Opinião de Graça Franco
A+ / A-
Opinião

O melhor comentador político

07 out, 2019 • Opinião de Graça Franco


É um descanso saber que Marcelo se estava a preparar para isto há pelo menos cinco meses. Melhor do que o Centeno de Costa só mesmo Marcelo, para garantir que, mesmo que venha (como virá) a crise e mesmo que ela seja o diabo, o Presidente sabe bem o que se espera dele.

Marcelo voltou a provar-se o melhor comentador nacional: ainda ninguém tinha digerido os resultados das Europeias e já ele se mostrava preocupado com “uma forte possibilidade de haver uma crise na direita portuguesa nos próximos anos”. Aí está ela. Com o CDS a conduzir o próprio táxi onde cabem todos os eleitos, o PSD de Rio abaixo da média das sondagens e a fazer até do resultado de Santana um resultado melhor e, como se isto não bastasse, o Iniciativa Liberal e o Chega a atingirem a meta.

Assunção Cristas não tinha outro remédio e demitiu-se na hora. Para quem conheça o partido, não espanta que, umas horas depois, à Renascença, Abel Marques Santos, da tendência Esperança em Movimento, já estivesse a elencar vários nomes para a possível sucessão. Sabe-se que na fila está também Rodrigues dos Santos (o “Chicão”, como lhe chamam na JP), adepto de um forte regresso a uma redefinição ideológica mais conservadora, ou João Almeida ou Filipe Lobo d’Ávila. Todos espreitam oportunidades. Prudentemente, Diogo Feio veio já, também em entrevista à Renascença, limitar o leque de potenciais sucessores aos cinco deputados eleitos, mas não é garantido que a sua tese saia ganhadora.

O partido, que já tinha demorado a reagir à morte de um dos seus fundadores, perante os encómios de toda uma nação, gera destas ironias. Assunção Cristas serviu para descolar de Passos, recentrar o partido e fazer oposição a sério (e praticamente sozinha) por mais de dois anos. Mas não há gratidão na política. O partido não a teve com Freitas nem terá com Assunção.

Pelo contrário, Rui Rio, que falhou todas as promessas, só acedeu a ponderar sobre o resultado obtido declarando que, “não sendo a tragédia anunciada”, até nem fora mau. Rio acabou abaixo dos máximos das sondagens e não acima, teve a pior percentagem dos últimos 36 anos e ainda menos votos do que Santana Lopes, para já não falar de ter agora menos 12 deputados do que os herdados de Passos Coelho depois de um período de uma austeridade sem memória mas em que acabou a ganhar as eleições.

Rio sairá de cena? Diria que é pouco provável e mesmo reconhecendo o mérito de corrigir a deriva direitista para a genuína social-democracia, com um plano de contas certas tão bom ou melhor que o de Centeno, a verdade é que teve duas semanas de campanha a recuperar de praticamente dois anos a fazer-se de morto, sem se perceber sequer ao que vinha e o que queria.

E agora, o que resta?

Um enorme vazio à direita com um voto esfrangalhado a fugir para um santanismo que já nem Santana consegue eleger, um liberalismo que bebe do “passismo” com um toque politicamente correto de libertinagem (drogas, prostituição, eutanásia e o que mais houver para fraturar) e, claro, o maior e mais perigoso dos epifenómenos: a deriva extremista e aventureira de André-Ventura, um ex-candidato a autarca de Loures.

Ventura já mostrou saber que vai colocar o extremismo na gaveta para, numa primeira fase, jogar forte nos valores conservadores, que em Portugal só são defendidos a medo e às escondidas. A coragem de André em ir contra o politicamente correto, se se mantiver no cumprimento da Constituição (e tiver o cuidado de evitar derivas xenófobas, racistas, anti-feministas, etc…) parecerá apenas inócua. Os ovos das serpentes vão-se fortalecendo assim, confundindo-se em tudo com ovos de inocentes passarocos.

Não quero difamar Ventura nem fazer-lhe processos de intenção, mas pelo que já disse, antes de começar a medir as palavras, faz temer o pior: "Daqui a oito anos seremos o maior partido!" Soa mais a ameaça do que a previsão. O Vox, aqui ao lado, já mostrou o que vale e para onde vai. Não estamos livres do mesmo.

E, finalmente, a esquerda ganhadora: o PCP perdeu, em percentagem, em número de votos e, pelo menos, cinco lugares. Está tudo dito, exceto uma coisa óbvia. Agora, os acordos serão caros e “à la carte”, não vai haver cheques em branco para ninguém.

O Bloco desceu em percentagem de votos, mas manteve os mandatos. Conclusão: o eleitorado não penalizou, mas também não se entusiasmou excessivamente com o BE. Quem sabe, até, a doçura inicial das críticas a Costa tenha travado um crescimento esperado bem maior. Quando na campanha a líder pretendeu alterar o tom, já foi tarde demais.

