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José Luís Ramos Pinheiro
Opinião de José Luís Ramos Pinheiro
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​Alguém imagina os populistas ambientais e a extrema-esquerda a tirarem o país de uma crise?

04 out, 2019 • Opinião de José Luís Ramos Pinheiro


A direita preparou-se mal para estas eleições. As diferenças entre os líderes do CDS e do PSD foram mais fortes do que a oposição à "Geringonça". Caso contrário ter-se-iam aliado, gerando uma alternativa credível. Era possível. A evolução das sondagens, ao longo da campanha, demonstra-o.

O PS partiu para a campanha eleitoral com enorme vantagem. Não era miragem. A maioria absoluta estava ali, ao virar da esquina. Rui Rio e o PSD tinham facilitado, pareciam liquidados. Uma oposição frouxa durante meses não augurava nada de bom.

Pelo contrário, o CDS nas mãos de Assunção foi, durante os últimos anos, uma oposição valente e determinada. Nas crises dos incêndios ou em Tancos, o CDS pôs o Governo em respeito, irritou o primeiro-ministro e inspirou muitos que não se reviam na "Geringonça". Mas falhou na questão dos professores e perdeu balanço nas europeias. A liderança do CDS desvaneceu-se no Verão, a escassos meses das legislativas.

Tudo parecia contribuir para que António Costa, o ‘otimista irritante’, estivesse a um passo do sonho: uma maioria absoluta que tornasse Catarina Martins dispensável.

António Costa não morre de amores pelo Bloco e pela (autoproclamada) superioridade moral dos seus dirigentes. Suporta-os por dever de ofício, isto é, para poder governar. Haverá pouca coisa que Costa não faça para merecer o apoio do Bloco, caso ele seja aritmeticamente indispensável. Mas é bem capaz de deixar Catarina a falar sozinha, se não precisar dela para o dia-a-dia da governação.

Hábil como poucos, o primeiro-ministro parecia escapar entre os intervalos da (muita) chuva que ocorreu durante estes quatro anos. O ressentimento do país pelos incêndios de Pedrógão evaporara-se. O roubo de Tancos desvanecera-se. Os dramas do Serviço Nacional de Saúde (depauperado como há muito não se via), não constavam da agenda. Centeno, campeão do défice e do expediente das cativações, era o expoente da alegria socialista.

A narrativa não podia ser mais simples – os socialistas haviam retirado o país da cepa torta, depois dos anos horríveis da troika. Claro que esses anos da troika ficaram a dever-se à ruinosa gestão da governação socialista de Sócrates e da qual António Costa chegou a fazer parte. Mas os pormenores pouco importam. O país estava a viver melhor. Se assim é, valeria a pena alguém preocupar-se com as minudências históricas do processo? A história até pode registar aquilo que realmente se passou, desde que não contamine a narrativa oficial do momento, perturbando o resultado eleitoral pretendido.

Acontece que a meio da campanha, a acusação sobre o roubo de Tancos e as suas implicações políticas deram novo fôlego à oposição, insuflando-lhe a energia perdida. Se o ministro da Defesa estava a par do assunto não estaria também o primeiro-ministro? António Costa sabia de facto o que se passava no processo de recuperação das armas ou Azeredo Lopes escondera a verdade ao primeiro-ministro? Assunção Cristas e Rui Rio ganharam vida nova. António Costa tremeu. Foi às cordas. O povo, como qualquer um de nós, pode distrair-se, mas percebe. Há coisas que não cheiram bem. Na expressão popular, cheiram a ‘esturro’. E as sondagens mexeram: PS a descer e PSD a subir. O PS assustou-se e com ele toda a geringonça. Tivesse o primeiro-ministro outra cor política, e o processo de Tancos, tendo consequências jurídicas, seria, sobretudo, um drama político. O primeiro-ministro que visse o seu ex-ministro da Defesa acusado de crimes num caso como o de Tancos seria cilindrado pelas tropas pesadas de Bloco, PCP e PS. Imperdoável, diriam. Não controlava o ministro, escolheu mal o personagem, deveria assumir a responsabilidade política pelo desvario de Tancos. Tal primeiro-ministro não deveria merecer a confiança dos portugueses. Seria impensável renovar-lhe o mandato.

Mas tratando-se do primeiro-ministro da Geringonça, tudo mudou. Virando-se contra Costa, a Geringonça virar-se-ia contra si própria. Seria um tiro no pé. Um favor à direita. Por isso, depois do aperto e da desorientação inicial, os parceiros da Geringonça lá vieram explicar ao país, que sendo o processo de Tancos muito estranho, trata-se sobretudo de um caso de justiça.

E que afinal de contas, a apreciação política na Assembleia da República de um caso que decorreu durante esta legislatura, bem pode esperar pela próxima. Após as eleições claro, ainda que logo a seguir às ditas. Aí sim, já com os votos sossegados nas urnas, haverá margem para o parlamento apreciar politicamente o assunto que CDS e PSD pretendiam discutir - pasme-se – antes do dia das eleições. Uma insensatez a que a Geringonça pôs cobro. A decisão da Geringonça de evitar discussões parlamentares sobre Tancos não teve como objetivo defender a atual maioria parlamentar. Longe disso. Tratou-se apenas de proteger a campanha eleitoral, evitando a sua contaminação por um assunto que é, pelos vistos, eminentemente judicial!

Também esta decisão, a ser tomada por uma maioria de direita, seria de imediato catalogada como anti-democrática. O parlamento amordaçado, as instituições em risco, a República ameaçada? O Presidente da República seria convidado a intervir.

Estas mudanças de narrativa, conforme a cor e os interesses do momento, põem em evidência o lado pior da política. E tornam o país vulnerável aos votos de protesto. Não temos extrema-direita – e ainda bem! – mas dispomos de uma razoável oferta de extrema-esquerda e de partidos populistas que à conta do ambiente e dos animais vão levando água ao seu moinho.

O PAN é um desses casos. Jura defender o planeta e garante proteger os animais. Tanto basta para o tornar simpático, aos olhos de quem não reconhece nos partidos do sistema merecimento para o seu voto. Nem importa se as propostas do PAN reduzem a liberdade e se impõem com a arrogância de quem pretende impor um único pensamento e um pensamento único sobre questões ambientais. São do contra. E isso basta.

Se o pais vier a ficar refém deste tipo de partidos, não fica melhor do que agora. Mas se dentro de pouco tempo, a economia regressar à maré baixa, como tantos analistas internacionais prevêem, aí tudo se complica e muito.

Se Portugal e a Europa tivessem novamente que apertar o cinto, alguém imagina o Bloco de Esquerda, o PCP e o PAN a tratarem da crise e a assumirem medidas difíceis, mas imprescindíveis à recuperação do país? Impensável. Nesse caso, os partidos do protesto saltariam de novo para a rua, assumindo-se como os campeões da oposição. A direita que viesse tratar do assunto, porque a extrema-esquerda e os populistas não estão cá para isso.

Um tal cenário não é impossível. Depende do modo como votarmos, no próximo dia 6 de outubro.

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