não é por acaso que temos a segunda taxa de divórcio mais alta da Europa. O nosso horário de trabalho tão peculiar e o machismo intrínseco dos portugueses tornam a vida familiar após a escola num inferno solitário para a mãe, que, sem ajuda de familiares ou criadas, tem de dar banhos, lavar roupa, fazer jantar, dar o jantar, etc., etc. Ou está sozinha porque ele não chega, ou está sozinha porque já está divorciada.

Eis portanto o resultado prático deste fracasso colectivo: ela, a mãe, deixa o garoto a comer sozinho com o tablet para conseguir fazer outra coisa qualquer; cozinhar o almoço para a marmita do dia seguinte, por exemplo, ou passar a ferro, ou ajudar nos TPC do outro filho, ou ligar para o marido que nunca mais chega. Se dependesse da sua vontade, o filho não jantava com o tablet, mas não é uma questão de vontade. O tablet é o mal menor neste contexto de solidão. No dia-a-dia abrasivo e muito machista da sociedade portuguesa, o jantar de família, calmo, colectivo e conversador, é uma longínqua quimera. O tablet ocupa o espaço vazio, é a dama de companhia. Percebem agora? Podem tentar julgar menos e tentar perceber mais?

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  • zaico uchiha
    20 out, 2019 18:57
    PS: O divórcio é antes de mais descontentamento (espectativas), desilusão (tempo para si), incompreensão (natural homem-mulher) e solidão (resultante) e vivendo numa cidade é bem pior pois o rótulo da vila (mau) é trocado pela mais completa solidão (extremo). Mais problemas atingem esta humanidade, o suicídio juvenil e a área 51 (pois estes seres que aqui habitam são mesquinhos e preocupam-se mais com a qualidade do ar que respiram que com os milhares de seres da sua espécie que morrem na mais desgraçada miséria, que ninguém, das espécies desconhecidas, veja o que aqui se passa).
  • zaico uchiha
    20 out, 2019 18:23
    Deus fez as aldeias, o Diabo as vilas (com todas as suas intrigas e males sociais) e o Homem fez as cidades, pois melhores são as vilas (mesmo transpirando de males) que as cidades. A cidade, para onde a humanidade caminha, está cheia de solidão, algo desnaturado onde as nuvens não passam nem os pássaros (Olhai os pássaros) cantam. Solidão numa grande cidade, transparência personalizada vestida de indiferença que num impulso sem plano partiu a família e encurralou os homens. As casas deveriam ter famílias e não casais com filhos, para ser assim teriam que albergar criadagem (substituindo idosos por norma caprichosos) pois o divórcio é antes de tudo subcarga que derrama por fora. Os políticos ingleses querem sair de casa mas quem somos nós para lhe lançar pedras. Em cima do muro é um sítio mau para estar, faz muito sol e na ausência do vento ficamos na dúvida para que lado deveremos saltar, brisas muito subtis sugerem-nos os lados, todos, em determinada altura da vida, pisam o muro e Salazar também o pisou, (provavelmente elucidado por alguém) decidiu que as casas não deveriam ter mais de um andar para não partir as famílias, não matar as vilas e aniquilar as aldeias (muitos males fez, como é sabido, mas esta atitude foi de sabedoria).
  • Vera Costa
    20 out, 2019 03:36
    " São poucos os pais que têm ajuda de familiares àquela hora. Eu tive essa sorte e, também por causa disso, as minhas filhas comem sem tablet." Os meus filhos nem sequer têm tablet! Os meus filhos nem frequentam o Facebook, não gostam! Quem frequenta o Facebook sou eu, porque não gosto da TV, porque esta via de comunicação não tem serventia nenhuma! já teve, quando os meus filhos eram crianças tinham a "Rua Sésamo" de manhã e desenhos animados de tarde! O pai era raro estar a horas para jantar e havia dias que quando chegava a casa eles já estavam a dormir, porque havia escola de manhã e deitavam-se cedo! o jantar era às 8h com o telejornal e a telenovela, depois preparavam-se para dormir e quem arrumava a mala da escola era eu! Quando o pai vinha jantava sozinho com a TV e a implicar com os políticos nas últimas notícias! aos fins de semana íamos passar numa casinha que tínhamos perto da praia! O pai não gostava de praia, entretinha-se em casa de uns vizinhos a jogar e nós íamos para a praia! eu nunca andei à espera do meu marido para nada,senão bem podia esperar sentada porque me cansava, de certeza! Os filhos habituaram-se a andar sempre atrás da mãe, enquanto crianças! depois sozinhos nos transportes e com um livrinho que comprei com todas as ruas de Lisboa, para não se perderem! Uma mulher quando se casa já sabe o que a espera, se tiver filhos! tem que cuidar deles, porque é seu dever! A tal inércia de que o Henrique falou, existe! mas depende da educação que a mãe teve.