O PAN, além dos recém chegados Livre, Iniciativa Liberal (IL) e Chega, é talvez o único que tem razões para festejar. O grupo parlamentar quadruplicou e ambiciona, agora, saltar da equipa B para a equipa A. O problema é que ao seu programa pode aplicar-se, com propriedade, a velha consigna: o que parece bom não é exequível e o que é exequível não parece bom. Em 1.200 propostas, de base sobretudo “animalista”, vendidas depois como predominantemente ecológicas, encontra-se também muito disparate e a impreparação para governar supera os mínimos da decência.

Falta avaliar o PS. Queria a maioria absoluta, mas não conseguiu, para já, desembaraçar-se dos “empecilhos” (como lhes chamou Carlos César) dos últimos quatro anos.

Como dizia Marcelo em maio, “o PS fortaleceu a sua posição” podendo vir a ter “diferentes possibilidades” para formar maioria, além de PCP e BE, numa alusão ao PAN. Com a chegada do Livre e até da IL, quem sabe se o leque se alargou ligeiramente.

“Portanto, como Marcelo dizia, há uma forte possibilidade de haver uma crise na direita portuguesa nos próximos anos. Isto, para ser muito realista, explica por que é que o equilíbrio de forças está como está. E um bocadinho também por que é que o Presidente, pelo menos neste momento, é importante para equilibrar os poderes”.

Como se escrevia na Renascença, então, Marcelo Rebelo de Sousa, que “veio da direita”, acrescentou que, “com um Governo forte de centro-esquerda e uma oposição de direita fraca, cabe ao Presidente, não equilibrar, porque não pode ser oposição a nenhum Governo, é claro, mas ser muito sensível e sentir que é preciso ter um equilíbrio no sistema político”.

É um descanso saber que Marcelo se estava a preparar para isto há pelo menos cinco meses. Melhor do que o Centeno de Costa só mesmo Marcelo para garantir que, mesmo que venha (como virá) a crise e mesmo que ela seja o diabo, o Presidente sabe bem o que se espera dele. Até talvez demais.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Jorge Graça
    08 out, 2019 09:31
    Julgo que não há nem nunca houve uma direita portuguesa. Há sim uma disputa ao centro, onde os partidos de poder se colam a um conceito de social-democracia, assente em tendências pontuais que permitem governar. Portugal não tem sequer pessoas, elites, conceitos ideológicos que lhe permita construir uma concepção de direita. Com uma população que vive num limiar de sobrevivência por força de um rendimento limitado, assente no crédito ao consumo, apenas poderão restar pequenas franjas que nada tendo a perder se poderão rever num partido que espelhe as suas frustrações. Mas isso não é direita sequer, pois não há qualquer ideologia construída e assente em pressupostos estruturantes. Tenho até dúvidas se existe mesmo uma democracia cristã em Portugal. Julgo que nem isso existe no nosso horizonte político. Não temos mesmo figuras de direita. São apenas meros pontos de apoio da política feita ao centro.
  • Nuno Xavier
    07 out, 2019 20:32
    Para uns é surpresa, para OUTROS é a confirmação. Há uns três/quatro anos um amigo entre várias outras Pessoas dizia-me, dizia-nos, vai aparecer aí um Indivíduo que vai dar que falar na política. Apareceu e já deu muito para se falar Dele. Aventureiro? Arrogante?, não sei bem o que é ou o que será, o certo é que NINGUÉM falava Nele e esse meu amigo já o PREVIA nestas andanças. Perdeu uma mas já ganhou outra, a de ontem, embora sem o meu QUERER. Não se admirem que a ONDA Dele vá aumentando, eu espero que seja uma onda de ESPUMA, mas não acredito. Acredito, isso sim, que vá aumentar pois como isto está vai tudo correr-lhe de feição. Com a ABSTENÇÃO a disparar para cima e com o desagrado de quem já começa a ficar FARTO destas CARAS, não me admiro que Ele cresça. Vejamos as CARAS dos que perderam e também dos que ganharam. As caras são as mesmas de há ANOS. Há um ditado que diz " O QUE É DEMAIS, É MOLÉSTIA ". Quando as pessoas se ETERNIZAM estão sujeitas ao INCONFORMISMO de outras. Tudo na vida não é eterno e como tal a própria VIDA encarregasse de interromper esse SENTIMENTO. Quando MILITAVA no meu Partido ( único desde 1975), aconselhava e defendia a RENOVAÇÃO, umas vezes era aceite, outras não, mas hoje há quem me diga " tinhas razão ". Pois é, hoje é tarde. Por várias razões e pela razão que Ele acha que tem, Ele aí está e agora esperem para ver o que Ele vai fazer, pois eu já estou avisado e como tal já me VACINEI. Aos PERDEDORES desejo-lhes BOA SORTE e JUÍZO POLÍTICO.