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Crónicas da América
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​Populismo domina assembleia-geral da ONU, refletindo os ventos no mundo

25 set, 2019 - 00:13 • José Alberto Lemos, em Nova Iorque

Foi uma sessão de abertura como nunca se tinha visto. Bolsonaro, Trump, Al Sissi e Erdogan, em sequência e ao vivo, na tribuna das Nações Unidas. Uma ofensiva contra o multilateralismo, que Guterres tenta contrariar e que conta com Marcelo como aliado, entre outros. O secretário-geral da ONU mostrou preocupação com uma grande fratura entre EUA e China.

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Os discursos que nesta terça-feira abriram a 74ª Assembleia Geral das Nações Unidas dificilmente poderiam espelhar melhor os novos ventos que sopram no mundo. A sequência de abertura foi de molde a deixar qualquer democrata liberal angustiado. Jair Bolsonaro (Brasil), Donald Trump (EUA), Al Sissi (Egito) e Recip Erdogan (Turquia) subiram ao palco por esta ordem e quase monopolizaram as intervenções da manhã na sede da ONU, em Nova Iorque. Quase, porque antes deles falou o secretário-geral António Guterres, cujo discurso foi absolutamente contrastante com os líderes que se lhe seguiram.

Talvez ainda mais do que Trump, Bolsonaro foi a vedeta desta sessão. Porque era a primeira vez que falava neste fórum e porque recentemente esteve no centro da polémica sobre a Amazónia. E não se fez rogado. Apresentou-se como o Presidente de um novo país que acaba de se “libertar do socialismo” e que “quer liderar pelo exemplo”.

E que exemplos deu Bolsonaro para caraterizar o novo Brasil? Um país cioso da sua soberania que denuncia “duas falácias”. Que a Amazónia é o pulmão da humanidade e é património da humanidade. Nenhuma delas é verdade, segundo o Presidente brasileiro. E o mundo foi atrás das “mentiras” dos media internacionais, o que levou mesmo alguns líderes a pedir sanções para o Brasil sem sequer consultarem o país. O recado era para Macron, o Presidente francês. Em contrapartida, Trump mereceu elogios por não ter embarcado nas “mentiras”.

Um país apostado em defender e preservar a Amazónia no quadro estrito da sua soberania, porque “os ataques sensacionalistas dos media despertaram o nosso patriotismo”. Um compromisso solene porque o “Brasil é um dos maiores defensores da biodiversidade”. E dos povos indígenas que vivem no país.

Quanto a outros que lá viviam é que Bolsonaro já não é tão acolhedor. Nomeadamente cubanos que cooperavam com serviços sociais brasileiros, nomeadamente médicos. Foram expulsos porque eram “ideólogos do socialismo” pelos quais o Brasil pagava 300 milhões de dólares por ano a Havana. Cuba foi, de resto, uma referência constante no seu discurso. Desde uma conspiração dos anos 1990 entre Fidel, Chavez e Lula da Silva para impor o socialismo na América Latina até à responsabilidade pela situação atual da Venezuela, um país “onde o socialismo deu certo: estão pobres e sem liberdade”.

Há reminiscências dos tempos da guerra fria no discurso de Bolsonaro. Para além dos clichés populistas da atualidade, obviamente. Os presidentes socialistas que o precederam foram julgados e condenados, disse. Graças a um juiz que é um herói nacional e hoje ministro da Justiça, acrescentou, citando o nome de Sérgio Moro.

E isto em boa parte porque “a ideologia invadiu os media e as universidades para atacar os valores e as tradições” do país, como a família, a biologia (uma alusão à “ideologia de género”) e “até a alma, para expulsar Deus”. E foi a Deus que Bolsonaro deu graças por estar vivo depois de ter sido esfaqueado por um “militante de esquerda “.

A Assembleia Geral, cheia, não parece ter apreciado o populismo. Os aplausos foram escassos, muito escassos.

Trump e os “patriotas”

Na mesma linha, mas num tom bem mais sereno, Trump subiu à tribuna logo a seguir para responsabilizar igualmente os media e os académicos pelos “assaltos às nossas tradições e aos nossos valores”. E falou mesmo de uma classe profissional internacional empenhada em impor a ideologia da globalização. Algo que para o Presidente americano está destinado a falhar. “O futuro não pertence aos globalistas, mas aos patriotas”, garantiu.

Ironicamente, são justamente aqueles que criticam também a globalização que lhe mereceram mais censuras. China, Irão, Coreia do Norte, Venezuela, Cuba, Nicarágua, países que partilham com Trump esse culto exacerbado pelo “patriotismo”. Aqui entendido como eufemismo para nacionalismo, um termo que Trump se eximiu em utilizar.

