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Espanha

Na Catalunha, continuam os protestos (e a vontade dos catalães de se separarem)

15 out, 2019 - 19:16 • Redação com Reuters

Líderes pró-independência prometem continuar a pressionar Madrid com vista à realização de um novo referendo. Governo espanhol diz que é hora de "começar um novo capítulo político", embora admita conversar – mas respeitando a Constituição.

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Puigdemont junta-se a protesto em frente à Comissão Europeia
Puigdemont junta-se a protesto em frente à Comissão Europeia

Os manifestantes bloquearam uma estação de comboios e várias autoestradas na região espanhola da Catalunha este terça-feira, naquele que foi o segundo dia de protestos contra a prisão de nove separatistas na segunda-feira, condenados pelo Supremo Tribunal espanhol pela sua participação numa fracassada tentativa de secessão.

A polícia interveio para retirar os manifestantes, hoje em menor número do que na segunda-feira, isto enquanto uma outra manifestação no centro de Barcelona fechava uma das principais vias de tráfego – e líderes pró-independência prometiam continuar a pressionar Madrid com vista à realização de um novo referendo.

Vários outros comícios foram planeados para o final da tarde desta terça-feira e a confederação sindical pró-independência IAC anunciou uma greve geral na Catalunha na sexta, contra as leis trabalhistas que os sindicatos dizem infringir os direitos dos trabalhadores.

Oriol Junqueras recebeu a sentença mais longa, de 13 anos, pela sua participação na organização do referendo de 2017, que foi considerado ilegal. Junqueras disse à Reuters na sua primeira entrevista após a sentença que isso apenas galvanizaria o movimento de independência.

"Não vamos parar de pensar como pensamos. Os ideais não podem ser inviabilizados pelas sentenças [de prisão]", disse, afirmando que uma nova consulta popular era "inevitável".

O chefe do Governo regional, Quim Torra, defendeu os protestos em massa pelas sentenças que descreveu como inaceitáveis.

"Começa uma nova etapa em que tomamos a iniciativa e colocamos a implementação do direito à autodeterminação de volta ao centro" das nossas propostas, disse Torra, exortando Madrid a prestar atenção e iniciar as negociações nesse sentido.

Na segunda-feira, os manifestantes bloquearam caminhos-de-ferro e milhares concentraram-se no aeroporto internacional de Barcelona, onde alguns entraram mesmo em conflito com a polícia, depois de Junqueras e oito outros líderes terem sido condenados por sedição e presos por nove a 13 anos.

Um porta-voz do aeroporto disse que foram cancelados 110 voos na segunda-feira e outros 45 esta terça devido à perturbação.

Todos os réus foram absolvidos da mais grave acusação, de rebelião, mas a duração das penas de prisão – que Junqueras disse que planeavam recorrer junto do Tribunal Europeu – provocaram raiva na Catalunha.

Dois anos após o fracasso do primeiro referendo, a independência da Catalunha ainda domina grande parte do debate político (fraturado) da Espanha, e a decisão provavelmente vai animar as legislativas de 10 de novembro, as quarta em Espanha nos últimos quatro anos.

O ministro interino dos Negócios Estrangeiros, Josep Borrell, reconheceu que a questão da independência da Catalunha colocada à Espanha não terminará com a sentença: "Ontem, hoje e amanhã, continua a ser um problema político que precisa de ser resolvido", afirmou, pedindo diálogo, sempre respeitando a Constituição.

Diálogo? Que diálogo?

No entanto, Borrell acrescentou que o movimento pela independência ignorou todos aqueles que na Catalunha não são a favor de se afastar de Espanha, dizendo: "Esta é uma atitude totalitária". Os separatistas já rejeitaram repetidamente essas acusações.

Um diálogo pode concentrar-se numa maior autonomia para a Catalunha, possivelmente focada numa estrutura plurinacional que se enquadre no federalismo espanhol, disse Santi Vila, um dos três líderes condenados que não foram enviados para a prisão.

Crítico conhecido da agenda secessionista, ele que renunciou ao cargo de conselheiro de negócios do Governo catalão pouco antes da declaração de independência, Vila pediu uma nova eleição na região, algo a que o chefe do Governo regional, Quim Torra, se opõe.

"Parece-me razoável que, quando dois Governos têm esse problema de comunicação... é importante perguntar aos cidadãos se o caminho a seguir está correto ou não", disse Vila, de 46 anos. Embora este também apoie um referendo, diz que o mesmo não deve ser sobre a independência total, mas sobre a atribuição de mais autonomia ao Governo regional.

Os principais partidos de Espanha recusaram-se a realizar um referendo sobre a independência da Catalunha, embora o Governo socialista em exercício diga que está aberto ao diálogo sobre outras questões.

A porta-voz do Governo espanhol, Isabel Celaá, disse que é hora de "começar um novo capítulo político", insistindo que o Governo pretende conversar com os catalães – uma vez mais, respeitando a Constituição.

Diana Riba, que é esposa de um dos líderes ontem condenados, Raul Romeva, disse à Reuters que a campanha pela independência prevaleceria com o tempo.

"Este é um processo muito longo, mas veremos resultados como vimos com o movimento feminista, que cresceu até se tornar massivo e alcançar os direitos que procurava", disse, pedindo que "todos saiam às ruas".

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