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Turquia contra curdos. O que se passa no nordeste da Síria?

10 out, 2019 - 14:27 • Filipe d'Avillez

Confuso com as últimas notícias sobre a Síria? A Renascença ajuda-o a juntar as peças de uma guerra que caminha para o seu nono ano e a entender a invasão turca do nordeste do país.

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A situação na Síria pode ser difícil de acompanhar. Composta por múltiplas realidades, agentes e alianças, em fluxo constante, a guerra civil que destrói o país há mais de oito anos é muito complexa.

Entre curdos, turcos, árabes e siríacos, para não falar de forças externas como russos e americanos, é natural que não saiba muito bem quem é quem nem o que está em causa. Clique nas perguntas abaixo para tirar as suas dúvidas.




Porque é que a Turquia invadiu o nordeste da Síria?

Segundo o Presidente da Turquia, o objetivo era combater os “terroristas curdos” que se encontram do lado sírio da fronteira. A Turquia tem um problema de longa data com a sua própria comunidade curda. Há décadas que o Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK) leva a cabo uma insurreição contra o regime turco, reclamando mais direitos para o seu povo. Ancara afirma que as milícias curdas no nordeste da Síria são uma extensão do PKK e diz temer que a consolidação de uma zona autónoma gerida em larga medida pelos curdos funcione como base de apoio ao ilegalizado PKK.

Depois de “libertar” a área dos seus curdos, Erdogan pretende transferir para o nordeste da Síria milhões de refugiados sírios que se encontram na Turquia, onde procuraram abrigo da guerra civil que começou há oito anos no país. Se o conseguir fazer, esta comunidade servirá de tampão entre a Turquia e os curdos, entretanto empurrados para outras partes da Síria.

Com o acordo alcançado entre a Turquia e a Rússia, e anunciado no dia 23 de outubro, os curdos vão mesmo retirar-se até 30 quilómetros da fronteira turca. Os turcos não ficam, porém, a ocupar o território na totalidade, ficando apenas com as cidades e vilas que já ocupam efetivamente. O resto será garantido por forças do regime, com apoio russo. Não fica claro que se Turquia conseguirá avançar com o seu plano de realojar os refugiados.

Os curdos são terroristas?

É uma frase batida das Relações Internacionais que o que para uns é terrorista para outros é um combatente pela liberdade. A ligação entre as Unidades de Proteção Popular (YPG) e o PKK é clara e os soldados curdos na Síria fazem pouco para a disfarçar, ostentando nos seus gabinetes e bases imagens do líder e fundador do PKK, Abdullah Ocalan, que está preso desde 1999.

Por outro lado, as YPG, juntamente com outros grupos militares que, juntos, formam as Forças Democráticas da Síria (FDS), têm sido aliadas fundamentais do Ocidente no combate ao autoproclamado Estado Islâmico, que foi derrotado territorialmente este ano. Milhares de membros das FDS – na sua maioria curdos – morreram nos combates ao Estado Islâmico e são os seus soldados que guardam as prisões onde cerca de 12 mil destes terroristas – dois mil dos quais ocidentais – estão detidos.

Existia o receio de que os terroristas seriam libertados, ou consiguissem fugir, no decurso da invasão e ocupação turca. O facto de os turcos, e as milícias por eles apoiadas, não terem conseguido avançar tanto como seria de esperar limitou essas preocupações, mas ainda assim registaram-se fugas de alguns militantes e, sobretudo, de familiares que estavam a ser alojados em campos de refugiados. Com o acordo alcançado entre Moscovo e Ancara é natural que as prisões passem para as mãos do regime, mas isso ainda não foi confirmado.

O que são as Forças Democráticas da Síria?

É frequente falar deste conflito como opondo apenas soldados turcos e curdos, mas não é bem assim.

As YPG são apenas a parte principal das FDS, que incluem ainda milícias cristãs como o Conselho Militar Siríaco e a Brigada do Mártir Nabur Oznayan, composto por arménios, e também forças das tribos árabes locais e de outras minorias, como os turcomanos e até chechenos.

Erdogan comprometeu-se a defender as minorias religiosas, incluindo os cristãos, mas já existem relatos de bombardeamentos a aldeias e cidades com grande presença cristã, como Qamishli. Ironicamente, a maioria dos cristãos que vive no nordeste da Síria migrou para lá no início do século XX, fugindo precisamente da perseguição que lhes foi movida pelos turcos.

O acordo entre a Rússia e a Turquia prevê apenas a retirada das YPG curdas, mas sem estas as restantes milícias não-curdas perdem força e influência na região, mesmo que lhes seja permitido permanecer enquanto grupo armado.



O nordeste da Síria não está sob o domínio do regime de Bashar al-Assad?

