Opinião de José Miguel Sardica
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Onde para o racismo?

02 out, 2019 • Opinião de José Miguel Sardica


Generalizar o “racismo” é torná-lo omnipresente e é engrossar o monstro do politicamente correto.

Para as patrulhas controladoras do politicamente correto, há racismo por todo o lado. O último caso mais mediático foi o do primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau.

O cavalheiro, tão bem-apessoado que o acham um Kennedy, foi a uma festa de Carnaval sobre as Mil-e-Uma-Noites disfarçado de Aladino. Além da fatiota, e para maior fidelidade à personagem, pintou a cara de negro. Isto passou-se em 2001. Tornada agora viral, a imagem ameaça arruinar a carreira política de Trudeau, acusado de “blackfacing”. O termo é antigo na América, e identifica todo o branco que se caracterizava de negro para ridicularizar ou denegrir essa cor de pele.

O visado caiu na armadilha do politicamente correto: de há muito um campeão da causa, não pôde deixar de o ser no momento em que não deveria tê-lo sido. Contrito, com a mão no peito, diante dos media, pediu desculpas, invocou a imaturidade de 2001 e por pouco não se imolou num qualquer altar de purificação antirracista.

O caso é cómico, até ridículo… e trágico. O primeiro-ministro canadiano andou muito mal, não em 2001, mas agora. As Mil-e-Uma-Noites e a personagem de Aladino não têm um autor concreto conhecido. Mas da sua origem árabe até às suas muitas representações ocidentais, Aladino foi consolidando a sua pele escura. Trudeau é branquinho e, por isso, para que a máscara de Carnaval fosse verosímil, teve de se “enegrecer”. Só isto. Era uma brincadeira e assim deve ser considerada. Faltou-lhe, o que se lamenta, lucidez e firmeza para enfrentar uma acusação ridícula.

Entretanto, li há dias uma entrevista sobre o caso. Uma investigadora africana de estudos pós-coloniais da UNLisboa declarava taxativamente que sim, que Trudeau fora racista. O jornalista perguntou-lhe então se também assim qualificaria um negro que branqueasse o rosto para se disfarçar de branco. Dependeria do “contexto” da situação, foi a resposta.

Percebeu o leitor? Se o branco se disfarça de negro é racismo, ponto final; se o negro se disfarça de branco, depende, mas provavelmente não será mais do que uma livre recreação de alteridade étnica, ou coisa que o valha, aceitável pelos polícias de costumes que para aí andam. E o racismo, aposto, não estará só no “blackfacing”. Imagine-se um branco disfarçado de Martin Luther King num qualquer baile de máscaras, mas sem a cara pintada de negro. De nada lhe valeria dizer que escolhera aquela figura por admiração política e não para a denegrir. Certamente também ele seria racista, desta vez porque teria usurpado a identidade de um negro sem dele assumir todas as características!

A fidelidade ao original é racismo; o desvio não o é menos. A contradição não interessa: só interessa a estigmatização do branco.

Pergunto, no título desta crónica, onde para o racismo? A questão é dupla. Por um lado, onde para no sentido de por onde anda ele, qual é o seu paradeiro. Já se vê que o racismo está em todo o lado: espreita em cada esquina, é vicio de (quase) todos os brancos, esconde-se nas mais inocentes brincadeiras, atitudes, frases ou palavras. Por outro lado, onde para no sentido de até onde irá esta “caça às bruxas” alegadamente racistas. Já se percebe que irá até onde for preciso para policiar pessoas e linguagem, cerceando liberdades e pensamentos. Isto é muito perigoso.

Generalizar o “racismo” é torná-lo tão omnipresente que deixaremos um dia de saber identificar quem, de facto, sem sombra de dúvidas, acha que há raças inferiores e as discrimina – porque o racismo é isto, qualquer que seja a sua cor de origem, e não outra coisa. E é engrossar o monstro do politicamente correto até ao ponto em que – como parece estar a acontecer com Trudeau – o monstro devora os seus próprios filhos.

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