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Luís António Santos
Opinião de Luís António Santos
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​O que se ganha com uma campanha ‘normal’?

02 out, 2019 • Opinião de Luís António Santos


A campanha, que arrancou morna e de tépida não passou, teve dois potenciais focos de aumento de tensão – Tancos e ‘o meu Centeno é maior do que o teu’ – e foi, sobretudo no arranque, marcada pela orientação de quase todos os discursos políticos para as questões do Ambiente.

No caso dos episódios, a conversa depressa afunilou para um confronto essencialmente a dois, com Rui Rio a redescobrir a alegria de desequilibrar António Costa e com este a precisar de chamar amigos fiéis para, em seu nome, sugerir o regresso da frase ‘quem se mete com o PS, leva’.

Quanto à questão do alinhamento com preocupações ambientais, ela varreu de forma tão transversal o espectro político que quase atordoou, por instantes, um André Silva que já se via a navegar sozinho as expectativas de um eleitorado jovem praticamente abandonado pelas forças mais tradicionais.

Os casos ainda por cá andam, se bem que com uma existência meia moribunda, e as declarações ‘gostamos muito do Ambiente’ já regressaram ao lugar periférico que sempre tiveram na política nacional.

A lassidão autoimposta não é, em todo o caso, forçosamente negativa. Aliás, percebem-se pelo menos duas vantagens.

De uma delas já aqui falei num outro momento – a oportunidade que deu a algumas empresas jornalísticas de apresentarem trabalhos (sobretudo em formatos digitais) de grande qualidade; hoje mesmo, a Renascença mostra-nos, de forma original, dados sobre todos os candidatos às eleições e o Público permite-nos ler nos programas políticos apenas as medidas que mais nos toquem pessoalmente.

Uma outra, certamente mais relevante, é a redução da crispação geral em torno da vida política, que permite conversas civilizadas sobre opções diferentes.

Esta constatação é mais fácil de fazer em contexto de redes sociais se, por exemplo, tomarmos para comparação o clima que se viveu durante a campanha de 2015.

Estaremos todos lembrados da veemência dos testemunhos e da violência dos ataques, fossem a favor ou contra, dos partidos da coligação que ganhou as eleições (a PaF) ou dos partidos que se lhe opunham.

Nesse terreno de emoções exageradas frutificavam com mais vigor memes com imagens adulteradas e com textos falsos ou indutores de erro. E essa circulação acelerada amplificava ainda mais os exageros de uma classe política em que apareciam sempre em posição de destaque as figuras mais combativas.

Em 2019 o contexto é outro, alguns agentes políticos (sobretudo os que ocupam os lugares cimeiros) são outros e o Jornalismo teve espaço de manobra para não viver preso a leituras ideológicas extremadas. Nesse sentido, esta é já uma campanha de ‘boa memória’.
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