Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

​Feira de tagarelice

04 out, 2019 • Opinião de Henrique Raposo


Nas faculdades, a decadência das letras é auto-infligida. As humanidades tornaram-se “feiras de tagarelice”, para citar o nosso St. Agostinho.

Gosto de voltar ao “Confissões” de St. Agostinho, porventura o primeiro ou um dos primeiros romances autobiográficos. Li-o pela primeira vez há vinte anos quando era um ateu nietzscheano. Volto lá sempre, é um livro universal e intemporal, que prova, contra várias escolas materialistas e historicistas, que existe uma alma humana imutável.

Há uma humanidade comum e reconhecível à primeira vista entre um homem de 2019 e um homen de 430. Apesar de terem mais de mil e quinhentos anos, estas confissões de um homem do século IV ressoam na nossa consciência. É como se estivéssemos a ouvir a confissão de um vizinho.

Além da partilha da consciência, há uma partilha de polémicas. Com outros conceitos, Agostinho lida aqui com temas que são do nosso tempo, porque são temas eternos. Por exemplo, os ambientalistas e animalistas radicais de hoje são ecos dos “maniqueus”, que defendiam mais as árvores e os animais do que os seres humanos. De igual forma, o esteticismo oco dos pós-modernos de hoje parecem ecos dos formalistas criticados por Agostinho; formalistas que se banqueteiam no "prato do estilo" e não na manjedoura da procura da verdade.

Do início ao fim do livro, Agostinho critica os autores e professores que só olham para a (alegada) beleza formal das palavras (escritas e faladas), desprezando por completo o seu significado moral; autores que só se preocupam com o efeito retórico e não com a busca da verdade. Como dizia Camus, “o estilo, como a popelina, dissimula, muitas vezes, o eczema”. Do cinema à literatura, passando pelo pensamento e filosofia, a nossa cultura está saturada de autores assim. São os Zizeks da vida, autores que se limitam a brincar com as palavras, intelectuais que vivem na “curva linguística” que retiram os textos da realidade.

Estes textos pós-modernos flutuam num universo estético sem raízes nos dilemas políticos e morais dos seres humanos; escrever é aqui um mero divertimento de salão; pensar não passa de um exercício de cinismo engraçadista. Querem um exemplo? Zizek, o original, recusa a palavra “totalitarismo”, desprezando os milhões de mortos dos regimes como a URSS, e analisa o cristianismo através dos ovos kinder, sim, os ovos kinder, gozando assim de forma gratuita com milhões de crentes. Agostinho deixou-nos vários alertas contra estes castelos de palavras: “não era pois para refinar a língua que eu manuseava aquele livro, nem ele me convencera quanto ao estilo, mas quanto àquilo que dizia” (livro 3, IV, 7).

Por todo o ocidente, as humanidades (história, filosofia, departamentos de literatura) estão em crise. Uma parte desta decadência resulta, é certo, do endeusamento da ciência e da tecnologia. No entanto, a principal razão da decadência das artes liberais é este suicídio através do pós-modernismo à Zizek. Nas faculdades, a decadência das letras é auto-infligida. As humanidades tornaram-se “feiras de tagarelice”, para citar o nosso St. Agostinho.

Comentários
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  • João Lopes
    06 out, 2019 18:21
    Magnífica análise de Henrique Raposo!