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Opinião de Nuno Garoupa

Notas Soltas do Fim de Campanha

03 out, 2019 - 16:15

Os portugueses (que votam) parecem apostados em manter o atual sistema partidário.

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(1) Entre as escutas de Belém em 2009 e Tancos em 2019, há uma enorme sensação de déjà vu. A cabala, as trincheiras, as acusações, as traições, as coincidências, uma campanha cinzenta animada por um epifenómeno cheio de plasticidade eleitoral. Nas escutas de Belém, até hoje não se percebeu bem quem traiu quem. Veremos como acaba Tancos. Mas já só depois de 7 de outubro. Provavelmente daqui a muitos anos.

(2) Em 2009, nas eleições legislativas, a esquerda obteve: PS/37% (97 deputados); BE/10% (16 deputados); CDU 8% (15 deputados). As atuais sondagens disponíveis parecem decalcadas destes resultados, mais coisa, menos coisa. Então, não houve pré-Gerigonça (existiu, sim, uma coligação negativa contra o PS, no PEC IV). Desta vez, é verdade que Costa parece ter cortado as pontes com o Bloco para uma Gerigonça II, mas Costa é o mestre da ilusão. E o Bloco nunca deixou de insistir que tem ambições governativas.

(3) Em 2009, os resultados da direita nas eleições legislativas foram: PSD/29% (81 deputados) & CDS/10% (21 deputados). Tudo indica agora que Rio poderá por aí andar. É muito distinto do desempenho trágico de Rangel há três meses. Assim sendo, significaria que Rio veio para ficar (a oposição interna vai ter muitas feridas para lamber; o próprio M5.7 deixa de fazer qualquer sentido com estes prognósticos). Mas, com estas percentagens, Rio não foi buscar votos à esquerda. Simplesmente esmaga o CDS (que todas as sondagens apontam para metade do que teve em 2009) e os novos partidos (tudo na casa do 1%). Até é possível que aritmeticamente a direita, no conjunto dos cincos partidos, se aproxime dos 39% de novo (por coincidência, o resultado percentual também de 2015), mas continua muito longe de alargar a sua base eleitoral. Parece-me, pois, que a crise da direita é para continuar, mas muito possivelmente com dinâmicas distintas no PSD, CDS e novos partidos.

(4) O PAN possivelmente terá o seu grupo parlamentar, mas abaixo da percentagem das europeias. Parece muito improvável agora que haja maioria PS/PAN. A PANfobia não fez estragos pesados desta vez, mas a oportunidade de crescer terá sido algo truncada.

(5) Resta saber a dimensão da abstenção. Sabemos já que a mesma participação eleitoral de 2015 deixará a taxa de abstenção próxima dos 50% em 2019. Foi a revisão dos cadernos eleitorais. Que votem apenas cinco milhões e meio de eleitores não é assunto. E, como rematou o Presidente, depois das eleições europeias, 2/3 dos portugueses votam pela Europa. Que sejam 2/3 do 1/3 que votou é sempre um mero detalhe.

(6) Apesar de tudo, os portugueses (que votam) parecem apostados em manter o atual sistema partidário. Claramente, não há qualquer vestígio dos 25 mil milhões esfumados na banca na campanha, nos programas eleitorais e nas sondagens. Os contribuintes pagaram. Não há consequências do foro penal até ao momento. Simplesmente não é assunto. Os eleitores não parecem excessivamente incomodados. Os cleptocratas agradecem.

Nuno Garoupa, professor da GMU Scalia Law, universidade de Arlington, na Virginia, EUA

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