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​“Comovidos e gratos”. Évora despediu-se hoje dos seus monges cartuxos

09 out, 2019 - 02:04 • Rosário Silva

A abertura da clausura e o acesso aos jardins levaram muitas pessoas a deslocar-se ao mosteiro, no dia em que Évora se despediu dos seus quatro monges.
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Ainda faltava uma hora para o início da eucaristia e já uma tranquila agitação tinha transposto os portões da Cartuxa. A abertura da clausura e o acesso aos jardins levaram muitas pessoas a deslocar-se ao mosteiro, no dia em que Évora se despediu dos seus quatro monges. Mas foram mais, ainda, os que vieram de muitos lados e resistiram quase duas horas de celebração eucarística, com muito calor, em pé, sentados no chão ou nos poucos bancos existentes na igreja.

Foi o culminar de várias semanas de inúmeras manifestações de carinho e de solicitações dos meios de comunicação que surpreenderam, até, os próprios monges.

“Nós não esperávamos isto, e estamos surpreendidos, comovidos, gratos e contentes por esta reação, não só da cidade, mas de Portugal. Foi uma coisa inesperada”, confessou à Renascença o padre Antão Lopez.

O “rosto afável” da Cartuxa na cidade, leva consigo “muitas saudades e lembranças”, afinal, foram 55 anos em que permaneceu no mosteiro de Évora.

“Todos os cartuxos são simpáticos”, afirma, “as pessoas é que têm uma ideia um pouco falsa dos cartuxos. A minha mãe, que conheceu toda a vida diferentes superiores, comentava que não existia mais ninguém com motivos para estar alegre do que nós, pois esperamos a vida eterna.”

O sacerdote vai, a partir do final do mês, altura em que os monges partem para Espanha, viver uma “vida verdadeiramente cartusiana, com mais descanso”, fazendo votos que o mosteiro Scala Coeli volte a acolher, “logo que possível”, a nova congregação, anunciada esta terça-feira pelo arcebispo de Évora.

A missa contou com a presença de um número considerável de irmãs do Instituto das Servidoras do Senhor e da Virgem de Matará, o ramo feminino da Família Religiosa do Verbo Encarnado.

A congregação, fundada em 1988, na Argentina, conta com cerca de 1.350 irmãs, espalhadas pelo mundo, com vocação missionária. Mas estas religiosas têm, também um ramo contemplativo de 186 monjas, em 16 mosteiros. São, precisamente, estas religiosas de clausura que vão ocupar a Cartuxa eborense.

“Para nós é uma graça poder vir, aqui, para a Cartuxa de Évora, mas também é uma grande responsabilidade, não só pela dimensão do mosteiro, mas sobretudo, por dar continuidade a essa grande espiritualidade que os cartuxos viveram em todos estes anos”, referiu, no final da cerimónia, a irmã Maria de La Contemplación, Provincial da congregação, em Espanha.

Sem adiantar o número ou uma data para a chegada das monjas de clausura, a superiora deixou um pedido: “A todos os portugueses peço orações para que, também, nós possamos dar aqui frutos de santidade e de vida eterna, como dizem os cartuxos”.

Na mesma linha, as palavras do arcebispo de Évora. D. Francisco Senra Coelho definiu a Cartuxa como uma “casa coração”.

“Há um sentimento de profunda gratidão pelo grande testemunho que os monges cartuxos nos souberam legar e sentimo-nos herdeiros desse testemunho de valorização dos seres humanos”, salientou, recordando que “a esta porta bateram, pessoas com todo o tipo de problemas, pessoas com diversas origens culturais e com diversas compreensões idiossincráticas.”

Por tudo isto, sublinha o prelado, é “esta casa de ternura e de afeto que nos compete levar para a frente no mesmo testemunho de humanidade e serviço a cada pessoa no seu concreto e no seu contexto”.

Para D. Francisco Senra Coelho, “é uma herança que nos pede gratidão, a estes homens que viveram no silêncio gratuito, porque nunca cobraram nada em troca, nunca fizeram proselitismo e nunca pediram que ninguém se convertesse”.

O arcebispo recordou, ainda, o retiro que fez na Cartuxa, onde passou uma semana, antes de ser bispo. “Quando se tocava o sino do portão desta clausura, aparecia um monge que simplesmente ouvia, comungava a realidade humana e prometia oração diante de Deus.”

Uma gratidão, prosseguiu, que se funde “com um grande sentido de responsabilidade de que este pulmão de espiritualidade, de que esta casa de ecologia perdure”.

“Ficamos com um molho de chaves na mão. É um molho de chaves pesado, que quero partilhar com as irmãs Servidoras do Senhor e que vêm povoar esta casa para que seja um silêncio habitado e fecundo”, acrescentou.

“Estamos com esperança de que a Cartuxa de Évora manterá sempre esta dimensão de profunda humanidade que é a comunhão mais íntima de corações, na sede de esperança que todos levamos em nós”, concluiu.


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