Prémios “Legislativas 2019”

A freguesia mentalista, o “partido da Rede Expressos”, coisas do tempo da outra senhora e liberais da Estrela

07 out, 2019 - 18:44 • Rui Barros , Tiago Palma

Os real-dumenses-semelhenses acertam na mouche. Já os de Morgade, por causa do lítio, nem lá metem os pés. Os de Perelhal, tensos, votariam em branco. Erada até já foi mais de se abster do que o que é. Lá para cima, em Boticas, o PSD foi um rolo-compressor de socialistas. Já Boalhosa é o orgulho de Assunção Cristas. Mais? Há a extrema-direita à sombra de uma azinheira e a esquerda “verde” no pasto açoriano. Eis os vencedores dos prémios “Legislativas 2019”.
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Prémio “Nostradamus”

União das Freguesias de Real, Dume e Semelhe. Se tinha que ir ali fazer não-sei-quê e, portanto, não tinha tempo (ou só paciência) para acompanhar a longa noite eleitoral até que se apanhassem as canas, o melhor mesmo – e arrumava-se logo com o assunto e as delongas – era ir ver o resultado desta freguesia.

Do concelho de Braga e com, mais coisa menos coisa, 11.700 real-dumenses-semelhenses (perdoem-nos se não for mesmo este o gentílico), a freguesia registou um desvio médio dos resultados nacionais de 0.34 – menos até do que a ”Sondagem das Sondagens” da Renascença. E acertou, com uma margem de erro de 0,1%, os resultados de 10 dos 21 partidos que se apresentaram a eleições lá.

O maior “falhanço” aconteceu com o resultado do Bloco de Esquerda, mas o Bloco não levará a mal: os habitantes de Real, Dume e Semelhe deram 13.8% ao partido de Catarina Martins, quando a nível nacional este teve 9.67%.

Prémio “E não é muitos, e não são poucos: bastantes”

A estante Billy lá da freguesia já começa a vergar com o acumular de prémios de abstencionista (já o haviam sido nas europeias também; nestas legislativas voltam a repetir o feito) dos morgadenses. Esta pequena freguesia do distrito de Vila Real foi o local em que se registou a maior taxa de abstenção do país: 97,85%.

A não ida às urnas está associada a um "voto de protesto" contra a instalação de uma mina de lítio a céu aberto em Morgade.

Na freguesia que quer mais é que vão extrair esse minério para onde o diabo perdeu as botas, a distribuição de votos foi, no entanto, bastante equitativa. 50-50. Três votos para o PS, outros três para o PSD.

Prémio “Neo Blanc Gentil”

Se não ir votar é coisa de morgadenses, em Perelhal, Barcelos, protesta-se indo à urna e deixando lá coisa nenhuma (ou válida – que cada um desenha lá o que mais lhe aprouver) riscada no boletim: foram mais os que votaram branco/nulo do que aqueles que votam num partido. Repetindo a “façanha” das europeias, a freguesia contabilizou 507 votos nulos e é aquela que regista maior percentagem de votos assim (ou brancos, que também os houve) do país.

A população de Perelhal manifesta-se contra a passagem de uma linha de muito alta tensão na freguesia e, por isso, tem adotado esta forma de protesto. Foi também a freguesia em que os votos brancos e nulos mais cresceram.

Mas este prémio só vai para distrito de Braga porque estamos a falar de percentagem de votos brancos e nulos no total da votação da freguesia.

Se o prémio viesse a ser atribuído em termos absolutos, Algueirão-Mem Martins, em Sintra, seria o vencedor. A freguesia que mais votos deu ao partido de extrema-direita Chega foi também aquela onde mais se registaram votos brancos, e nulos, no país.

Prémio “Até já fui mais abstencionista do que o que sou”

Erada, freguesia da Covilhã, foi a freguesia do país em que a abstenção mais desceu face a 2015. Então, a abstenção nesta freguesia rondava os 66,41%, ao passo que este ano foram 42.51%.

Numa eleição onde a abstenção nacional bateu mais um recorde, Erada poderia ser apontada como um “case study” para a Comissão Nacional de Eleições. Só que não.

Não, o sucesso do combate à abstenção não se deve às campanhas de sensibilização para a importância de ir votar. É que em 2015 a população estava contra o fecho da escola primária e a transferências de 17 crianças para a aldeia vizinha do Paúl.

Resignados os abstencionistas eradenses, em 2019, conta-nos o “Público”, a escola já só serviu para votar.

Prémio “Quinze-a-zero”

Rui Rio considerou que o resultado do PSD não foi assim tão mau. Muitos estranharam o discurso quase vitorioso na derrota. Não estranhem: Rio olhou, na certa, mais para a árvore do que para a floresta.