No início da guerra civil, as forças de Assad retiraram de toda a zona e as comunidades locais tomaram o seu destino nas próprias mãos. Ao longo dos anos consolidou-se um sistema assente no respeito pelos direitos das diferentes comunidades religiosas e étnicas. Cristãos, árabes e curdos, todos se fazem representar nos órgãos políticos, com igual presença de homens e mulheres. A região não pedia independência, mas reivindicava um estatuto de autonomia dentro da Síria, um pouco como o Curdistão iraquiano.

O sucesso desta experiência democrática preocupa o regime de Assad, que teme que inspire outras partes do país a pedir o mesmo. Ao longo dos vários anos da guerra, e com o apoio da Rússia e do Irão, o regime sírio tem conseguido recuperar a quase totalidade do território, exceto partes do norte, junto à Turquia, para onde têm sido empurrados grupos rebeldes, gozando da proteção de Ancara.

Em relação ao nordeste, enquanto Damasco e as FDS estavam a combater um inimigo comum - os grupos rebeldes de inspiração jihadista - evitaram sempre entrar em conflito e enquanto os americanos apoiavam as FDS estas estavam protegidas contra qualquer ação do regime.

Todo o caso mudou de figura a partir do dia 13 de outubro quando, abandonados pelos americanos, os curdos e seus aliados se viram obrigados a pedir ajuda às forças do regime, sabendo que esse acordo poderia pôr em causa todo o projeto de autonomia. Nas palavras dos líderes da região, a prioridade era travar os ataques turcos. O acordo alcançado entre Putin e Erdogan, que efetivamente divide o nordeste da Síria entre zonas ocupadas pela Turquia e outras ocupadas pelo regime sírio, com o apoio da Rússia, põe fim, na prática, ao projeto de autonomia e devolve à Síria o controlo sobre a maior parte do território. Mais, o acordo acaba por implicar o reconhecimento implícito do regime de Damasco por parte de Erdogan, o que constitui uma importante vitória diplomática para Assad.

O regime sírio vai ajudar os curdos?

Damasco começou por vociferar muito contra a incursão turca, mas na verdade tinha pouco interesse em entrar em conflito com a Turquia, muito menos para defender uma zona do país que desafia a sua autoridade. Contudo, após o abandono americano os curdos viram-se forçados a chegar a um acordo com Assad, acordo esse selado no dia 13 de outubro. Com base neste acordo a Síria começou a avançar para as cidades pretendidas pela Turquia. Sendo a Síria apoiada pela Rússia e pelo Irão, esta decisão provoca uma mudança em todo o cenário.

Na prática, e como se temia, o acordo com o regime acabou por conduzir ao fim do projeto de autonomia do nordeste da Síria. Nas palavras de um jornalista e ativista curdo, "para proteger o nosso povo vamos fazer um acordo com demónios".

E a Rússia e o Irão?

A Rússia, que apoia Assad, instou os curdos a dialogar com Damasco para chegar a um entendimento. Enfraquecidas com a saída dos Estados Unidos e a ocupação turca, as Forças Democráticas da Síria não tiveram grande margem de manobra e chegaram a esse acordo no dia 13 de outubro. As forças sírias, com o apoio militar da Rússia, começaram a avançar para as cidades pretendidas pela Turquia.

No dia 23 de outubro, já com os americanos fora de cena, Vladimir Putin e Erdogan chegaram a um acordo que na prática divide a zona em disputa entre a Turquia e a Síria, com o apoio de Moscovo. Os curdos são obrigados a retirar.

As relações entre Moscovo e Ancara são complexas. Se, por um lado, tem havido uma variedade de incidentes entre os dois países, com a Turquia a abater aviões russos, o embaixador russo a ser assassinado na Turquia e a Rússia a assumir a responsabilidade de matar soldados turcos na Síria, a verdade é que a diplomacia acabou sempre por triunfar. Mais forte dos que aquilo que os divide, nomeadamente a posição em relação ao regime sírio, parecem ser os laços comerciais que os unem, incluindo o sistema de mísseis que Moscovo vendeu recentemente a Ancara.

No final de contas o acordo entre os dois países acabou por agradar a ambos, bem como ao regime sírio, sacrificando no processo os curdos e as milícias pró-turcas.

Já o Irão apoia Assad, mas tem pouco em comum com os curdos. Manterá esse apoio ao regime, mas para além da retórica não deverá desempenhar um papel muito ativo num eventual combate contra a Turquia.

A possibilidade de um conflito direto entre forças russas e turcas chegou a ser muito preocupante, uma vez que a Turquia faz parte da Nato, mas esse cenário parece agora fora de questão.

