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Tancos, mais rua e o regresso dos Centenos

04 out, 2019 - 08:39 • Eunice Lourenço , Paula Caeiro Varela , Susana Madureira Martins , Cristina Nascimento , João Cunha , Isabel Pacheco

Na última semana de campanha, aumentaram as ações de rua, Tancos foi diminuindo, mas nunca saiu da agenda e o furacão Lorenzo e a morte de Freitas do Amaral levaram a alterações.

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Não fosse a morte de Diogo Freitas do Amaral, fundador do CDS e ex-ministro de um governo PS, e o Chiado na tarde desta sexta seria uma mistura de descidas. Primeiro o PS, depois o CDS, a seguir o PSD. Mas a morte do último fundador do sistema partidário do regime democrático levou a uma desaceleração das campanhas na sua ponta final.

PS e PSD ainda descem o Chiado, mas sem música e o CDS cancelou a ação, assim como o comício festa previsto para a noite. Já o Bloco, no distrito de Setúbal, e a CDU, a subir até Braga, vão manter as suas ações neste fim de campanha em que andaram mais na rua do que na primeira semana.

A morte de Freitas do Amaral acabou assim por marcar o fim do período oficial de uma campanha eleitoral que teve o caso Tancos a percorrer toda a semana, se bem que a descer de intensidade. Intenso foi o furacão Lorenzo, que passou pelos Açores e levou o líder do PS a cancelar e alterar ações de campanha para acompanhar a situação como primeiro-ministro.

Também a marcar o andamento da campanha andaram as sondagens, que ora dão o PS a subir poucochinho, ora a descer, ora o PSD a subir, ora os pequenos partidos a conseguirem entrar na Assembleia da República.

Mas, lá dizem os políticos, as sondagens valem o que valem, o que conta são os votos contados no domingo à noite.

PS. Tancos, arruadas e um furacão

Foi a semana do aguenta-aguenta. De António Costa à espera que o tema de Tancos passasse, aliviasse de alguma forma. Manteve-se como tema tabu, bem como a guerra surda com o Ministério Público, com o líder do PS a garantir (a exigir?) respeito pelo poder judicial, mas a avisar que não anda ao sabor da conveniência eleitoral. Tancos, sempre Tancos.

E quando o tema parecia estar mais ou menos adormecido eis que é trazido de novo para a caravana socialista pela mão de Manuela Eanes. A mulher do ex-Presidente da República Ramalho Eanes foi apresentada numa arruada como apoio-surpresa do PS, mas acabou por falar de Tancos como um caso “gravíssimo”. Com Costa ao lado.

Quando não foi Tancos foi o Lorenzo. Ou por causa de Tancos a preocupação com o furacão que passou pelos Açores. Os dias sucederam-se desorganizados: Costa cancela agenda, Costa volta a marcar agenda, iniciativas a mudar de dia, de hora. Porque, afinal, o secretário-geral socialista também é primeiro-ministro e este não pode "meter férias".

Foi um vestir e despir a pele consoante a vontade e conveniência. Na organização de campanha questiona-se sobre o que se teria dito se o primeiro-ministro estivesse alegremente na rua em campanha com um furacão a passar pelos Açores.

A dada altura talvez se tenha percebido na caravana socialista que era preciso pôr o seu homem na rua. Mais na rua. Para lá dos comícios, para lá do contacto com os militantes. Aconteceu, Costa andou à vontade nas ações de rua, distribuiu rosas, foi bem recebido e a verdade é que nas passeatas não se ouve as pessoas falarem-lhe de Tancos.

PSD. Campanha diferente à base de Rio

Rui Rio prometeu uma campanha "diferente". Não queria "berros e críticas contra o adversário" em jantares-comício com militantes que já votam PSD. Esses não é preciso convencer.

Nalguns momentos foi mesmo diferente, sobretudo nas rábulas, ou momentos teatrais, que antecediam as "talks", termo usado pela direção de campanha para designar as sessões de perguntas e respostas (pré-combinadas) que substituíram os tais comícios tradicionais.

As respostas também estavam mais ou menos ensaiadas ou, pelo menos, não iam muito além daquilo que são as propostas que constam do programa eleitoral.

O líder social-democrata concentrou-se em alguns temas, como a degradação dos serviços públicos: prometeu, por exemplo, melhor gestão do SNS (mas avisou não pode melhorar tudo em quatro anos), menos carga fiscal (mas os portugueses não vão sentir uma redução abrupta na sua fatura fiscal), no fundo sem apresentar propostas concretas que corporizem a prometida alternativa. Talvez porque a grande diferença - acredita Rio e acredita a sua direção - é ele próprio. Uma mensagem centrada na personalidade do líder e da sua integridade, de político antissistema, de honestidade vendida como sendo à prova de bala.

