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Entrevista a D. Tolentino Mendonça

​“As diferenças de sensibilidade na Igreja nunca foram um problema. São uma riqueza”

04 out, 2019 - 07:50 • Ana Catarina André

É o quinto cardeal português e o terceiro eleitor, mas Tolentino Mendonça vê-se como “mais um trabalhador” no colégio cardinalício. “Não é uma questão de peso político, de fazer lobby por isto ou por aquilo”.
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Este sábado, D. Tolentino Mendonça é feito cardeal. Aos 53 anos, o arcebispo madeirense que o ano passado foi nomeado arquivista e bibliotecário da Santa Sé torna-se um dos mais jovens do colégio cardinalício. Em entrevista à Renascença, na residência onde vive em Roma, disse que na forma de ser do Papa Francisco “há uma pulsão nítida do evangelho” e sublinhou que na Igreja “o mais importante é convergir no essencial”

Consigo, Portugal passou a ter cinco cardeais, três deles eleitores. Portugal fica em contracorrente num colégio cardinalício onde o Papa tem reforçado a presença de cardeais não europeus?

Essas contabilidades são uma visão desinteressante do que é, por exemplo, o ato da escolha de um Papa. O que é que um cardeal eleitor pode fazer? Tem de escutar a sensibilidade da igreja. Tem de se abrir ao Espírito Santo. Tem de fazer uma auscultação profunda do que são as necessidades. Não é uma questão de peso político, de fazer lobby por isto ou por aquilo. É uma coisa muito mais profunda e muito mais séria e comprometedora que é no fundo descobrir aquilo que nos Atos dos Apóstolos é bem claro: o protagonista da igreja em cada tempo é o Espírito Santo. Não são os homens. É o Espírito Santo que conduz a igreja. E isso o que é que pede de nós? Uma humildade muito grande, um desapego grande, uma capacidade de ler os sinais dos tempos, uma capacidade de ouvir, uma dimensão comunitária da vida da igreja. Para mim um dos mais belos elogios que se pode fazer a alguém é dizer que aquela pessoa é mais um. É mais um trabalhador, mais um escritor, mais um filho, é mais um pai, é mais um. É essa beleza da vida comum que pode ser o sal da terra, que pode ser o fermento. Caso contrário, o perigo do mundanismo de que fala o Papa Francisco torna-se de facto uma ameaça muito grande e contamina se as nossas contabilidades se deixam levar por outros critérios.

A revolução de Francisco de que tanto se falou no início do seu pontificado está em marcha?

Não sei se ele começou uma revolução. Ele começou um ministério, uma missão de conduzir os irmãos, de manter a unidade, de ser o elo de ligação, de ter múnus, de ter o poder de conduzir e de iluminar a igreja. Isso não há dúvida que o Papa Francisco tem feito com um sentido de entrega extraordinária. Ver como este homem se gasta, como ele procura à sua maneira, porque cada um tem a sua maneira é belo. Na sua forma de ser, de estar, de conduzir a igreja, de a abraçar, há uma pulsão do evangelho tão nítida, que penso que a igreja do nosso tempo tem de estar muito grata a Deus por este Pedro que lhe deu que é o Papa Francisco.

Nesse sentido pode dizer-se que é belo o Papa falar de um risco de cisma referindo-se aos críticos?

O Papa disse que não tinha medo que é uma coisa diferente. Um pai não tem medo. O que se espera de um pai ou de um guia é que ele não tenha medo. É essa confiança que nos mantém unidos, mesmo no meio das dificuldades, das incertezas, porque este momento da história é de enorme transformação. No meio disto tudo, manter a confiança é uma coisa muito, muito importante. O Papa Francisco é alguém que de facto inspira confiança. Quanto ao resto ele é muito claro e repetindo as palavras de Jesus pede que todos sejam um. A Igreja tem dois mil anos de história. É uma comunidade muito polifónica, com sensibilidades espirituais muito diferentes. As diferenças de sensibilidade nunca foram um problema. São uma riqueza, uma expressão pneumática da natureza da igreja, da expressão do Espírito Santo. O importante é convergir naquilo que é essencial sabendo que a igreja se mantém unida à volta de Pedro.

O Presidente da República convidou-o para presidir às comemorações do 10 de Junho no próximo ano. Mais do que a pensar no que vai dizer, já começou a fazer poesia sobre isso?

Como imagina estes últimos meses têm sido de uma intensidade tão grande. Ainda tem de passar o Outono, o Inverno, a Primavera. Até lá há-de surgir-me o fio essencial das palavras. Fiquei muito comovido com o convite porque, no fundo, a tradição portuguesa é convidar um cidadão a tomar a palavra e a falar aos outros concidadãos. Isso é um gesto democrático muito significativo e que nos ajuda a criar coesão.

Falando de democracia, estamos em vésperas de eleições. Gostava de ver mais cristãos empenhados na causa comum?

As eleições são um momento muito belo, muito vital da democracia. É um momento de construção da vida comum. O importante é a participação de todos na construção do país. Aí penso que os cristãos não podem ficar ausentes. Têm de contribuir. Não podem estar ausentes na vida pública, na participação política. Isso é muito importante. Percebe-se que hoje há uma perceção de que não se pode simplesmente delegar nas mãos de outros o nosso interesse pela causa pública, pela construção da história, pelo futuro da humanidade. Uma certa crise da democracia, que é no fundo a escassa participação dos cidadãos, vai ser superada, porque as gerações mais novas dão todos os sinais de um empenho muito maior e isso há-de ter um reflexo da participação dos cristãos no espectro democrático.


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