Esse facto, contudo, não leva o Presidente americano a concluir que é justamente o nacionalismo que ele prega que conduz a situações de tensão e potencial conflito. A China foi acusada de violar as regras do comércio internacional a que se comprometeu quando entrou na Organização Mundial do Comércio, de manipular a moeda e de manter subsídios à produção. O Irão de patrocinar o terrorismo internacional e querer ser uma potência nuclear. Maduro da Venezuela de ser um “fantoche” de Cuba.

No resto, Trump insistiu nos seus temas recorrentes: contra as fronteiras abertas — “uma política cruel e má” — e a favor dos acordos bilaterais — “estamos prontos para fazer um magnífico acordo comercial com o Reino Unido em vias de sair da União Europeia”.

Em dois pontos, destoou do mantra populista: quando defendeu a liberdade em Hong Kong e quando defendeu os direitos das comunidades LGBT pelo mundo fora.

A Grande Fratura

O contraste destes dois discursos com muitos dos outros oradores foi patente, mas por terem sido os primeiros — quando a sala estava completa — e por terem sido proferidos por dois presidentes de duas grandes potências, ficaram a marcar claramente esta 74ª edição da assembleia geral da ONU.

Antes deles, tinha falado o secretário-geral, António Guterres, que expôs com a clareza habitual a sua agenda, com particular ênfase nas questões climáticas, o tema do ano e a sua grande aposta para o futuro. Mas, desta vez, Guterres manifestou uma preocupação nova. Aquilo a que chamou a Grande Fratura (com maiúscula no discurso) “com as duas maiores economias a criarem dois mundos separados e concorrenciais, cada um deles com a sua moeda dominante, comércio e regras financeiras, a sua própria internet a capacidades de inteligência artificial e a sua soma zero de estratégias geopolíticas e militares”.

“Temos de fazer tudo que é possível para evitar a Grande Fratura e manter um sistema universal — uma economia universal com respeito universal pela lei internacional, um mundo multipolar com instituições multilaterais fortes”, alertou Guterres, confessando recear que Estados Unidos e China (que não mencionou) acabem por construir cada um a sua esfera de influência em total antagonismo entre si.

Melhor aliado na luta pelo multilateralismo não podia ter o secretário-geral do que o Presidente português. Marcelo Rebelo de Sousa, que falou à tarde, reiterou a vocação multilateral de Portugal, num discurso semelhante ao que tinha feito no ano passado neste mesmo fórum. O PR voltou a ser uma espécie de anti-Trump, sem nunca nomear o Presidente americano, mas também sem papas na língua.

O aliado Marcelo

Marcelo invocou o fracasso da Liga das Nações, fundada exatamente há 100 anos, para lembrar que foram conceções “hipernacionalistas, isolacionistas e unilateralistas” então prevalecentes nos EUA que afundaram aquela primeira tentativa de erguer um mundo dialogante e cooperante.

Vinte anos depois começava a II Guerra Mundial. “O que parecera uma promessa, mesmo que precária, em 1919, convertera-se numa hecatombe em 1939”, lembrou, para tirar as lições da História.

Agora que estamos a entrar nos 75 anos da ONU, “vale a pena lutar por organizações internacionais que ajudem a resolver problemas que são de todos ou de muitos e não apenas de um ou alguns. E que esse um ou alguns, sozinhos, não conseguem enfrentar”.

“Vale a pena tudo fazer para que a História seja aprendida e que se não confunda o poder, a liderança, a conjuntura de cada momento com a eternidade”, alertou, para traçar um retrato que se ajusta na perfeição a Donald Trump: há que resistir “à tentação de olhar para o nosso ego, o nosso poder, a nossa próxima eleição, o apelo imediatista dos tempos difíceis ou de mudança acelerada, que é o de ignorar os outros, não aceitar os outros, rejeitar os outros, fazer de conta que o resto do mundo não existe, ou só pode existir se for igual a nós”.

Mais à frente ainda falou da necessidade de combater xenofobias e intolerâncias a propósito das migrações e dos refugiados que Portugal, como país de migrantes, tem acolhido com sucesso.

Pelo caminho, apelou a que todos se empenhem nas Nações Unidas a todos os níveis, incluindo pagar as contribuições obrigatórias para a organização, numa outra achega à administração Trump, que não tem pago atempadamente a sua quota, uma das muitas dores de cabeça que Guterres tem de enfrentar.

Marcelo foi, por isso, nesta 74ª assembleia geral, à semelhança do ano passado, um grande aliado do seu velho rival politico em Portugal.

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