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Graça Franco
Opinião de Graça Franco
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Uma consciência singular

03 out, 2019 • Opinião de Graça Franco


Freitas do Amaral talvez tenha sido o único genuíno “centrista” e, por isso, o tenham deixado tantas vezes sozinho a meio da ponte da política. A pátria talvez na morte lhe preste a homenagem que não lhe prestou em vida.

Serviu Portugal e o bem comum de acordo com a sua consciência. Muitas vezes ao arrepio das exigências de coerência impostas por muitos profissionais da política, mais fiéis aos valores clubísticos do que aos valores proclamados. Isso valeu-lhe críticas dos dois lados: à direita de “traição” e à esquerda de “oportunismo”. Acabou profundamente magoado com as elites, mas sobretudo com a pátria que tentara servir dentro e fora de portas (primeiro na presidência da União Europeia das Democracias Cristãs e depois na sua longa passagem pela ONU) “à sua maneira” e de forma absolutamente “singular”. A pátria talvez na morte lhe preste a homenagem que não lhe prestou em vida.

Democrata-cristão, declarou-se sempre centrista, recusando o rótulo de direita que o país saído do 25 de Abril reservava para os que nunca tinham publicamente recusado viver “habitualmente” no antigo regime. Não foi um homem que tivesse buscado a mudança do sistema a partir do interior, embora Marcello Caetano o tenha convidado, sem sucesso, a integrar os seus Governos primaveris. Mas se lhe faltou esse currículo cívico, ganhou-o depois ao fazer do CDS a fortaleza contra as derivas de extrema-direita. Foi pai da democracia tal como a conhecemos, europeia, representativa e pluralista. Sem derivas extremistas.

Talvez tenha sido o único genuíno “centrista” e, por isso, o tenham deixado tantas vezes sozinho a meio da ponte da política. Ganhou na primeira volta das presidenciais de 1986 com uns invejáveis 48,8%, mas à segunda tentativa perdeu para Soares. Isso bastou para que os apoios do PSD e do CDS desaparecessem aí e nem as dívidas de campanha tenham sido pagas integralmente pelos partidos. Foi o seu património que acabou por lhes dar cobertura com o trabalho de jurisconsulto.

A unanimidade só a conseguiu como académico, embora mesmo aí alguns não lhe tenham nunca perdoado o entusiasmo colocado, depois da passagem pela Católica, na fundação, na Universidade Nova, traduzida na criação de uma Faculdade de Direito à semelhança do que se vinha praticando na América, cortando com a tradição das “sebentas” da Clássica onde se formara e conquistara a cátedra. O cordão umbilical com a escola de origem só o cortaria já em finais dos anos 1990.

Conheci-o como jornalista na minha primeira cobertura jornalística de uma campanha eleitoral. Estávamos em 1983 quando ele acabara de ser vice-primeiro ministro e ministro da Defesa Nacional da AD (Aliança Democrática). Nessa altura, homens como Freitas do Amaral, assumidamente democrata-cristãos, ainda precisavam não só de coragem política para defender as suas ideias, mas de coragem física para as defender na rua, onde a extrema-esquerda não hesitava aqui e ali em recorrer aos chamados “provocadores”. É essa primeira imagem de homem sem medo que ainda guardo dele.

Com uma estatura imponente, Freitas distinguia-se da massa e exibia essa mesma coragem intelectual e física quando nem na indumentária cedia. Lembro-me dele num dos principais comícios de Lisboa, e em múltiplas ações de campanha de rua, com o seu sobretudo verde, de boa qualidade, ao estilo de Oxford, rodeado de uma espécie de guarda pretoriana juvenil onde as samarras alentejanas se misturavam com as eternas calças cremes e blazers azuis que distinguiam os jovens “betos-centristas”, como se dizia no linguajar da altura.

A rodeá-lo, em plena baixa lisboeta, estava então uma classe média alta, vestida ao estilo “casual-chic”, descomplexada, avançando de braço dado com o baixo funcionalismo, os pequeníssimos comerciantes e uma massa anónima de proletários pouco confiantes nos amanhãs que cantam, que na altura recheavam os panfletos partidários, uma massa que se distinguia dos saudosistas do antigo regime e, embora conservadora, era maioritária e genuinamente democrata.

Como o Francisco Sarsfield Cabral bem explica, este talvez tenha sido o mais importante serviço que prestou ao país. Mesmo ficando isolado no voto contra a Constituição, Freitas do Amaral travou a tendência autoritária ou a ambição de um regresso ao passado.

Em Portugal não existe ainda hoje nada de semelhante ao que acontece em Espanha. A raiz da extrema-direita foi seca à nascença. Cortada a tempo de não voltar a crescer, pelo menos até 2019. Nisso não esteve sozinho: teve com ele Amaro da Costa e Francisco Sá Carneiro e o próprio Soares, desde a primeira hora. Até Cunhal, a que ele sempre fez face, talvez tenha ajudado, mesmo contra vontade, a firmar essa democracia plural e serena onde hoje vivemos. Bastaria isto para merecer de todos o nosso obrigado. Mesmo daqueles que nunca entenderam porque haveria de dar, em 2005, a sua colaboração a um Governo de tão triste memória como o de José Sócrates.

Talvez só tenha percebido o porquê da singularidade da aceitação desse último convite para MNE quem perceba que as exigências de consciência superam, muitas vezes, o que parece ser o estrito dever de agir, de acordo com as conveniências mais ou menos óbvias de cada época.

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  • Maria Oliveira
    03 out, 2019 18:44
    Paz à sua alma. O assunto das dívidas da campanha não é inteiramente exacto. Boa parte dessas dívidas foram pagas por várias pessoas (contribuição de 100 contos por pessoa) em resposta a uma carta do Dr. Proença de Carvalho solicitando essa contribuição. O Prof. Freitas do Amaral nunca o disse, pelo menos publicamente. Ficou, assim, a ideia de ter suportado, exclusivamente com o seu trabalho, o pagamento dessas dívidas.
  • Maria Sílvia Rodrigues de Moura
    03 out, 2019 18:43
    Parabéns. Bonito artigo.