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Cinema documental

Vem aí mais uma edição do DocLisboa, um festival de cinema "mesmo universal"

16 out, 2019 - 18:19 • Redação com agência Lusa

Cíntia Gil falou à Renascença antes de abandonar a direção do festival. A 17.ª edição dedica retrospetivas a Jocelyne Saab e ao cinema da Alemanha de Leste, nos 30 anos da queda do muro de Berlim.

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O Festival Internacional de Cinema DocLisboa, que começa na quinta-feira, tem este ano uma programação especial dedicada ao Brasil. “Fizemos um programa de urgência, em resposta ao bloqueio aos realizadores brasileiros”, explica à Renascença a diretora Cíntia Gil.

Estes realizadores estão impedidos de viajar para “apresentar os seus filmes em festivais internacionais”, por isso, “vamos abrir mais espaços e trazer mais vozes a Lisboa, onde a comunidade brasileira é enorme”, sustenta a diretora do DocLisboa.

Até 27 de Outubro, a Culturgest, o Cinema São Jorge, o Cinema Ideal e a Cinemateca acolhem o festival internacional de cinema documental. Ao longo dos dias, poderá escolher entre 303 filmes de 48 países, 39 dos quais em estreia mundial.

Do Brasil, será apresentado um panorama muito completo, com “um conjunto de filmes, uns contemporâneos outros históricos”.

Cíntia Gil destaca o “Cabra Marcado para Morrer”, de Eduardo Coutinho, que “não só retrata questões muito específicas da ditadura, como foi apanhado pela própria ditadura”.

“É uma espécie de filme monumento”, acrescenta na entrevista para o programa Ensaio Geral, emitido no dia 11 de outubro.

Mas no festival há também 44 filmes portugueses. E aqui um dos destaques vai para a estreia do documentário sobre Zé Pedro, o guitarrista dos Xutos e Pontapés.

Alguns estão em competição nacional. “São 11 filmes, todos muito diferentes, do Iraque ao mais íntimo da casa de alguém. É mesmo um cinema universal, neste sentido do infinitamente longe e infinitamente perto”, avança a diretora do festival.

Na programação do DOC Lisboa, há também várias retrospetivas e, este ano, ainda um olhar especial para a efeméride dos 30 anos da queda do Muro de Berlim.

“Há uma coisa que este ano quisemos reforçar um bocadinho, que é a presença do tema da descolonização e da descolonização da memória: o que é que significa descolonizar a memória sem cairmos nos chavões da moda; como podemos debater isso com alguma seriedade e rigor”, destaca Cíntia Gil.

Esta é a última edição sob a direção de Cíntia Gil e David Oberto. A diretora assume, em novembro, a direção do festival Sheffield Doc/Fest (Inglaterra) e David Oberto vai dedicar-se em exclusivo à produção do Festival de Cinema de Turim (Itália).

A próxima direção será anunciada no dia 27 e, de acordo com Cíntia Gil, irá receber "um festival muito aberto a ideias e à experimentação".

"Eu diria que constrangimentos há poucos do ponto de vista artístico. Fica um festival muito definido naquilo que é o seu lugar político. É um festival que defende o cinema livre, que defende os realizadores e os produtores, que acredita que não há filmes que não possam ser mostrados às pessoas, contra qualquer tipo de censura", afirmou à agência Lusa.

Um olhar sobre o programa 2019

São bastantes diversificadas as propostas do cinema documental apresentado nesta 17ª edição do DocLisboa. Pode ver tudo aqui, mas ficar também já com uma ideia.

O festival abre na quinta-feira com "Longa noite", filme do realizador galego Eloy Enciso sobre "os alicerces sociopolíticos do fascismo" a partir da história do franquismo, em Espanha.

Este ano, as competições oficiais estão mais reduzidas. A de âmbito internacional é feita com 14 documentários, que são "graciosas reviravoltas sobre si próprios", afirmou Cíntia Gil na apresentação oficial. Entre eles está a curta-metragem-manifesto "Eu não sou Pilatus", do ator e realizador luso-guineense Welket Bungué.

A Cinemateca será parceira na exibição da retrospetiva dedicada ao cinema da Alemanha de Leste, com o diretor José Manuel Costa a descrevê-la como um "evento histórico em si mesmo", por "cobrir uma lacuna de conhecimento histórico" e por apresentar "retratos insubstituíveis do pós-guerra".

Outra das retrospetivas será sobre a obra de Jocelyne Saab, jornalista e realizadora libanesa que morreu em janeiro passado. Entre os filmes escolhidos está "Palestinian Women", de 1974, censurado e nunca exibido. Passará em Lisboa numa cópia produzida pela Cinemateca Portuguesa para o festival.

Em matéria de cinema português, estão em competição filmes que já passaram por festivais estrangeiros, como "Prazer, Camaradas!", de José Filipe Costa, "Três perdidos fazem um encontro", de Atsushi Kuwayama, e "Raposa", de Leonor Noivo, ao lado de outros como "História sem maiúsculas", de Saguenail, "Diários de guerra", de Luís Brás, e "Cerro dos pios", de Miguel de Jesus.

No programa "Heart Beat", com documentário sobre música e arte, estarão, entre outros, "Zé Pedro Rock n'Roll", de Diogo Varela Silva, "Sophia, na primeira pessoa", de Manuel Mozos, "Don't look back", de D. A. Pennebaker, "The projectionist", de Abel Ferrara, e "Retrospective", de Jerôme Bel, que estará em Lisboa.

Nesta edição há ainda duas novidades: o Nebulae - um espaço dedicado a profissionais com um seminário de realização, encontros temáticos sobre modelos de financiamento e produção - e a criação dos prémios Fernando Lopes para o melhor primeiro filme português, e Pedro Fortes, na secção "Verdes Anos", em homenagem a Pedro Fortes, um dos elementos da equipa do DocLisboa que morreu este ano.

Organizado pela Apordoc - Associação pelo Documentário, o DocLisboa encerrará no dia 27, embora o filme de encerramento, "Technoboss", de João Nicolau, passe na véspera.

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