Depois de segunda-feira, na reta final da campanha, Rio deixou cair Tancos dos discursos. Não fugiu do tema, mas quis assumidamente que já não fosse o foco central da sua campanha, como tinha sido durante quatro dias: quinta, sexta. sábado e domingo. Enquanto o seu líder parlamentar bradava contra a decisão de não convocar a comissão permanente para discutir o tema antes das eleições, o presidente do partido encolheu os ombros: era melhor ser antes? Era. Mas “ninguém morre por isso". ponto final parágrafo.

No mesmo dia voltou a conversa dos “Centenos”. O verdadeiro deu uma conferência de imprensa para dizer mal das contas do PSD e Rui Rio anunciou que o seu Centeno lhe daria uma aula. Mas Joaquim Sarmento só apareceu na campanha na quarta-feira e como peixe fora de água num passeio pela ria de Aveiro. Os desafios de ambos os lados para um debate caíram em saco roto por manifesta falta de vontade

Na rua, a campanha foi quase sempre morna. Exceções para a arruada de Santa Catarina, no Porto, e para a de Viana do Castelo, organizadas, mobilizadas, com bandeiras e confusão qb e aquela cadência dos bombos que contagia tudo à volta. Afinal de contas, o Minho é o Minho e não há comícios como os da Malafaia (quem nunca viu um arraial minhoto dificilmente consegue avaliar), e o Porto é o Porto e Rio bem disse que o Porto nunca o enganou e ele nunca enganou o Porto. Nos últimos dias intensificou-se o apelo ao voto do centro, aquele que tradicionalmente pende para o PS ou para o PSD, e aos abstencionistas. Ficar em casa é como votar no Bloco, no PCP ou no PS, avisou.

Bloco de Esquerda. Catarina ganhou a rua e deu um “chega para lá” ao PS

Na segunda semana de campanha, o Bloco de Esquerda (BE) foi até à rua e não se arrependeu.

Começou tímido em Lisboa e Viseu, mas o alento chegou a norte do país com Espinho, Vila Nova de Famalicão e Braga a colocarem Catarina Martins mais à vontade no género de ação que não parece estar no ADN do partido: as arruadas.

Foi também a norte que a líder bloquista deu os números aos objetivos eleitorais. Pediu mais deputados: o primeiro em Viseu e em Viana do Castelo e o segundo em Braga.

Estes foram alguns dos números apontados para o reforço pedido para 6 de outubro pela líder do Bloco que, depois de uma campanha apostada em falar no que foi feito e no que falta fazer, assumiu, pela primeira vez, a responsabilidade por parte do que não foi feito. Foi o “mea culpa” de Catarina Martins em áreas como a saúde e aos funcionários públicos.

Valeu o esforço da líder bloquista em manter a campanha afastada casos e das tricas. Catarina Martins matou à primeira a disputa de “Centenos” entre PS e PSD, mas não resistiu a dar um “chega para lá” a António Costa e lembrar-lhe que o PS não ganhou as eleições. Foi a reação da líder do BE que se impôs ao ataque socialista protagonizado Augusto Santos Silva. E, quinta à noite, Catarina quis deixar bem claro que está disponível para uma nova gerigonça.

A exceção entre os “casos” foi, claro está, Tancos. Uma presença inconveniente que, mesmo contra a vontade do BE, teimou em ficar até ao fim.

Mas, foram as propostas do partido para o país que fizeram o dia a dia dos bloquistas que, à semelhança das europeias, quiseram fazer uma campanha pela positiva. Se em maio, o resultado foi favorável, não havia razão para mudar a estratégia de jogo.

E, na preparação para o jogo eleitoral de 6 de outubro, entraram em campo, já na reta final, Francisco Louçã e Marisa Matias. Os dois bloquistas foram dois dos reforços da segunda semana de campanha do BE rumo às legislativas.

CDU. A “movida” comunista, finalmente, mostrou-se

A segunda semana de campanha da CDU foi a da chegada à rua. O contacto que faltou nos primeiros dias, ficou para os últimos. Em três dias foram quatro arruadas: Baixa da Banheira, Barreiro, Lisboa e Porto. São momentos em que se sente a "movida" ao estilo comunista, embora por vezes de forma mais contida. Jerónimo de Sousa é recebido com simpatia, mas, por exemplo, no Barreiro, a arruada foi mais um passeio (muito acompanhado) de Jerónimo de Sousa que, poucas vezes, saiu da rota e poucas vezes foi interpelado diretamente por quem passava. Muitos acenos e sorrisos, mas poucos beijinhos e abraços.

A segunda semana continuou a ser marcada pela polémica "Tancos", com Jerónimo de Sousa a falar sobre o assunto, mas apenas e só por solicitação dos jornalistas.

