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Prémio Saramago 2019: “Não acredito muito na inspiração"

08 out, 2019 - 15:50 • Maria João Costa

À Renascença, Afonso Reis Cabral explica porque lhe interessam histórias reais como a de Gisberta, a transexual assassinada no Porto, que o inspirou a escrever “Pão de Açúcar”.
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Nasceu para a escrita no dia da morte de Amália Rodrigues. Embora seja trineto de Eça de Queirós, diz que prometeu a si próprio não mais falar disso. Afonso Reis Cabral recebeu o Prémio José Saramago aos 29 anos com o seu segundo livro “Pão de Açúcar”.

Já antes tinha ganho em 2014 o Prémio Leya com a obra “O Meu Irmão”. Em entrevista à Renascença explica porque lhe interessam histórias reais como a de Gisberta, a transexual que foi assassinada no Porto e que o inspirou a escrever “Pão de açúcar”

Como vê este Prémio Literário José Saramago? Poderá dar uma segunda vida ao livro “Pão de Açúcar”?

Para já é uma alegria enorme ser Prémio José Saramago, instituído por Saramago, uma figura tutelar para qualquer escritor. Depois, eu cresci, particularmente na minha adolescência, a ler os livros contemplados pelo prémio e a ler autores que muito admiro, portanto é uma grande alegria. A verdade é que "Pão de Açúcar" não tem tido muitos leitores e, portanto, se o prémio der uma segunda vida ao livro seria uma terceira alegria. Espero que isso aconteça.

Para quem ainda não leu este livro de que forma é que o deve pegar e olhar? Tem uma base real mas trata-se de uma ficção.

Eu acho que se trata essencialmente de uma ficção, porque apesar de ser inspirado num caso real eu quis ter a liberdade de levar a outras consequências, as consequências da literatura. Eu não gosto muito de indiciar o leitor a determinado tipo de leitura, mas tentei fazer uma espécie de anatomia do mal. Como é que se passa da amizade em relação à Gisberta e depois o grupo que era amigo crescer, entrarem outras pessoas, e acontecer exatamente o oposto, a maldade. Esse é o percurso do livro.

A anatomia do mal foi algo que a sua editora Maria do Rosário Pedreira sublinhou também sobre a sua escrita. Porquê este olhar sobre casos que são o pior da natureza humana?

Porque o lado pior da natureza humana coabita com o lado melhor. Um e outro digladiam-se. Essa luta a mim interessa-me muito e é uma luta que de uma certa maneira nós sentimos todos os dias, em ponto pequeno, nas nossas vidas e por vezes quando corre mal, em ponto grande. Explorar essa grande batalha que é a luta entre o bem e o mal interessa-me muito.

Primeiro livro, primeiro prémio: "O meu irmão" venceu o Prémio Leya. Segundo romance, segundo prémio com este "Pão de Açúcar". Isso torna a vida de um escritor difícil?

Não, eu acho que não dá responsabilidade nenhuma. A minha responsabilidade é para com o que eu escrevo e se um terceiro livro for bom, ótimo, se for mau, paciência. As pessoas tropeçam, não é? Depois do Prémio Leya houve um tempo em que estive um bocadinho angustiado. Agora acho que já fiz as pazes com tudo isso, acho que não devo nada, exceto a um livro que eu acho que é um bom livro. Portanto, o terceiro livro depois do prémio Saramago será o que será.

"Se um terceiro livro for bom, ótimo, se for mau, paciência. As pessoas tropeçam, não é?"

Como é que o Afonso Reis Cabral nasceu para a escrita?

Nasceu em outubro de 1999, penso eu, com a morte da Amália. Aliás faz agora, 20 anos porque a Amália morreu no dia 6 de outubro. Por causa dos grandes poetas como David Mourão-Ferreira, Alexandre O'Neill, o próprio Camões e muitos outros como o Pedro Homem de Mello, por exemplo que agora está um bocado esquecido, mas que ouvi na voz da Amália. Eles despertaram-me para a poesia e comecei a escrever poesia e depois fui passando para a prosa, porque não era poeta.

Sempre esteve ligado aos livros?

Sobretudo por uma veia profissional, porque eu tenho uma licenciatura e mestrado em estudos portugueses e depois comecei a trabalhar em editoras. Hoje em dia continuo a ser editor freelancer para a Imprensa Nacional, mas ocupo a esmagadora maioria do meu tempo com a escrita que é, espero eu, a minha vocação. Quando se tem uma vocação é preciso corresponder.

Como é a sua oficina de escrita?

Eu não acredito muito na inspiração. Acho que a escrita é trabalho, um ofício também. Claro que há momentos muito bons de inspiração e há muitos momentos especialmente maus. Portanto, chego ao escritório que tenho com amigos pelas 9h00 e saio ao fim do dia.

É garantido que o que escreve é para apagar, ou não?

Acho que é garantido que é para apagar! A primeira versão nunca é garantida, nunca é boa. A primeira versão de um capítulo pode surgir de rompante em 15 minutos – alguns capítulos de "Pão de Açúcar" foram escritos em 15 minutos –depois o trabalho a sério demora muito mais.

Nesse trabalho da escrita o que lhe interessa mais são as histórias?

Eu acho que isso é um certo equívoco que ainda há na literatura portuguesa. Uma coisa é completamente indissociável da outra. Não é preciso descurar o trabalho da linguagem em favor da história. Uma coisa leva a outra. Para mim, por outro lado, quanto mais simples melhor porque a simplicidade não esconde nada, a simplicidade dá a ver.


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