Francisco Sarsfield Cabral
Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
A+ / A-

​Em casa de ferreiro…

23 out, 2019 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A Ordem dos Médicos tem chamado a atenção para problemas sérios na área da saúde. Mas os atrasos em avaliar suspeitas de erros profissionais de médicos pode minar a sua credibilidade.

Uma das personalidades que mais aparece no espaço público nacional, nomeadamente na televisão, é o bastonário da Ordem dos Médicos, Dr. Miguel Guimarães. Quase sempre as suas intervenções alertam o país e o governo para graves problemas que persistem e até se agravam na área da saúde em Portugal.

Trata-se de uma verdadeira defesa do Serviço Nacional de Saúde, cuja degradação é manifesta, contra as ilusões que o primeiro-ministro e a ministra da Saúde tentam alimentar.

Mas no melhor pano cai a nódoa. O presente e dramático caso da criança que nasceu com graves malformações, não detetadas antes, veio chamar a atenção para os atrasos da Ordem na avaliação de casos em que médicos são suspeitos de sérios erros profissionais.

Para essa tarefa foram em 2015 reforçados os Conselhos Disciplinares da Ordem dos Médicos, pois avolumavam-se as queixas e as reclamações sem resposta atempada. Segundo o jornal “Público”, apesar daquele reforço o Conselho Disciplinar do Sul (que passou de cinco para 17 médicos) tem centenas de processos pendentes – no ano passado eram 1466. Nos Conselhos Disciplinares do Norte e do Centro eram menos, respetivamente 185 e 337 processos pendentes.

Talvez existam várias explicações para estes atrasos. Uma delas será o facto de ser gratuito o trabalho dos membros dos Conselhos Disciplinares da Ordem. Sem qualquer compensação na redução do seu horário de trabalho, ao contrário do que acontece, por exemplo, na atividade sindical.

Se não se ultrapassar esse problema, o risco está em que o Ordem dos Médicos poderá ser acusada – porventura injustamente – de defender corporativamente os profissionais que representa. E de perder credibilidade nas suas intervenções públicas. Dir-se-á, então, que em casa de ferreiro, espeto de pau…

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.