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Eunice Lourenço
Opinião de Eunice Lourenço
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​Mamã dá licença?

24 set, 2019 • Opinião de Eunice Lourenço


Cautelas marcaram debates entre líderes partidários, que permitiram esclarecer programas e ideias. Campanha de estrada arranca esta terça-feira

Quem ouviu - e mesmo quem viu - o debate da rádio entre os seis líderes dos partidos com assento parlamentar não se terá apercebido, mas foi quase ternurenta a forma como António Costa, Assunção Cristas ou Catarina Martins puseram o dedo no ar a pedir a palavra, quais alunos bem comportados.

O cuidado para não se atropelarem, a cautela para não aumentar a conflitualidade foram uma marca dos debates pré-eleitorais. O ponto máximo terá sido o debate "sonso" entre Catarina Martins e Assunção Cristas. Tais cautelas levaram a que na generalidade das discussões a crispação fosse menor do quem em muitos debates quinzenais, no Parlamento.

A exceção foi o último debate, segunda-feira à noite, na RTP, um debate a seis que foi mais um debate a três, com António Costa a ter dois momentos de tensão, precisamente com as duas líderes que mais o conseguem irritar (e irritar-se com ele) nos debates parlamentares: Assunção Cristas e Catarina Martins.

Com o CDS, há muito que se percebeu que não há diálogo possível para Costa e com o Bloco a tensão tem aumentado à medida que se aproximam as eleições. Parecem um casal de amigos coloridos em que ela quer casar e ele não sequer transformar a amizade em namoro O secretário-geral do PS já deixou bem claro, ao longo da longa pré-campanha, que não quer levar o Bloco para o Governo e tenta impedir o seu crescimento eleitoral acenando com o fantasma da instabilidade política que se vive em Espanha.

Para além dos “arrufos” pré-eleitorais entre Costa e Catarina, a verdade é que a atitude de dedo no ar, de quem pede a palavra ou pede licença para interromper o outro permitiu-nos um conjunto de debates - de 15 debates - na sua generalidade esclarecedores. Permitiu aos eleitores conhecer melhor propostas, programas, ideias, posições dos principais partidos que concorrem a estas eleições. E as audiências mostram que havia, que há interessados nos debates. Dificilmente, alguém pode dizer “são todos iguais” ou “querem todos o mesmo”

Os debates permitiram, por exemplo, perceber como Rio e Cristas prometem descidas de impostos, mas têm discursos diferentes para as empresas, como Costa recusa as propostas de PSD, PCP e BE para uma nova contribuição das empresas para a segurança social, como não há quaisquer condições para uma reforma do sistema eleitoral.

Também nos mostraram como são diferentes as ideias de Rui Rio para a justiça, o que separa PS e a sua esquerda em matéria laboral, que Jerónimo e Cristas são os lideres que mais falam em políticas que permitam às famílias terem os filhos que quiserem, ainda que seja diferente a política que cada um defende. E foi nos debates que percebemos que André Silva não percebe bem como funciona o sistema de Segurança Social e tem dificuldades em explicar ideias quando sai dos seus temas de conforto.

Para quem gosta de política e para quem gosta do país, valeram bem a pena as mais de 12 horas de debate. Até houve momentos em que apetecia mais. Mais debate, entenda-se, tais eram os cuidados.

Agora, chega o tempo da campanha propriamente dita, que, apesar de já ter começado oficialmente, só arranca mesmo a sério esta terça-feira. Uma campanha que tem jantares de carne assada, comícios, mercados, mas também tentativas de novas formulas como “talks” e “sunsets”.

Os líderes que se portaram como bons alunos nos debates podem agora ir para uma espécie de recreio, onde há vários jogos à escolha, desde o cândido “Mamã, dá licença” até ao violento e perigoso “Lá vai alho”, passando pelo “Que linda falua”, porventura o mais recomendável para tempos eleitorais.

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