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Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza

"É fácil sermos caritativos de palavra. Importante é estar nos lugares e a Cáritas está"

16 out, 2019 - 12:41 • Ângela Roque

Em entrevista à Renascença, a realizadora Inês Leitão conta como foi ir a Moçambique filmar com sobreviventes do ciclone Idai, onde há gente que só come "uma vez por dia". Com a curta-metragem documental que realizou para a Cáritas, e que é divulgada esta quinta-feira, quer sensibilizar os portugueses para a importância de apoiar a fase de reconstrução de casas, que só agora vai começar.

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Entrevista com realizadora Inês Leitão documentário Cáritas Moçambique ciclone Idai da jornalista Ângela Roque (16/10/2019)
Entrevista com realizadora Inês Leitão documentário Cáritas Moçambique ciclone Idai da jornalista Ângela Roque (16/10/2019)
Clique na imagem para ouvir a entrevista na íntegra

A Cáritas Portuguesa lança esta quinta-feira, Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, um minidocumentário filmado nas províncias mais atingidas pelo ciclone Idai, em Moçambique, a 14 de março de 2019. Calcula-se que 90% da cidade da Beira tenha sido afetada, com a destruição de infraestruturas e vias de comunicação, e milhares de pessoas a permanecerem em árvores durante vários dias.

O trabalho documental mostra como, sete meses depois, a vida dos que sobreviveram está ainda muito longe da normalidade.

“Fizemos este mini-filme na esperança de que ele seja um alerta, porque as chuvas vão começar agora, em outubro/novembro, e as pessoas ainda estão a viver nas lonas que lhes foram dadas logo no início, quando houve a emergência”, conta à Renascença Inês Leitão, que realizou o documentário. “Embarcámos dia 9 de setembro, foi tudo filmado em tempo recorde.”

A Cáritas foi das primeiras organizações humanitárias a ir para o terreno e continua a ser o grande suporte da população.

O documentário pretende “mostrar a Igreja em ação, a Igreja que está na margem, a ajudar os que mais precisam”, porque “é muito fácil sermos caritativos de palavra, o importante mesmo é estar nos lugares, e a Cáritas, de facto, está”.

A realizadora espera que o filme ajude a sensibilizar os portugueses para a importância de continuarem a apoiar a instituição católica com donativos, tão necessários para a nova fase de apoio que agora arranca.

“Só agora é que vai começar a fase de reconstrução das casas, o alojamento, o saneamento que é essencial", explica Inês Leitão. "E depois, obviamente, a alimentação, porque estas pessoas precisam de comer. Há pessoas que só comem uma vez por dia. Comem ou chima [pasta espessa feita com farinha de milho ou de mandioca] ou tomate ou couve, e quando digo 'ou' e não 'e' é porque é mesmo assim, ou comem uma coisa ou comem outra.”

“A nossa fé não vale um dedo mindinho ao pé da fé que eles carregam”

O filme reúne vários testemunhos de sobreviventes e de trabalhadores humanitários da Cáritas Moçambicana, e Inês Leitão não esconde que ficou impressionada com a capacidade de resiliência que encontrou.

Lembra o caso da jovem mãe que “passou três dias numa árvore agarrada ao troco para sobreviver com as filhas, uma em cada braço, até as suas capacidades humanas não conseguirem mais, e depois viu-as ir na água”, mas que apesar desse sofrimento tão grande consegue falar com esperança no futuro. “Uma esperança maravilhosa, porque está grávida de quatro meses!”.

Em todos eles há uma fé em Deus inabalável. “A fé destes moçambicanos é impressionante. Eu acho que a nossa fé não vale um dedo mindinho ao pé da fé que eles carregam.”

Inês Leitão elogia, também, a dedicação e entrega dos que trabalham para a Cáritas moçambicana. “Naquele dia [14 de março] também viram as suas casas a serem arrasadas, mas foram para o terreno, porque a prioridade deles é a ajuda humanitária, isso está-lhes impresso no ADN.”

“No meio do mais profundo desespero, na situação mais desoladora, que é ver tudo a ir com a água e com o vento, separaram a comida que tinham para quatro pessoas para um mês, e essa comida foi replicada para mais de 100 pessoas que lhes foram pedir ajuda. Vinham todos a tremer com frio, e então deram-lhes banho, deram papinha, como eles dizem, deram chá. Eles não sabiam se a comida ia dar para toda a gente, mas foram dando e isto é de super-herói”, sublinha a realizadora, que não tem dúvidas de que toda a ajuda em donativos entregue à Cáritas está a ser “muito bem aplicada”.

“Não basta falar, importa mesmo ajudar. E eles falam a nossa língua. Somos um povo irmão”

O minidocumentário "Recuperar vidas, restaurar a Esperança" vai ser disponibilizado pela Cáritas a partir desta quinta-feira, Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza.

“Estamos muito felizes com o resultado”, diz Inês Leitão, que espera que os portugueses o vejam e se sensibilizem. “Estas pessoas precisam muito da nossa ajuda e não basta falar, nem basta só ir lá captar imagem e voltar, importa mesmo ajudar. E eles falam a nossa língua. Somos um povo irmão.”

Durante a fase de emergência que se seguiu aos ciclones Idai e Kenneth, a Cáritas moçambicana prestou assistência a cerca de 27.500 pessoas, com a distribuição de lonas, kits de cozinha, higiene e abrigo, nas províncias de Sofala, Manica, Zambézia e Cabo Delgado. Esta resposta foi dada com o apoio da rede internacional Cáritas.

Através da campanha ‘Cáritas Ajuda Moçambique’, a participação da Cáritas Portuguesa neste projeto global será de 450 mil euros, num apoio que deverá chegar a mais de cinco mil famílias, em três linhas de atuação: agricultura e meios de subsistência, água e saneamento, e habitação.

O apoio à população de Moçambique pode continuar a ser feito através do Fundo de Emergências Internacionais da Cáritas Portuguesa.

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