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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

​Acender as luzes

27 set, 2019 • Opinião de Henrique Raposo


À noite, quando olhamos para o céu estrelado, há duas posições possíveis. A cínica diz-nos que está escuro. A posição de Nuno Costa Santos diz-nos, Sim, pá, está escuro, mas alguém está a acender as luzes!

Uma pastoral da cultura não procura necessariamente autores ou livros católicos. Encostada ao evangelho e não à beatice, uma pastoral cultural pode e deve sair do perímetro da fé e vaguear pelas margens à procura de irmãos.

O romance “Céu Nublado com Boas Abertas”, de Nuno Costa Santos, é um bom exemplo. Não sei como está a fé do autor, nem isso interessa, porque este livro é um escudo contra a impiedade do cinismo vigente. “Hoje as conversas com o divino são quase inexistentes”, diz o narrador. “O Deus da minha geração não existe. A existir, hipótese remota, gozável, demolível ao primeiro dichote, é no mínimo irónico, pós-moderno, desconstrutivista”. Quem fala assim não é gago e não é imune à dimensão transcendente do ser humano.

O livro conta duas histórias. A primeira é a história clássica do migrante que regressa à terra natal. O narrador, radicado em Lisboa, volta aos Açores (São Miguel) para se confrontar com um vazio de identidade. Não se sente lisboeta, mas também já não se sente açoriano; pelo menos, sabe que os locais não o vêem como um açoriano quimicamente puro. Neste sentido, “Céu Nublado com Boas Abertas” fez-me lembrar o meu “Alentejo Prometido”, pois revela um narrador perdido entre sentimentos de pertença num país estilhaçado por classes e regiões. O narrador é destratado como “fifi” (um betinho, um privilegiado) e como “português” (isto é, como alguém que abandonou as ilhas).

A segunda história do livro é a recordação do avô do narrador, um homem que sofreu um dos grandes flagelos dos nossos antepassados: a tuberculose, a vida nos sanatórios.

Ao longo destas duas histórias, fica-se muitas vezes com uma sensação de circularidade quase pós-moderna. Por vezes, o leitor sente que a história não avança, sente que o movimento exterior e interior do narrador está preso em areias movediças. Mas, com o tempo, percebe-se o porquê desta atmosfera: não resulta de qualquer literatice pós-moderninha; nasce, isso sim, da franqueza e da fragilidade melancólica do narrador.

Este não é um narrador impositivo que leva tudo à frente. Não. Vamos sentindo a sua dor. Ele, o narrador, é um de nós; senta-se ao lado dos leitores. Estamos juntos, ele e nós, estamos todos à mercê dos elementos naturais, vulcões e terramotos, e dos elementos humanos, a ira e a solidão. No fundo, vamos sentido a salutar incapacidade que ele tem para lidar com o cinismo que o rodeia.

E talvez seja esta a ideia principal. Ler este e outros livros de Nuno Costa Santos é ficar seguro de que a bondade existe no mundo; por muito frágil que seja, ela, a bondade, sobrevive no meio do sofrimento e do mal. Não nos rendamos por isso ao cinismo que só vê o escuro e que, devido a uma preguiça congénita, recusa levantar-se para ver as luzes que se acendem aqui e ali. À noite, quando olhamos para o céu estrelado, há duas posições possíveis. A cínica diz-nos que está escuro. A posição de Nuno Costa Santos diz-nos, Sim, pá, está escuro, mas alguém está a acender as luzes!

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  • Vera Costa
    28 set, 2019 09:16
    "está escuro, mas alguém está a acender as luzes!" Espero bem que sim! Que Deus ilumine as tristes cabecinhas de certas pessoas... porque se continuar como está, ninguém se entende com coisa alguma! e porque precisamos de nos sentar realmente ao lado uns dos outros! Eu sei que preciso que aqueles que se sentam do meu lado direito me entendam tal como os que se sentam do meu lado esquerdo! porque eu preciso de entender todos! ultimamente, eu acho que ninguém entende 'rien'! A minha prima telefonou-me e contou-me uma história: parece que tem cataratas, na vista claro! isso eu percebi! depois, foi operada (na semana passada) a uma vista e como não via quase nada, passou a ver ao longe, só, da vista operada! mas para ver ao perto, precisa de lentes receitadas pelo médico! então o médico marcou-lhe uma consulta para Março de 2020, para lhe operar a outra vista! e só depois é que vai marcar a consulta, das lentes, dos dois olhos! ela diz que não percebe! eu também não!!! De oftalmologia eu não entendo nada! mas pela lógica, até acho que fazer uma operação a uma vista e depois fazer à outra, passados 6 meses, está mal! se pelo menos conseguisse ver de uma vista? mas como além das cataratas, ela tem falta de visão, tem que mudar de lentes! Então, gastou dinheiro e não vê na mesma para fazer as coisas! só vê ao longe, da vista que foi operada! Como tem 3 gatos e 1cão, até lhe perguntei se não se enganou no médico! Duvido que alguém perceba isto! Bom fim de semana, Henrique Raposo!