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Governador do Banco de Portugal: "Se o estandarte for na direção errada, o exército cai no precipício"

14 out, 2019 - 11:16 • Susana Madureira Martins , Marta Grosso

O aviso é do governador do Banco de Portugal. Carlos Costa alerta para que não se cometam os mesmos erros de 2008 e 2009.

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O governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, alerta para que não se cometam os mesmos erros de 2008 no que diz respeito à despesa pública.

“Para países como o nosso, que não têm margem de manobra sem pôr em risco a sustentabilidade financeira, significa basicamente uma muito maior atenção à qualidade da despesa pública, favorecendo os elementos que promovem o produto potencial e deixando para um segundo momento as despesas que não são dessa natureza”, afirmou o governador, na apresentação de um estudo do Banco de Portugal, sobre crescimento económico, que decorreu no Museu do Dinheiro, em Lisboa.

“Não podemos cometer o erro que cometemos em 2008 e em 2009, que é dar uma indicação para se aumentar as despesas públicas sem olhar à situação de partida de cada um, à sustentabilidade e sem olhar à qualidade da despesa e, portanto, ao impacto no produto potencial”, sublinhou, para depois partir para uma metáfora.

“Se o estandarte e o tambor forem na direção errada e se se aproximarem de um precipício, o exército cai no precipício. Na economia é exatamente da mesma forma: se os sinais de política económica não forem sustentáveis, forem errados, não tenhamos dúvidas de que os agentes microeconómicos vão seguir aquilo que são as indicações, os estímulos, os incentivos da política económica. E no final do dia, quando se chega à fase da insustentabilidade, isto é, à fase em que não se pode prosseguir, a necessidade é travar, debandar e basicamente destruir capital”, descreveu.

E aqui o governador reconhece o papel e a responsabilidade do Banco de Portugal na antecipação de riscos da economia.

“O Banco de Portugal partilha o papel do homem do tambor e do estandarte. Se não formos capazes, pela nossa visão mais longínqua, de antecipar o risco, estamos a conduzir todos aqueles que vão atrás de nós para o mesmo precipício e por isso atribuímos, na passada segunda-feira, grande importância à discussão sobre estabilidade financeira e atribuímos grande importância à discussão sobre política macro-providencial. A política macro-providencial existe para que a miopia de curto prazo não se sobreponha à visão de médio e longo prazo”, explicou.

No seu discurso, Carlos Costa disse ainda esperar que daqui a 10 anos o estado da economia do país seja diferente, “que as condicionantes da economia portuguesa sejam de outra natureza e já estejamos a sofrer as dores do crescimento e não as dores da ultrapassagem da crise”.

“As dores de crescimento são sempre muito mais fáceis de viver até porque são normalmente vividas com grande ambição e grande expectativa no futuro”, acrescentou.

E no que toca às empresas, o governador do banco central defendeu que devem ser criados mecanismos de triagem.

“Quando uma empresa desaparece também desaparece uma parte dessa organização que é capital social. E daí que nós tenhamos necessidade, na economia portuguesa, de ter mecanismos de triagem das empresas, separando entre economicamente viáveis com problemas financeiros e economicamente inviáveis com problemas financeiros”, afirmou.

“E temos de ter possibilidade de possibilidade de salvar as empresas economicamente viáveis que estão com stress financeiro, distinguindo claramente entre a imputação de responsabilidade por créditos concedidos aos sócios, aos credores, à banca e o futuro da empresa", concluiu.

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