De resto, os temas abordados pelos dirigentes partidários são insistentemente os mesmos: a necessidade de impedir uma maioria absoluta do PS e o reforço da votação na CDU; alguns ataques ao PSD e CDS, quase nenhuma palavra sobre o Bloco de Esquerda.

De destacar ainda a genuína alegria que, quase 15 anos depois de eleito como líder do partido, Jerónimo de Sousa mostra nos encontros com os trabalhadores. Uma alegria que foi visível na ação de campanha que levou a caravana da CDU ao entreposto da SONAE.

CDS. Reta final marcada por incidentes e morte de Freitas do Amaral

Na primeira semana, a campanha do CDS ficou marcada pela sobriedade: Assunção Cristas “correu” com os bombos e com os alaridos e preocupou-se mais com a mensagem. As políticas do partido, em várias áreas, foram explicadas, em alguns casos com pormenor, aos militantes com quem se cruzava.

Na segunda semana aumentaram as feiras e arruadas, sendo certo que uma delas, no Porto, ficou marcada por uma tentativa de agressão à líder centrista e uma agressão consumada a um dos elementos da Juventude Popular. Nesse mesmo dia, outra “confusão”. Rui Moreira, autarca do Porto, era dado como certo num espetáculo na Casa da Música, a meio da tarde da última quarta-feira. A notícia foi veiculada, referindo-se o apoio claro do independente, que contou com o apoio do CDS nas ultimas autárquicas. Mas na mesma tarde, Rui Moreira garante que não dá apoio a ninguém e que, afinal, não vai ao espetáculo.

Antes disto, claro, o caso Tancos. Cristas a insistir que queria explicações do primeiro-ministro, devido a contradições no que declarou por escrito à Comissão de Inquérito, ao mesmo tempo que exigia que o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, enviasse ao Ministério Público as declarações de Costa e do ex-ministro da defesa, Azeredo Lopes. E nesta altura, regressam os bombos, os militantes de bandeiras em riste e o folclore típico de campanhas eleitorais.

E no penúltimo dia de campanha, soube-se da morte de Diogo Freitas do Amaral, que para muitos portugueses, é “pai” de gémeos: do CDS e da democracia portuguesa.

Foi fundador e primeiro presidente do CDS, fez parte de governos da Aliança Democrática, entre 1979 e 1983, e foi primeiro-ministro interino após a morte de Sá Carneiro. Ficam para a história as presidenciais de 1986, em que concorreu contra Mário Soares. E foi ministro dos Negócios Estrangeiro num governo PS como independente, depois de sair do CDS em 1992. Décadas de vida política e pública…

Assunção Cristas estava num almoço em Barcelos, depois de visitar a Feira, quando soube da notícia. E imediato fez um minuto de silêncio, em homenagem a Freitas do Amaral, destacou o seu papel na democracia, mas também sublinhou a desfiliação do próprio, por desentendimentos face ás orientações do partido. No último livro de memórias, Freitas do Amaral manifesta desencanto e até azedume contra o espaço político em que se esteve o centro-direita.

Cristas lembrou essas diferenças: “O professor Freitas do Amaral desfiliou-se do CDS. Depois, quando o partido fez 40 anos e houve algumas cerimónias, chegou a participar em alguns desses momentos, ou pelo menos num desses momentos. Nunca se voltou a refiliar e são conhecidas as suas posições públicas, mais distantes do CDS.”

E talvez por isso, o CDS decidiu não suspender as ações de campanha.

Já à tarde, em Viana do Castelo, numa visita à Escola Superior de Tecnologia e Gestão, houve a necessidade de lembrar à líder centrista que por duas vezes, houve campanhas do CDS suspensas: uma devido à morte da Irmã Lúcia, outra quando o país se despediu de Amália. E que os jornalistas – e os portugueses – gostariam de saber porque motivo não tinha decidido cancelar a campanha, que já vai no penúltimo dia.

Hesitou, engasgou-se, e acabou por ser evasiva na resposta, Cristas lembrou que parou o almoço para um minuto de silêncio, que era necessário saber mais pormenores sobre as cerimónias fúnebres. Mas que ia “olhar e reajustar toda a campanha”, que decorrerá a partir de agora num clima de sobriedade.

O PSD reduziu o sue comício final a um discurso do líder. O PS antecipou-se, e decidiu que a arruada no Chiado vai ser feita em silêncio. E o CDS-PP ainda anunciou que estava “analisar e reajustar” as suas ações de campanha eleitoral. Tinha uma arruada prevista para as 18h no Chiado e uma festa-comício à noite no largo do Caldas, ações que aconteceriam já com o velório do fundador a decorrer. Acabaram por ser cancelada na noite de quinta, quando Assunção Cristas também fez saber que iria ao velório nos Jerónimos e ao funeral do homem que fundou e lutou pelo partido que agora lidera.

Isto não é realidade virtual. As eleições legislativas explicadas com bonecos
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