A comunidade internacional não diz nada?

Alguns países europeus já se manifestaram contra a invasão turca, mas enquanto bloco, a União Europeia está numa posição complicada.

Para além de não ter capacidade de poder ajudar as Forças Democráticas da Síria no terreno, Bruxelas sabe que Erdogan é bem capaz de cumprir a sua promessa de deixar passar os mais de 3,6 milhões de refugiados que se encontram no seu país para a Europa, caso esta condene o ataque. Este cenário preocupa muito a União Europeia.

Contudo, vários estados, tanto da UE como de fora, já condenaram os ataques turcos. Entre estes incluem-se França, Itália, Noruega, Alemanha, Estados Unidos e até a Arménia, que tem uma rivalidade histórica com a Turquia. Portugal, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, manifestou "preocupação" de que a invasão turca comprometa o combate ao Estado Islâmico. A Alemanha veio mais tarde propor uma zona desmilitarizada, mas foi demasiado tarde, uma vez que agora nenhuma das forças no terreno tem o menor interesse em aplicá-la, à exceção dos curdos que sem o apoio da Rússia não têm margem de manobra.

A Liga Árabe também já se manifestou, condenando a Turquia pela invasão.



Porque é que Trump abandonou os curdos?

A razão para a retirada dos Estados Unidos, que abriu caminho à incursão turca, é difícil de compreender.

Pessoalmente, Trump tem boas relações com Erdogan e os dois países são importantes aliados na NATO. Mas isso não parece justificar o Presidente sujeitar-se a uma verdadeira onda de críticas, vindas tanto dos democratas como de elementos do seu Partido Republicano, por causa da sua decisão, equiparada a um ato de traição a aliados que ao longo dos últimos anos se revelaram fiáveis, eficientes no terreno e leais ao Ocidente.

Até ao momento, a explicação mais lógica parece ser que Trump simplesmente não queria perpetuar a presença americana na região. Desde Obama que os americanos têm mostrado grande relutância em interferir na Síria. Ficou famoso o momento em que Obama parecia prestes a atacar Assad por causa das armas químicas, mas uma aparente "gaffe" do seu secretário de Estado permitiu à Rússia entrar em jogo e frustrar as intenções americanas, consolidando a sua presença no país.

Os americanos, mais focados no Iraque, acabariam por apoiar as FDS apenas como forma de combater o Estado Islâmico. Mal se percebeu que essa guerra estava bem encaminhada, Trump começou a ameaçar sair do país, mas acabou por retroceder. Desta vez concretizou as suas intenções.

Existe uma corrente de opinião com alguma força nos Estados Unidos que gostaria de ver os soldados a regressar a casa para não se envolverem mais em conflitos que, aparentemente, não lhes dizem respeito. Trump poderá estar com esperanças de marcar pontos com esta base eleitoral, mas corre o risco de perder mais do que ganha, uma vez que a retirada foi lida por muitos como um sinal de fraqueza.

Há uma dimensão religiosa neste conflito?

A religião é um assunto omnipresente no Médio Oriente. Em larga medida, os conflitos regionais podem ser entendidos como fases de uma luta maior entre xiitas e sunitas. Na Síria, por exemplo, a oposição ao regime é composta quase exclusivamente por sunitas, apoiados tanto pela Turquia como pelos países do Golfo, com a Arábia Saudita à cabeça, enquanto o regime está nas mãos de uma minoria xiita – os alauitas.

Assim se compreende melhor que o Irão, a grande potência xiita do Médio Oriente, apoie o regime de Assad, ao passo que a Turquia, que disputa o título de potência sunita com os sauditas, apoia a oposição.

Os curdos, contudo, furam este esquema. Na maioria são sunitas mas, ao contrário dos povos árabes e persas, tendem a relegar a identidade religiosa para segundo plano, dando mais importância à dimensão étnica.

Assim, a invasão do nordeste da Síria por parte da Turquia não tem uma justificação religiosa imediata, embora entre no jogo mais alargado, ajudando os turcos a consolidar a sua influência num país que, neste momento, está a pender mais para o campo xiita.

[Explicador atualizado a 23/10/2019]

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  • Joaquim Santos
    10 out, 2019 Tojal 19:42
    Pois meu amigo o objectivo não és os Curdos. O objectivo é o Irão. É tudo uma questão de tempo. O amigo, Inimigo do Irão, arredou-se para não dizer que apoiava. Este mundo tem memória curta, ou sempre acreditou nos livros de história. A segunda grande guerra foi começada pela URSS. Hitler foi à frente os seus aliados, arredaram-se para saborearem os louros da história. Quando tudo isto acabar, já muitos cá não estarão, para comparar os momentos históricos.