A verdade é que, e olhando freguesia a freguesia, houve mesmo freguesias onde os sociais-democratas se revelaram um autêntico “rolo compressor” de socialistas.

A saber: quase 80% dos eleitores em Codessoso, Curros e Fiães do Tâmega, no concelho de Boticas, Vila Real, votaram no PSD. É o valor mais alto que o partido conseguiu a nível de uma freguesia.

No "top 10" dos resultados mais expressivos, quase todos são do PSD. A exceção é Negrões, que deu 77,45% aos socialistas, e Boalhosa, Ponte de Lima, onde o CDS-PP teve 75,34%.

Prémio “Twilight Zone”

Todas as freguesias do prémio “Quinze-a-zero” vivem certamente em quintas dimensões que acabam por estar mais longe do que perto da realidade. Mas é na já referida freguesia de Boalhosa, na fronteira de Ponte de Lima com Vila Verde, que se vive a maior distorção da realidade.

O CDS-PP teve 75,34% dos votos nesta freguesia de um concelho tradicionalmente centrista - um desvio de 71,09 pontos percentuais face à votação nacional do partido de Assunção Cristas. Em Boalhosa, não há “partido do táxi” para ninguém; alugue-se um autocarro da Rede Expressos para os boalhosenses irem ao Largo do Caldas receber outro galardão: o prémio “Amaro da Costa”. Já não vai é ser Cristas a entregá-lo, certamente.

Prémio “Nunca tantos foram tão poucos”

É verdade que nas legislativas o que importa é mesmo a quantidade de deputados que se elege - é isso que vai ditar a força do partido na Assembleia da República. Agora, se o sistema eleitoral se baseasse numa lógica de freguesias… o parlamento português seria muito diferente.

De acordo com a análise de dados da Renascença, o PS venceu em 1.881 freguesias e o PSD em 1.197. A coligação PCP-PEV é a terceira força política a ganhar mais freguesias, seguida do CDS-PP. Mas entre os partidos que ganharam em freguesias, há um que não elegeu qualquer deputado: foi o Juntos Pelo Povo, que venceu em Gaula e em Santo António da Serra, na Madeira.

Prémio “No tempo da outra senhora”

Sem as lantejoulas e plumas da Deborah Kristal nem um “playback” da Gloria Gaynor, é tempo do lugar aos novos. A Assembleia da República vai acolher três novos partidos: o Iniciativa Liberal, o Livre e o Chega. Assim sendo, a Renascença resolveu atribuir um prémio às freguesias que mais ajudaram a eleger João Cotrim Figueiredo, Joacine Katar Moreira e André Ventura.

Comecemos precisamente por ele, Ventura. O discurso anti-sistémico da extrema-direita ecoou bem em Póvoa de São Miguel, concelho de Moura, na região do Alentejo. A freguesia a cerca de 20 quilómetros da barragem de Alqueva foi aquela onde o Chega registou a maior percentagem de votos: 15,74%.

Se olharmos ao total de votos, Algueirão-Mem Martins, a freguesia com mais votos brancos e nulos do país, foi também a que mais contribuiu para eleger um deputado da extrema-direita.

Prémio “O nosso amor é verde”

Caveira, Açores. Não foi propriamente o círculo eleitoral no qual o partido fundado por Rui Tavares mais apostou, mas foi lá que o partido da esquerda “verde” (assim se denomina) recém-eleito registou a maior percentagem de votos: 10%. Para tal, bastaram três votos, numa freguesia em que votaram somente 35 dos 66 registados.

Contudo, se o ângulo for o número total de votos, aí a aposta no círculo eleitoral que elegeu Joacine Katar Moreira acaba por fazer mais sentido. Arroios, União das freguesias de Oeiras e São Julião da Barra, Paço de Arcos e Caxias, e Lumiar foram as freguesias que mais votos deram à nova força parlamentar.

Prémio “Mão invisível (que por acaso até deposita votos nas urnas)”

A Iniciativa Liberal, de Carlos Guimarães Pinto, é alfacinha - mas uma alface privada, não uma alface do Estado - e, portanto, registou a sua melhor percentagem de votos na freguesia da Estrela (7,04%), seguida das Avenidas Novas (6,70%) e Santo António (6,44%), todas em Lisboa.

No entanto, se for tudo uma questão de votos, nem foi onde teve melhor percentagem que se registou o maior número de votos nos liberais. Esse prémio vai para a freguesia do Lumiar. Onde? Em Lisboa, claro.



Os dados na base desta análise foram recolhidos do site da Secretaria Geral do Ministério da Administração Interna.

O código para a sua recolha, bem como a sua posterior análise, podem ser consultados aqui.

Os dados por freguesia para as eleições de 2014 e 2019 estão disponíveis no Portal de Dados Abertos da Renascença.

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